Apenas 20% das rodovias brasileiras oferecem alto nível de segurança, diz pesquisa

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Caminhões trafegam na rodovia Euclides da Cunha (SP), que apesar de não ser concedida à iniciativa privada, foi apontada com uma das melhores do país, segundo pesquisa da CNT divulgada no fim do ano passado - Karime Xavier - 20.fev.26/Folhapress

por Folha de S.Paulo

No Brasil, apenas duas de cada dez rodovias têm alto índice de “perdão aos motoristas”, ou seja, que oferecem nível maior de segurança em caso de acidentes de trânsito.

No outro lado da estatística, em cerca de 38% das estradas esse indicador é baixo, ou seja, a estrutura viária oferece perigo maior —o risco é médio em metade das rodovias analisadas.

Os dados, analisados em 2025, fazem parte de um recorte da Pesquisa CNT Rodovias chamado de Índice de Perdão nas Rodovias.

A pesquisa completa, que avalia as condições das estradas brasileiras, é realizada anualmente pela CNT (Confederação Nacional dos Transportes) e publicada no fim do ano.

O extrato mostrado na quarta-feira (3) avalia o quanto as características físicas das rodovias podem influenciar na gravidade dos acidentes.

Ao todo foram avaliados pouco mais de 114 mil km em todo o país.

A metodologia da CNT se baseia em um conceito internacional das “rodovias que perdoam”.

Conforme a confederação, o estudo indica o potencial de a infraestrutura atenuar ou agravar os impactos dos sinistros para os usuários das vias.

Quanto menos graves forem as consequências, maior é o nível de perdão atribuído à rodovia.

Entre os elementos analisados estão dispositivos de contenção (defensas e barreiras), acostamentos, áreas livres de obstáculos, atenuadores de impacto e outros equipamentos de segurança passiva.

Do total da malha rodoviária pesquisada, 19,9% (22.694 km) foram classificados com alto índice de perdão; 42,7% (48.733 km), com risco médio e em 37,5% (44.770 km), o perigo é maior.

Na comparação com os dados de 2024, houve uma leves redução no percentual de trechos classificados como alto perdão (-0,4 ponto percentual) e aumento da faixa intermediária (0,9 ponto percentual).

“Esse cenário mostra que mais de 80% da extensão analisada continua apresentando média ou alta probabilidade de que falhas de infraestrutura, somadas a erros de condução ou problemas mecânicos, resultem em mortes ou feridos graves”, diz a pesquisa.

São Paulo tem a malha mais segura. Em 70% dos quase 11 mil km de estradas paulistas avaliados há elevado padrão de segurança —somente em 518 km foram constatados riscos elevados.

Há casos, como do Amapá e de Roraima, em que não há nenhum quilômetro com a maior avaliação na análise do levantamento.

Os piores percentuais de baixo perdão são do Amazonas (74,7%) e do Maranhão (74,3%).

No Amazonas, onde o risco é maior, foram avaliados apenas 989 km de estradas (menos de 10% na comparação com São Paulo) e no Maranhão, 4.724.

Em nota, o DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), do governo federal, afirma que acompanha mensalmente as condições de trafegabilidade dos trechos rodoviários sob sua responsabilidade, por meio do ICM (Índice de Condição da Manutenção), considerando aspectos como a situação da pista, a sinalização, o funcionamento dos dispositivos de drenagem, entre outros itens.

O ICM, uma metodologia própria do DNIT, é dividido em quatro faixas de classificação: bom, regular, ruim e péssimo.

O levantamento mais recente, de abril, apontou que em todo o país, dos cerca de 58 mil km de rodovias sob responsabilidade do dpartamento, 75% foram classificados como bom, 15% como regular, 8% ruim e 2% como péssimo.

Segundo o órgão federal, no Amapá 51% das rodovias estão classificadas como bom e 24% como regular. Em Roraima 66% têm índice bom e 17%, regular.

“O diagnóstico do DNIT ainda aponta que no Amazonas 51% do segmento está classificado como bom e 24% como regular. Já no Maranhão o bom está em 61% da malha do estado e o regular está em 20%.”

“Esse resultado é reflexo das ações contínuas e nos investimentos em serviços rotineiros de manutenção e em intervenções corretivas de restauração do pavimento”, diz trecho do texto. “Além disso, o departamento mantém contratos continuados para a realização dos serviços de implantação, manutenção e conservação de dispositivos de segurança e sinalização horizontal.”

O DNIT ainda cita ações de educação de trânsito, entre outros.

Também em nota, Secretaria de Estado da Infraestrutura do Maranhão diz que mantém a malha rodoviária em constante manutenção.

“Os principais serviços em andamento nas rodovias contemplam tapa-buracos, roço das margens e sinalização viária, intervenções essenciais para oferecer maior segurança, conforto e fluidez aos condutores de veículos e pedestres.”

A Secretaria de Estado de Infraestrutura do Amazonas diz que a malha rodoviária analisada no estado contempla predominantemente rodovias federais, que são de responsabilidade do DNIT. E que o recorte monitorou uma única rodovia estadual, a AM-010, que atualmente está recebendo obras de infraestrutura

“Rodovias em execução de obra apresentam, por natureza, condições pontuais de trafegabilidade reduzida nos trechos de intervenção ativa, como ausência temporária de sinalização definitiva, alterações de geometria, e isso é inerente ao processo construtivo, não um indicativo de negligência ou baixa qualidade da gestão”, diz. “Tratar esse dado como representativo da malha rodoviária estadual amazonense é, tecnicamente, uma generalização inadequada.”

Procurados por email, os governos do Amapá e Roraima não responderam até a publicação deste texto.

Quilometragem avaliada

Região UF Alto perdão Médio risco Baixo Perdão Total Geral
Centro-Oeste DF 147 212 97 456
GO 1.233 3.789 2.662 7.684
MS 433 2.282 2.024 4.739
MT 793 2.862 3.501 7.156
Centro-Oeste Total 2.606 9.145 8.284 20.035
Nordeste AL 84 633 124 841
BA 656 3.741 4.905 9.302
CE 212 2.088 1.473 3.773
MA 25 1.190 3.509 4.724
PB 183 1.151 448 1.782
PE 453 1.551 1.185 3.189
PI 30 1.352 2.765 4.147
RN 92 865 926 1.883
SE 160 345 148 653
Nordeste Total 1.895 12.916 15.483 30.294
Norte AC 10 454 891 1.355
AM 20 230 739 989
AP 192 353 545
PA 340 2.154 1.959 4.453
RO 47 586 1.268 1.901
RR 333 826 1.159
TO 60 1.240 2.279 3.579
Norte Total 477 5.189 8.315 13.981
Sudeste ES 414 1.097 232 1.743
MG 3.477 7.269 4.811 15.557
RJ 1.383 1.098 168 2.649
SP 7.412 3.040 518 10.970
Sudeste Total 12.686 12.504 5.729 30.919
Sul PR 2.483 2.763 1.355 6.601
RS 1.664 4.039 3.110 8.813
SC 883 2.177 494 3.554
Sul Total 5.030 8.979 4.959 18.968
Total Geral 22.694 48.733 42.770 114.197

Fonte: Painel CNT de Rodovias que Perdoam Painel CNT de Rodovias que Perdoam

Os trechos com alto índice de perdão concentram-se principalmente nas regiões Sudeste e Sul, onde predominam as concessões.

Norte, Nordeste e Centro-Oeste registram corredores com médios e baixos índices, inclusive em rotas usadas para transporte de cargas e passageiros.

Mas há casos como Minas Gerais. Das 85 rodovias listadas, oito tem 100% do índice de perdão baixo. Todas são públicas, gerenciadas pelo estado ou pelo governo federal.

São Paulo conta com apenas duas estradas na faixa vermelha, de 106 pesquisadas, a SP-613 (rodovia Arlindo Béttio, na região de Presidente Prudente) e SPA-074, uma estrada de acesso na região de Araraquara, ambas são adminitradas pelo DER (Departamento de Estradas e Rodagem), do governo estadual.

Na malha paulista, 28 receberam índice azul de alto padrão —a SP 091, rodovia Francisco Von Zuben, também conhecida como Campinas-Valinhos, é a única pública neste grupo.

O levantamento mostra que, no geral no país, rodovias sob concessão privada são mais seguras. Conforme os dados, 62% (18.670 km) apresentam alto índice de perdão, enquanto em apenas 2,4% (718 km), o risco é o mais elevado.

Nas rodovias públicas, ou seja, administradas por governos, metade delas (42.052 km) têm nível de segurança baixo e só em 4,8% (4.024 km) as consequências dos acidentes podem ser menores devido às condições da estrada.

O percentual de estradas sob gestão públicas com alto perdão caiu de 6,2%, em 2024, para 4,8%, enquanto as concedidas mantiveram patamar de desempenho superior.

“A terceira edição do painel confirma que a qualidade da infraestrutura viária impacta diretamente a gravidade dos acidentes”, diz a diretora-executiva da CNT, Fernanda Rezende.

“Embora o cenário nacional indique estabilidade, os resultados mostram que os avanços ainda são desiguais, reforçando a necessidade de ampliar investimentos em segurança viária, especialmente nas rodovias sob gestão pública”, afirma.

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