Sinto falta de quando eu reportava escondido do Estado Islâmico, diz jornalista iraquiano
por Folhapress

O historiador iraquiano Omar Mohammed havia acabado de começar sua carreira como professor universitário quando a cidade de Mossul, onde nasceu e cresceu, foi capturada pelo Estado Islâmico (EI), em 2014. O grupo terrorista, que chegou a dominar um território com 8 milhões de pessoas, do tamanho do estado de Santa Catarina, conduziu uma brutal ocupação na cidade, que era a mais populosa sob seu comando.
Execuções públicas de pessoas acusadas de roubo, adultério e homossexualidade se tornaram rotina, assim como estupros sistemáticos, casamentos forçados de mulheres com membros do grupo e perseguição a minorias étnicas e religiosas.
Que esses fatos sejam de conhecimento público se deve em parte a Mohammed e seu blog, o Mosul Eye (Olho de Mossul, em português). Por quase dois anos, o historiador tornou-se jornalista, escrevendo de maneira anônima sobre a vida na cidade enquanto cumpria ostensivamente as exigências que o EI fazia de todos os homens —como utilizar calças acima dos tornozelos, participar das rezas obrigatórias e não aparar a barba, apesar de um problema de pele que tornava isso doloroso.
“Para registrar a história, eu precisava ficar vivo”, diz Mohammed, hoje pesquisador do Programa sobre Extremismo da George Washington University, sobre a forma como se portava em público. De junho de 2014 a dezembro de 2015, quando conseguiu pagar coiotes e fugir pela fronteira com a Turquia, o historiador foi a principal fonte de informação independente sobre a vida em Mossul.
Em julho de 2017, a cidade foi liberada pelas Forças Armadas do Iraque e tropas curdas. Em dezembro do mesmo ano, em entrevista à Associated Press, Mohammed revelou sua identidade. No exílio há mais de uma década, o jornalista diz que, mesmo depois de todos esses anos, não pode retornar ao seu país ou à cidade que ama.
“Foi um dos maiores preços que paguei pelo caminho que escolhi”, afirma Mohammed à Folha. “Sei o que aconteceria se eu voltasse. As milícias paramilitares deixaram muito claro que me matariam na hora. E o que sobrou do Estado Islâmico prometeu me matar de maneiras que a humanidade ainda não descobriu”, diz, rindo.
O que faria, entretanto, se pudesse voltar? “Respiraria. E olharia para o céu. De todos os lugares em que estive, Mossul é a cidade onde é mais fácil ver as estrelas.”
Mohammed também diz sentir falta do período em que passou infiltrado na própria cidade, vivendo uma vida dupla como súdito subserviente do EI e autor do Mosul Eye.
“Não sinto falta do medo e do trauma. Mas sinto falta de controlar meu anonimato. Eles não conseguiam me encontrar, não conseguiam descobrir quem estava por trás [do blog]. Tenho saudade do sentido que isso me dava —e da adrenalina”, afirma.
O historiador e jornalista vive hoje na França, onde leciona na Sciences Po (Instituto de Estudos Políticos de Paris). Ele acaba de lançar o livro “Mosul Eye: A Scholar’s Clandestine War Against ISIS” (Mosul Eye: A Guerra Secreta de um Acadêmico contra o EI). Convidado do 21º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), em São Paulo, Mohammed avalia que a profissão sofre pressão dupla de regimes autoritários e do público que consome notícias.
“A única coisa que provavelmente nunca vai mudar no jornalismo é o fato de que ditaduras sempre querem controlá-lo”, diz. “Ditadores odeiam jornalistas, porque o que fazemos é tornar a mentira custosa. Graças ao jornalista, mentir não é mais de graça. Se o ditador quiser mentir, precisa gastar muito dinheiro para isso, e muitos desistem”, afirma Mohammed, que dará palestra na quinta-feira (30) pela manhã.
Por outro lado, o historiador vê uma mudança na forma como leitores, espectadores e ouvintes se relacionam com o jornalismo.
“O público agora pressiona jornalistas a tomar lados, o que acho errado. Nosso trabalho não é ter um lado. No momento em que você faz isso, não é mais jornalista, é ativista —e não tem nada de errado em ser um ativista, mas aí você não pode se chamar de jornalista”, afirma. “Esse é o problema. As pessoas estão pedindo aos jornalistas muito mais do que o jornalismo está autorizado a fazer.”
Ao mesmo tempo, a proteção de jornalistas é cada vez mais precária, avalia. “Isso aconteceu, é claro, quando [Estado Islâmico] ocupou boa parte do Iraque. Mas, mesmo antes disso, depois de 2003 [quando os Estados Unidos invadiram o país], centenas de jornalistas foram mortos e sequestrados. Sempre aconteceu e, infelizmente, não vai parar. Não acredito na habilidade da assim chamada comunidade internacional de proteger jornalistas.”
Assim, o cenário que se desenha é pouco animador. “Estava conversando com um amigo jornalista do Iraque. Ele me ligou e disse: ‘Estou com medo’. Não do governo, que quer prendê-lo porque não gosta do que escreve, mas do fato de que não há mais jornalistas jovens no Iraque. Se não há mais jornalistas, estamos perdendo a batalha.”


