Ataques com drones ucranianos chegam ao balneário favorito de Vladimir Putin

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por Financial Times
Homem de chapéu e bermuda preta está em pé na praia de pedras, olhando para o mar. Várias pessoas estão deitadas e sentadas em toalhas e cadeiras, algumas sob guarda-sóis. Ao fundo, há três tendas brancas e uma construção com varanda, com rochas e vegetação ao redor.
Turistas tomam sol em uma praia na península da Crimeia, anexada pela Rússia em 2014 – Igor Ivanko – 21.jul.26/AFP

“Bom dia de Sochi. Estamos nos preparando para ir ao mar”, diz Antonina Kirsanova, uma cabeleireira de Moscou na casa dos 30 anos, em um vídeo publicado no Instagram. O elemento destoante no que, fora isso, seria um típico cenário de férias, é o barulho de uma sirene de ataque aéreo ao fundo. “Mas, na verdade, não está tão ruim assim… Quem não arrisca, não petisca”, acrescentou ela.

Uma semana após a publicação do vídeo, um drone caiu em uma praia de Arkhipo-Osipovka, outro balneário russo na costa do mar Negro, matando quatro crianças e três adultos e ferindo outras 40 pessoas.

Sirenes de ataque aéreo, interceptações de drones, incêndios, vazamento de combustível e filas nos postos de gasolina passaram a fazer parte das férias de muitos russos. A costa do mar Negro é um dos destinos de verão mais cobiçados do país, mas também abriga refinarias e terminais portuários, o que a torna alvo de ataques ucranianos.

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Autoridades de Kiev afirmam que têm como alvo apenas a infraestrutura militar e energética de Moscou. Segundo elas, os drones que caem em áreas civis foram interceptados por sistemas de defesa aérea antes de chegarem aos seus objetivos.

Com drones sobrevoando a região e vazamentos de petróleo que poluem a água, o número de turistas caiu 10,8% em relação ao ano anterior, segundo Dmitri Bogdanov, presidente da Amos, uma associação de hoteleiros do sul da Rússia.

A ameaça também parece ter afugentado o veranista mais famoso da região, o presidente russo, Vladimir Putin, que mantém uma residência oficial em Sochi, além de um palácio luxuoso supostamente construído para seu uso perto de Gelendzhik.

Putin visitou Sochi 24 vezes em 2021, o último ano antes de determinar a invasão em grande escala à Ucrânia, mas apenas duas vezes em 2024 e 2025, segundo o site do Kremlin.

Sua última aparição pública em Sochi ocorreu em outubro passado. Desde então, ele tem se limitado, em grande parte, a ficar em Moscou e em São Petersburgo, além de outra residência às margens do lago Valdai, no norte da Rússia.

Às vésperas das eleições parlamentares de setembro, Putin intensificou suas viagens pelo país, mas passou a maior parte do tempo ao leste —fora do alcance dos drones ucranianos.

Mas os russos comuns continuam frequentando o balneário. As praias e os cafés à beira-mar na costa do mar Negro permanecem lotados —evidenciando como a vida cotidiana e a guerra estão cada vez mais entrelaçadas na Rússia, enquanto o conflito se arrasta pelo quinto ano.

Aleksei, um gerente de Voronezh, viajou para Sochi em junho com a filha. Preocupados com a poluição da água e os ataques de drones, eles evitaram o mar e nadaram na piscina do hotel.

A viagem esteve longe do ideal, mas Aleksei tinha poucas opções: seu empregador agora é classificado como integrante do complexo militar-industrial e, assim como um número crescente de russos, está proibido de sair do país.

Explosão com fumaça laranja ocorre próxima à costa onde várias pessoas nadam e estão na água. Ao fundo, área verde com construções e barcos ancorados.
Captura de tela de um vídeo que mostra o momento do ataque de um drone a uma praia, na região de Krasnodar – Redes sociais – 3.ago.26/via Reuters

O capitão de um barco turístico em Arkhipo-Osipovka disse ao jornal Financial Times que, antes do incidente fatal deste mês na praia, “as sirenes quase nunca tocavam”; agora, elas soam “várias vezes por dia”. Poucos banhistas procuram abrigo quando os alarmes disparam.

“Quando saio para o calçadão à noite, sinto essa estranha dissonância —música, dança”, disse Maria, proprietária de uma pousada em Kabardinka, outro balneário do mar Negro, na região de Krasnodar.

Maria afirmou que as reservas de seu estabelecimento para este verão (no hemisfério Norte) estavam no mesmo nível do ano passado e que algumas pessoas “nem sequer perguntaram como estavam as coisas”. Mesmo depois do ataque à praia de Arkhipo-Osipovka, ela recebeu só dois pedidos de cancelamentos.

“Se existe um paraíso na Terra, é a região de Krasnodar”, dizia um conhecido slogan publicitário do início dos anos 2000. O apelo ainda funciona: para muitos russos, passar as férias no mar Negro é uma das poucas opções ao alcance.

Mais de 65% dos 146 milhões de habitantes da Rússia nunca estiveram no exterior, e 30% nunca saíram de sua região de origem, segundo dados de pesquisas recentes.

Depois que Moscou lançou seu ataque à Ucrânia, em 2022, muitos países ocidentais deixaram de emitir vistos de turista para russos, companhias aéreas suspenderam voos e até pagamentos internacionais com cartões da Rússia se tornaram impossíveis.

Agora, mais de 80% das viagens dos russos são domésticas, segundo a Ostrovok, uma das principais operadoras de reservas de férias da Rússia. A região de Krasnodar responde por 11% de toda a demanda.

Esse trecho do litoral também tem atraído drones ucranianos. Novorossisk abriga um porto crucial para as exportações de petróleo e é o destino do oleoduto CPC, que transporta 80% das exportações de petróleo do Cazaquistão.

A vizinha Tuapse abriga uma das maiores refinarias da Rússia, cuja capacidade foi parcialmente destruída pela Ucrânia nos últimos meses. Os ataques também provocaram dois grandes vazamentos de petróleo, cujos rastros negros eram visíveis na água do mar até mesmo em imagens de satélite.

As praias de Anapa, um balneário repleto de colônias de férias, foram fechadas depois que um petroleiro afundou no mar de Azov, em 2024. Voluntários ajudaram a limpar o litoral, que só reabriu em junho, depois que as autoridades levaram ao local centenas de milhares de toneladas de areia. Mas ambientalistas temem que ainda haja óleo sob ela.

Os vazamentos e os ataques com drones afetaram o turismo. Alguns hotéis registraram quedas de até 20% na ocupação, enquanto as reservas de passagens para Sochi, o principal aeroporto que atende aos balneários russos do mar Negro, caíram 40% em relação ao ano anterior, segundo uma pessoa com acesso aos dados da maior plataforma para férias da Rússia.

Zhupar Oserbaieva, seu marido e suas duas filhas levaram mais de 20 horas para ir da região central de Kaluga até Arkhipo-Osipovka, no fim de julho.

No caminho, tiveram de enfrentar filas nos postos de gasolina. Ainda assim, ela ficou encantada: “Tudo estava tão maravilhoso quanto nos anos anteriores”, disse, acrescentando que foram embora antes do ataque. “Estávamos passando as férias no nosso país favorito.”

Na vizinha Crimeia, península ucraniana anexada pela Rússia em 2014, combustível, água e eletricidade são racionados sob regras de estado de emergência em meio a ataques frequentes das forças de Kiev. Os russos que procuram férias em uma praia do próprio país, à beira do mar, têm poucas alternativas.

“Os drones estão sobrevoando o país inteiro”, disse Maria, a proprietária da pousada em Kabardinka. “Mas as pessoas estão tão cansadas de viver neste pesadelo que simplesmente não se importam mais. Elas só querem mudar de ares.”

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