Governo Lula anuncia R$ 2,5 bi para IA, com supercomputador no RN e parceria com gigante chinês

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por Folhapress

Homem de camisa branca e chapéu bege segura microfone e fala para público que registra com celulares. Ao fundo, parte da bandeira do Brasil com a palavra 'PROGRESSO'.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante a convenção nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), em 2 de agosto – Bruno Santos/Folhapress

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou nesta quinta-feira (20) um pacote de investimentos de R$ 2,5 bilhões para ampliar a infraestrutura necessária para desenvolver e treinar modelos de inteligência artificial no país.

Segundo pronunciamento do presidente no Parque Tecnológico de Macaíba, a 30 quilômetros de Natal, o governo planeja a compra de um supercomputador, que será instalado na região metropolitana da capital potiguar, a implantação de uma infraestrutura de computação avançada no Rio de Janeiro, em parceria da RNP (Rede Nacional de Ensino e Pesquisa) com o gigante chinês Huawei, e a estruturação de uma nuvem brasileira, com computadores no Brasil e controle sobre o software.

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A decisão de alocar a máquina no Nordeste e de fazer uma parceria com a China foi antecipada pela Folha. Quando justificou a escolha do local, Lula disse: “Eu não tenho nada contra o Sul, nem contra o Sudeste”.

“Mas não é justo colocar todo o investimento onde já está toda riqueza”, emendou.

Os recursos já estão garantidos no FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), por meio do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (Pbia).

A União destinará cerca de R$ 1 bilhão ao edital de compra do supercomputador, R$ 1,27 bilhão ao longo de quatro anos a um centro de computação avançada no Rio e R$ 125 milhões ao desenvolvimento de chips livres de patente.

O pacote ainda inclui investimento de R$ 50 milhões em um Centro de Transparência Algorítmica, comandado por pesquisadores da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) a fim de produzir análises de risco e falha dos modelos de IA disponíveis no mercado, aos moldes do que existe na Europa.

O último anúncio é uma parceria com empresas de tecnologia para a chamada “nuvem brasileira”, ainda sem indicação de custo no orçamento.

O governo já investiu mais de R$ 1 bilhão na instalação de servidores de nuvem, fornecidos pelas big techs e sob o controle do Serpro e da Dataprev. A ideia é que esses servidores, usados na infraestrutura de computação pública, passem a ser fabricados no Brasil e usem software compartilhado com a União.

O anúncio de Lula ocorre cinco dias após a Reuters revelar uma operação da Casa Branca para isolar a China no desenvolvimento de IA. O governo de Donald Trump deve alertar 35 países, incluindo o Brasil, que os excluirá de uma coalizão liderada pelos EUA para distribuição de investimentos em tecnologia.

“Fazer parte de tudo é não fazer parte de nada. A assinatura da Declaração Pax Silica não é uma mera adesão, mas um compromisso”, diz a carta, vista também pela Folha. O documento insta os países a “escolher deliberadamente” um lado quando o assunto é IA.

A Reuters publicou o conteúdo do documento quatro dias depois de o presidente Lula dizer que o Brasil não está pronto para disputar tecnologicamente nem com americanos nem com chineses. Ele diz querer os dois países “conosco”.

Em entrevista à Folha na semana passada, a ministra de Ciência e Tecnologia, Luciana Santos, reconheceu que o governo terá de lidar com “incertezas e riscos” na compra dos supercomputadores.

“Os Estados Unidos ameaçam cessar o fornecimento a quem fizer negócios nessas áreas mais críticas com a China.”

Ela pondera que as empresas americanas também têm o interesse de vender seus produtos para o Brasil, considerando que é uma compra de mais de R$ 1 bilhão. “Não sei até que ponto o que é proclamado vai acontecer na prática, porque se trata de um interesse objetivo.

Veja investimentos

SUPERCOMPUTADOR

O governo abrirá um edital de concorrência para a compra de um supercomputador de inteligência artificial, com investimento estimado em R$ 1 bilhão. Os detalhes serão publicados no diário oficial da União desta quinta-feira (20).

A infraestrutura deverá operar com 7.200 petaflops em uma precisão de 16 bits —uma especificação técnica para 7,2 quintilhões (18 zeros) de operações matemáticas por segundo em um padrão típico de operação de IA. Como base de comparação, o supercomputador Santos-Dumont, a atual máquina mais potente do país instalada no interior do Rio de Janeiro, opera com 27 petaflops.

Treinar, no Santos-Dumont, um grande modelo de linguagem como o GPT-4 (geração do ChatGPT do fim de 2023), levaria 11 anos. Com o novo supercomputador, será possível fazer o mesmo em um mês.

A máquina será instalada no Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo, no Rio Grande do Norte, um estado governado desde 2019 por uma correligionária de Lula, Fátima Bezerra (PT). Severo foi um pesquisador potiguar, que construiu dirigíveis entre 1894 e 1902, ano em que ele morreu durante a explosão de uma aeronave.

Segundo a ministra da Ciência e Tecnologia, a escolha da locação no Nordeste visa “ao enfrentamento da desigualdade regional”. Outro critério foi a disponibilidade de energia limpa na rede de transmissão.

O principal fornecedor da tecnologia necessária em um supercomputador nas especificações buscadas pelo Brasil é a Nvidia. As alternativas de equipamento vêm das também americanas AMD, Intel e Google.

A montagem da máquina, porém, é dividida por várias empresas, como a multinacional Lenovo, as americanas HP e Dell e a francesa Bull, além de fabricantes white label sediados em Taiwan.

O edital prevê ainda contrapartidas da empresa vencedora relacionadas a transferência de tecnologia, pesquisa e desenvolvimento, conteúdo local e participação de fornecedores brasileiros. A exigência do governo é de capacitação de 5.000 brasileiros em cinco anos.

IA NACIONAL

O governo também planeja implantar uma infraestrutura de supercomputação no Rio de Janeiro, por meio de uma cooperação entre a chinesa Huawei e a RNP, uma organização social vinculada ao MCTI para desenvolver pesquisas tecnológicas.

O centro de pesquisa carioca, com início de operação previsto para 2027, terá a missão de desenvolver um grande modelo de linguagem, como ChatGPT e Claude, com cooperação da também chinesa iFlytek, uma companhia de IA com foco em tradução e transcrição. O objetivo é que a tecnologia tenha habilidades não só em português, como também em espanhol.

O governo estima que investirá R$ 1,276 bilhão ao longo de cinco anos na parceria, que incluirá capacitação de 3.000 profissionais brasileiros. O valor é relativamente modesto comparado com o investimento privado necessário para a construção do data center do TikTok no Ceará, de quase R$ 50 bilhões.

Como contrapartida, a Huawei e a iFlytek oferecerão transferência de tecnologia, pesquisa e desenvolvimento, segundo comunicado do governo.

CHIPS LIVRES DE PATENTE

Segundo o governo, a terceira rota tecnológica é uma estratégia de longo prazo, com horizonte de 10 a 15 anos, para ampliar a capacidade brasileira de desenvolver chips e reduzir a dependência de tecnologias controladas por poucas empresas ou países. Essa alternativa receberá R$ 125 milhões de investimento público e, segundo os planos, deve captar R$ 125 milhões da iniciativa privada.

A construção de chips no país terá base na arquitetura RISC-V, uma tecnologia aberta e não proprietária que permite desenvolver e adaptar peças sem depender dos projetos dos gigantes da tecnologia.

Essa frente será operada pelo Instituto Eldorado, em Campinas, em comparação com o ecossistema de inovação de Barcelona, na Espanha. “A iniciativa busca ampliar o domínio brasileiro sobre tecnologias críticas para a computação de alto desempenho e a inteligência artificial”, diz o governo em comunicado.

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