‘Modelo Bukele’ usado em El Salvador não derrotaria PCC e CV no Brasil, diz especialista em segurança pública

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por BBC

Presos com uniformes brancos estão na cela de uma prisão enquanto são observados por um policial
Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot), erguido por Nayib Bukele em El Salvador, é considerado um modelo por muitos políticos latino-americanos de direita

A política de segurança do presidente Nayib Bukele em El Salvador virou uma bandeira eleitoral na disputa pela Presidência do Brasil e de vários países latino-americanos.

Vários presidenciáveis brasileiros de direita — entre os quais Flávio Bolsonaro (PL), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) — têm dito que, se eleitos, pretendem replicar no Brasil ao menos parte do “modelo Bukele”. Desde que o salvadorenho assumiu a Presidência, em 2019, a taxa de homicídios de El Salvador despencou, passando de uma das mais altas do mundo a uma das mais baixas do Hemisfério Ocidental.

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Porém, para o cientista político canadense Robert Muggah, especialista em segurança pública e violência urbana, há diferenças significativas entre Brasil e El Salvador que impediriam a implantação da estratégia salvadorenha no maior país sul-americano.

Entre essas diferenças, ele destaca o poder das duas maiores facções criminosas brasileiras, Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC), em comparação com as duas principais organizações criminosas salvadorenhas, Barrio 18 e Mara Salvatrucha (MS-13).

Segundo ele, enquanto PCC e CV têm estruturas que se assemelham às de empresas multinacionais — com negócios diversificados, operações de lavagem de dinheiro e conexões com redes internacionais de tráfico de drogas —, as facções salvadorenhas são bastante territoriais e têm marcadores claros de pertencimento, como tatuagens.

“Prender em massa integrantes do PCC como se fez com a MS-13 é muito mais difícil por causa da distribuição da facção brasileira tanto no mercado doméstico quanto no internacional”, diz Muggah em entrevista à BBC News Brasil.

Doutor em Filosofia pela Universidade Oxford, no Reino Unido, Muggah mora no Brasil desde 2011 e é um dos fundadores do Instituto Igarapé, centro de estudos voltado a temas de segurança pública, meio ambiente e tecnologia.

Nos últimos anos, ele produziu diferentes estudos sobre as políticas de segurança do governo Bukele. Desde 2022, o país vive sob um regime de exceção decretado pelo Congresso para combater o crime.

Entre outras medidas, o regime passou a permitir que a polícia prendesse pessoas sem mandado e as mantivesse detidas por longos períodos antes de uma acusação formal, além de restringir o acesso dos presos à defesa.

Para Muggah, embora o modelo tenha produzido resultados inquestionáveis na redução da violência, também acarretou “consequências graves para os direitos civis, o sistema judicial, as prisões e a própria democracia” em El Salvador.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

BBC News Brasil – Você escreveu que, em muitos países latino-americanos, as políticas de segurança hoje ocupam o espaço político antes ocupado por programas sociais. Pode explicar?

Robert Muggah – Se olharmos para a América Latina e o Caribe, o crime organizado e a violência interpessoal estão entre os principais temas políticos e eleitorais. A região apresenta taxas de homicídio, criminalidade e vitimização persistentemente acima da média.

O que vemos são pessoas — e, mais importante, eleitores — irritadas e preocupadas com os altos índices de crimes violentos, extorsões, roubos, sequestros e com a crescente influência de facções e milícias. Elas também estão insatisfeitas com a fragilidade dos sistemas judiciais, das forças de segurança e dos serviços públicos no território.

Assim, diante do aumento da criminalidade e da aparente incapacidade dos governos de controlá-la, a política latino-americana e caribenha vem se deslocando mais para a direita. Basta observar as últimas 15 eleições na região: em 13 delas, governos passaram da esquerda ou do centro para a direita radical.

Em um contexto no qual as pessoas estão preocupadas com o crime, a segurança — ou pelo menos a promessa de segurança — conquista votos. Desde 2022, Bukele vende uma mensagem de segurança. É uma mensagem simples, emocional e eleitoralmente poderosa, que está ganhando força não apenas no Brasil, mas em países da América do Sul, da América Central e também da América do Norte.

Homem branco, com cabelos grisalhos, camiseta preta e fundo borrado, em chamada de videoconferência
Para Robert Muggah, modelo Bukele pode ter consequência nocivas no longo prazo

BBC News Brasil – Você também escreveu que a influência de El Salvador nos países da região decorre menos de alguma política específica e mais do fato de o país ter tornado “politicamente atraentes a rapidez e a certeza da punição”. O que quis dizer?

Muggah – Em 2022, Bukele introduziu uma fórmula de segurança baseada na promessa de ordem, uso da força máxima, prisões em massa, grandes presídios, enfraquecimento das garantias processuais e uso estratégico da mídia e das redes sociais para exibir facções capturadas e demonstrar que o Estado retomou o controle.

A abordagem ganhou popularidade não apenas pelo espetáculo, mas pelos resultados. Em 2015, El Salvador tinha mais de 100 homicídios por 100 mil habitantes, contra cerca de 7 na média global e 20 na América Latina. Em 2024, o governo informou uma taxa inferior a 2 por 100 mil — uma queda de 98%. Também houve redução das extorsões registradas e aumento da sensação de segurança e liberdade de circulação, o que rendeu a Bukele enorme popularidade.

O modelo passou a inspirar políticos em países como Brasil, Equador, Argentina, Colômbia, Guatemala e Costa Rica, por oferecer uma fórmula simples e eleitoralmente atraente diante da ansiedade provocada pelo crime organizado, cuja influência cresceu com os lucros do tráfico de drogas e a expansão para outros mercados ilícitos.

O chamado efeito Bukele teve, portanto, o mérito de colocar a segurança pública no centro do debate e mostrar que o domínio das gangues não precisa ser normalizado. Muitos salvadorenhos hoje se sentem mais seguros e menos amedrontados. Mas é preciso lembrar que esse resultado veio acompanhado de consequências negativas muito graves, embora menos visíveis, que podem produzir efeitos corrosivos sobre a sociedade no médio e longo prazo.

BBC News Brasil – Quais efeitos?

Muggah – Um é a detenção arbitrária: cerca de 86 mil pessoas foram presas em um país muito pequeno, muitas sem necessariamente serem culpadas, especialmente jovens de bairros pobres.

Outro efeito é a degradação do devido processo legal. Os poderes de emergência permitem manter pessoas presas por mais tempo, limitar seu acesso a advogados e enfraquecer mecanismos de controle, tornando mais difícil distinguir culpados de inocentes.

Há também a superlotação carcerária. El Salvador construiu o Cecot [Centro de Confinamento do Terrorismo, destinado a membros de facções criminosas], com capacidade para até 40 mil pessoas, mas os presídios latino-americanos já são superlotados e frequentemente mal administrados, funcionando como centros do crime organizado. Por isso, o modelo salvadorenho pode não ser facilmente replicado em países maiores e mais complexos.

Somam-se a isso o deslocamento do crime, o enfraquecimento dos mecanismos democráticos de controle e os impactos sobre jornalistas e o espaço cívico. Assim, embora haja evidências de uma queda significativa da violência, o modelo de mano dura também traz consequências graves para os direitos civis, o sistema judicial, as prisões e a própria democracia.

BBC News Brasil – Como você definiria o governo de Bukele? Uma democracia, uma ditadura ou algo entre os dois?

Muggah – Eu diria que o governo de Bukele é uma democracia apenas no nome, mas com um componente autocrático, marcado por um alto grau de concentração de poder e por uma espécie de doutrina populista em sua base, além do enfraquecimento de muitas das instituições democráticas.

BBC News Brasil – Você mencionou todos esses aspectos negativos e, ainda assim, a popularidade de Bukele segue muito alta, uma das maiores da América Latina. Acha que esse cenário pode mudar?

Muggah – É difícil dizer. Uma das lições das intervenções anteriores de mano dura na América Central é que elas podem reduzir rapidamente a violência e gerar dividendos políticos para líderes vistos como fortes. Mas, no médio e longo prazo, são caras e, sem políticas sociais, programas de redução da reincidência e prevenção do recrutamento por gangues, a violência pode voltar com força, às vezes pior do que antes.

No caso de Bukele, a diferença é a aparente transformação do estado de emergência em algo permanente, com encarceramento prolongado. Uma vez adotadas, essas medidas também são difíceis de reverter.

Existe a possibilidade de que, à medida que as pessoas se acostumem a uma relativa redução da insegurança e a melhorias na segurança pública, os outros efeitos negativos dos estados de exceção — como a redução das liberdades civis e as restrições a direitos e liberdades — se tornem uma questão cada vez mais urgente para o eleitorado.

BBC News Brasil – Daniel Noboa é o presidente do Equador desde 2023 e vem usando estratégias parecidas com as de Bukele. Apesar disso, as taxas de homicídio cresceram durante seu governo. Por quê?

Muggah – No início de sua presidência, Noboa declarou um conflito armado interno, enviou militares às ruas e aos presídios e inaugurou um novo presídio de segurança máxima. O governo também anunciou mais duas unidades, com capacidade para mais de 12 mil detentos, seguindo em muitos aspectos o modelo do Cecot, em El Salvador.

Ainda assim, a violência aumentou: o Equador registrou 9 mil homicídios no ano passado, um recorde histórico. O caso mostra as limitações da abordagem de Bukele em países maiores e evidencia o chamado “efeito balão”, em que a repressão desloca a violência para outras áreas.

Mesmo assim, o modelo continua inspirando países como Costa Rica, Honduras, Guatemala, Argentina e Colômbia, pela combinação de policiamento agressivo e encarceramento em massa, que tem forte apelo eleitoral.

O problema é que presídios superlotados são também centros do crime organizado. No Brasil, PCC [Primeiro Comando da Capital] e CV [Comando Vermelho] nasceram no sistema prisional e ainda exercem forte influência sobre ele. Portanto, a ideia de que o encarceramento, por si só, pode resolver o crime organizado é pouco realista no médio e longo prazo.

BBC News Brasil – Como se comparam as dinâmicas do crime organizado no Brasil com as de El Salvador? PCC e CV são comparáveis à MS-13 e à Barrio 18, as principais facções salvadorenhas?

Muggah – Nos dois países, essas organizações são relativamente estruturadas, formadas majoritariamente por homens jovens, com códigos internos, algum grau de governança e envolvimento com tráfico de drogas, extorsão e sistemas prisionais.

Mas há diferenças fundamentais. As gangues de El Salvador têm origem nos Estados Unidos, mas são predominantemente locais, com receitas vindas de extorsão, pequenos crimes e tráfico regional. PCC e CV, por outro lado, são organizações muito mais transnacionais e globalizadas, presentes em vários países e ligadas a fluxos internacionais de drogas e outros mercados ilícitos.

Além disso, PCC e CV possuem estruturas de governança e sistemas financeiros muito mais sofisticados, enquanto as gangues salvadorenhas são mais descentralizadas. Por isso, os grupos salvadorenhos são mais fáceis de combater individualmente.

Assim, embora tenham características comuns, PCC e CV diferem fundamentalmente das gangues de El Salvador em alcance, escala e sofisticação.

BBC News Brasil – E considerando as diferenças entre os países — tamanho, população e complexidade das instituições —, seria possível implementar o modelo de Bukele no Brasil?

Muggah – El Salvador é pequeno, centralizado e politicamente dominado por Bukele. Seu tamanho, equivalente ao de uma grande cidade brasileira, permitiu impor um estado de exceção nacional, suspender garantias de devido processo e mobilizar polícia e militares para detenções em massa.

O Brasil, por outro lado, é continental, federal e institucionalmente plural. A segurança pública é administrada principalmente pelos Estados, enquanto o governo federal cuida das jurisdições federais, fronteiras e coordenação. Isso torna muito mais difícil uma repressão centralizada ao estilo Bukele. Além do PCC e do CV, há dezenas de grupos, milícias e facções regionais, tornando o cenário muito mais complexo.

Há também uma diferença na natureza das organizações. Em El Salvador, o Estado enfrentou gangues altamente territorializadas, com controle de bairros, extorsão e marcadores relativamente claros de pertencimento, como tatuagens.

PCC e CV, embora também controlem territórios, são redes com presença em prisões, organizações de tráfico, operadores logísticos e estruturas de lavagem de dinheiro. Fazem parte de sistemas de governança criminal que podem envolver coerção, colaboração com agentes públicos e até substituição ou cooptação do Estado.

Prender em massa integrantes do PCC como se fez com a MS-13 é muito mais difícil por causa da distribuição da facção brasileira tanto no mercado doméstico quanto no internacional.

BBC News Brasil – PCC e CV operam mais como máfias do que como gangues de rua?

Muggah – Eles operam mais como multinacionais do que como gangues de rua, embora tenham um componente mafioso na relação com as comunidades e códigos de silêncio. Por isso, acuá-los num bairro não necessariamente interrompe suas redes nacionais e internacionais. Pode apenas deslocar suas atividades. Um combate eficaz exigiria coordenação entre Estados, governo federal e parceiros internacionais.

Além disso, o modelo de Bukele dependeu do encarceramento em massa — entre 80 mil e 90 mil detenções —, da ocupação territorial por forças de segurança e de poderes de emergência. No Brasil, a resposta teria de ser muito mais complexa, combinando grandes operações policiais, prisões direcionadas, transferências de detentos, investigações financeiras, forças-tarefa e operações de fronteira.

Politicamente, o modelo de Bukele é simples e eleitoralmente poderoso: segurança primeiro, direitos depois. No Brasil, o cenário é mais heterogêneo, com governadores e parlamentares defendendo tanto uma linha dura quanto maior coordenação federal, inteligência e reforma policial. Por essas diferenças estruturais, é muito difícil transplantar o modelo de Bukele para o Brasil, sobretudo em escala nacional.

BBC News Brasil – Bukele só conseguiu impor sua política de segurança depois de assumir o controle do Congresso e da Suprema Corte. Essa concentração de poder seria um pré-requisito para um presidente que queira implementar o modelo de Bukele em seu próprio país?

Muggah – Sim. Acho que é fundamental, para quem quiser implementar a estratégia de Bukele, ter controle não apenas do Executivo, mas também do Legislativo e do Judiciário.

Uma das consequências mais graves desse modelo é justamente o enfraquecimento da separação entre os Poderes e uma concentração extraordinária de poder no Executivo.

BBC News Brasil – Apesar da popularização do discurso que defende uma linha dura no combate ao crime na América Latina, políticos de centro e de esquerda não parecem dar a mesma ênfase ao tema. Como você avalia as posições adotadas por líderes como Lula?

Muggah – Há muito tempo, a esquerda enfrenta dificuldades para construir uma narrativa convincente sobre segurança pública. A direita costuma prometer resultados rápidos, com mão pesada, mobilização policial e encarceramento em massa. É uma mensagem sedutora, que responde às ansiedades da população e, como resultado, gera votos.

A esquerda, por sua vez, enfatiza que, além de policiamento, justiça criminal e reforma prisional, é preciso enfrentar fatores estruturais como pobreza, desigualdade, urbanização desregulada e falta de serviços sociais. O problema é que essas soluções levam muito mais tempo para produzir resultados visíveis, muitas vezes além de um mandato eleitoral.

Assim, a esquerda tem dificuldade tanto para apresentar uma narrativa simples e convincente quanto para demonstrar os resultados de políticas de longo prazo que combinem policiamento baseado em inteligência e dados, reforma prisional e políticas sociais.

No Brasil, porém, há um reconhecimento crescente de que é necessária uma resposta mais urgente à segurança pública, combinando lei e ordem com políticas sociais. A atual administração federal parece seguir esse caminho ao anunciar medidas contra o crime organizado e seus recursos financeiros, estratégias regionais e investimentos na redução da pobreza, da desigualdade e na criação de oportunidades para jovens. Em outras palavras, não é uma coisa ou outra, são as duas.

Favela com estruturas envidraçadas e muros coloridos
Medellín, na Colômbia, é considerado um caso de sucesso na prevenção da violência

BBC News Brasil – Existem alternativas comprovadamente eficazes ao modelo de Bukele para reduzir a violência?

Muggah – Apesar dos desafios do crime organizado e da violência na América Latina, há experiências bem-sucedidas de prevenção e redução da violência, muitas delas em cidades. Primeiro, é preciso ter um plano claro, com metas, prazos, métricas e avaliação. Segundo, estratégias eficazes precisam ter continuidade por vários anos, atravessando diferentes governos.

Foi o que ocorreu em cidades como Bogotá e Medellín, além de partes da Cidade do México, Minas Gerais e São Paulo.

Sabemos que a violência costuma se concentrar em áreas muito específicas. Em muitas cidades, 90% dos homicídios ocorrem em menos de 5% dos endereços. Por isso, policiamento contínuo nesses pontos críticos, apoiado por inteligência e evidências, pode produzir resultados importantes.

Mas isso precisa ser combinado, no longo prazo, com programas sociais para jovens em risco, reforma prisional e redução da reincidência. Também é fundamental atacar o dinheiro do crime organizado, rastreando fluxos financeiros e impedindo que grupos migrem entre mercados ilícitos, como drogas, ouro, madeira e minerais.

No fim, é a combinação dessas estratégias que produz resultados duradouros. Não existe uma bala de prata. Se quisermos preservar a democracia, os direitos humanos e as liberdades civis, precisamos levar isso em conta. O encarceramento em massa pode ser uma opção, mas seus efeitos sobre a democracia no médio e longo prazo podem ser graves.

BBC News Brasil – No caso do Rio de Janeiro, por exemplo, é possível recuperar o controle do Estado sobre comunidades hoje dominadas pelo crime organizado sem recorrer a operações policiais que resultem em confrontos com os criminosos e, possivelmente, vítimas civis?

Muggah – Para enfrentar a governança criminal em áreas do Rio, é necessária uma combinação de segurança, justiça, prevenção e serviços públicos.

O problema não é apenas a exploração das comunidades: gangues, milícias e estruturas mafiosas também passaram a substituir o Estado em algumas funções. Por isso, recuperar o controle territorial é essencial para reconstruir o contrato social.

Medidas emergenciais podem ser necessárias em casos específicos, mas operações precisam ter limites claros, treinamento, devido processo e controle do uso da força. Enviar tropas indiscriminadamente, inclusive em horários em que crianças estão indo à escola, é inaceitável.

Também é fundamental reconstruir a confiança entre cidadãos, Estado e polícia. Para isso, o Rio precisa de uma estratégia clara, identificação dos pontos críticos, recuperação territorial, reintrodução de serviços públicos e policiamento comunitário.

As UPPs [Unidades de Polícia Pacificadora], entre 2008 e 2015, foram uma tentativa nesse sentido. Nos primeiros cinco anos, houve redução mensurável da violência letal e aumento da confiança pública em algumas comunidades. Mas o programa sofreu com falta de continuidade, mudanças políticas, restrições financeiras e críticas de policiais e organizações de direitos humanos, até perder força e colapsar.

A lição não é abandonar esse tipo de estratégia, mas aperfeiçoá-la, garantindo continuidade, financiamento, avaliação dos resultados e capacidade de corrigir os problemas.

BBC News Brasil – A popularidade do modelo de Bukele e sua adoção por políticos de direita indicam que a América Latina está caminhando para se tornar uma grande El Salvador, ainda que sem necessariamente os resultados que ele alcançou lá?

Muggah – Minha impressão é que existe um movimento pendular na América Latina e no Caribe: questões de segurança ganham força e depois perdem espaço. Hoje, porém, o crime organizado aumentou em sofisticação, capacidade e escala, exigindo respostas mais eficazes.

Não estou convencido de que estratégias hiper-agressivas produzam bons resultados no médio e longo prazo. Precisamos de policiamento mais inteligente, unidades de inteligência e crimes financeiros capazes de atacar o dinheiro, reforma prisional e presídios mais humanos, além de enfrentar a desigualdade, um importante fator de recrutamento pelo crime organizado.

Sabemos que estratégias combinadas, com investimento contínuo e resultados demonstráveis, podem tornar comunidades e cidades mais seguras. O perigo é que, com o avanço da direita na região, a abordagem de lei e ordem com mão pesada ganhe força.

Minha preocupação é que isso tenha consequências graves para a democracia, a independência dos tribunais e os direitos civis. Existe o risco de tirarmos a lição errada da história e aplicá-la ao presente.

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