Entenda por que Israel quer mais bombas de 1 tonelada dos EUA e por que a venda é controversa
por The New York Times

A decisão do governo Trump de enviar a Israel 60 mil bombas de uma tonelada e alto poder destrutivo, como parte de um acordo de US$ 2,8 bilhões (R$ 14 bilhões) —um dos maiores contratos de armamentos de todos os tempos— , permitirá que o país reponha seus estoques de uma munição que considera vital.
Essas armas se tornaram foco de grande tensão entre o governo Biden e Israel depois que bombas de uma tonelada foram amplamente utilizadas em áreas densamente povoadas de Gaza para onde Israel havia orientado civis a se deslocarem em busca de segurança.
Diante da crescente oposição em Washington à assistência militar a Israel, uma venda tão expressiva de bombas pesadas, financiada pelo governo dos Estados Unidos, pode representar uma tentativa do governo de reforçar o arsenal israelense antes que mudanças políticas tornem impossíveis remessas desse tipo, afirmaram analistas.
As Forças Armadas israelenses passaram a priorizar o uso de bombas de uma tonelada após o ataque liderado pelo Hamas contra o sul de Israel em 7 de outubro de 2023, alterando radicalmente sua lista de compras, segundo dados do governo americano. Em 2025, Israel comprou dos EUA quase oito vezes mais bombas de uma tonelada do que entre 2012 e 2015.
A ênfase de Israel na compra e no uso de algumas das maiores bombas atualmente fabricadas vai na contramão da maioria das demais Forças Armadas modernas, que vêm reduzindo o tamanho de suas munições aéreas e aumentando ainda mais sua precisão, na esperança de limitar as mortes de civis durante os combates.
Israel utilizou uma enorme quantidade de bombas de uma tonelada, em grande parte para atingir a rede de túneis construída pelo Hamas em Gaza para abrigar seus combatentes, armas e centros de comando. Autoridades israelenses afirmam que integrantes do Hamas se instalam deliberadamente entre civis, obrigando as Forças Armadas israelenses a correr o risco de matar pessoas inocentes.
Uma investigação do New York Times publicada em dezembro de 2023 constatou que as Forças Armadas israelenses usaram rotineiramente bombas de uma tonelada nas semanas imediatamente posteriores ao ataque de 2023 e identificou mais de 200 ocasiões em que Israel lançou essas munições de alto poder destrutivo, inclusive em áreas densamente povoadas.
Veja, a seguir, uma análise mais detalhada da transação e de sua importância.
Quais bombas estão sendo vendidas?
Segundo uma autoridade americana, Israel receberá 20 mil bombas Mk-84 e outras 20 mil bombas BLU-117. Os dois tipos de bomba de uma tonelada são praticamente idênticos.
Especialistas afirmam que as bombas são extremamente versáteis. Elas podem ser configuradas para detonar acima do solo, lançando estilhaços a até 305 metros em qualquer direção, ou, com espoletas de ação retardada, para explodir no subsolo. Também podem receber kits que lhes permitem atingir alvos com precisão e a longa distância. As crateras abertas por bombas de uma tonelada podem chegar a 15 metros de profundidade.
Além das 40 mil bombas Mk-84 e BLU-117, Israel também receberá 20 mil ogivas penetradoras I-2000, que explodem com atraso após atravessarem uma superfície como solo, rocha ou concreto, segundo a autoridade americana. Elas também pesam uma tonelada cada, mas, como seus invólucros são mais espessos e muito mais pesados, têm poder explosivo bem menor do que as bombas Mk-84 e BLU-117.
Segundo o departamento do Exército dos EUA responsável pela aquisição de bombas, os “alvos ideais” para bombas de uma tonelada “são edifícios, pátios ferroviários e linhas de comunicação”. Já as bombas de 113 e 227 quilos, mais utilizadas pelas forças americanas, são projetadas para “alvos pouco protegidos e vulneráveis a fragmentos”, como tropas, tanques de armazenamento de combustível e radares, informou o departamento.
A compra de US$ 2,8 bilhões está sendo financiada pelo orçamento do Pentágono destinado a vendas militares ao exterior. Na prática, isso significa que o dinheiro sai dos contribuintes americanos, passa pelas Forças Armadas israelenses e chega aos fabricantes de munições dos EUA.
O Congresso pode bloquear a venda?
O deputado Gregory W. Meeks, de Nova York, principal democrata na Comissão de Relações Exteriores da Câmara, afirmou na quarta-feira (16) ter suspendido temporariamente a venda proposta, citando preocupações com o possível uso das bombas em áreas densamente povoadas de Gaza e do Líbano. Essas suspensões fazem parte de um processo informal de análise pelo Congresso e não são necessariamente vinculantes.
Para impedir uma transferência de armas nesta etapa, uma resolução de rejeição teria de ser aprovada tanto pela Câmara quanto pelo Senado e, em seguida, superar um veto praticamente certo do presidente. Isso exigiria maioria de dois terços nas duas Casas, algo que nunca ocorreu.
Tanto o governo Biden quanto o governo Trump contornaram a análise do Congresso sobre vendas de armas a Israel invocando poderes emergenciais. O governo Biden recorreu a esse mecanismo duas vezes em dezembro de 2023, enquanto o governo Trump o utilizou em 2025 para acelerar novas vendas de armamentos a Israel.
Além disso, o secretário de Estado, Marco Rubio, exerceu repetidamente poderes emergenciais para dar prosseguimento a transações desse tipo. Em março, ele contornou o Congresso para enviar US$ 4 bilhões em armamentos a Israel, incluindo mais de 35 mil bombas de uma tonelada dos mesmos tipos.
Alguns democratas no Congresso pediram o fim da ajuda militar dos EUA a Israel em resposta ao enorme número de civis mortos na guerra israelense em Gaza.
A insatisfação com Israel também cresce entre a direita. Tucker Carlson, ex-apresentador da Fox News e crítico contundente de Israel, escreveu em uma publicação nas redes sociais na terça-feira que não havia justificativa para fornecer ao país tantas bombas do tipo usado para matar palestinos em Gaza. Segundo ele, isso apenas encorajaria Israel a agir da mesma forma em outros lugares.
“As 40 mil novas bombas que o governo Trump está enviando serão usadas para fazer o mesmo no Líbano e, provavelmente, em outros países da região”, escreveu. “Se a intenção fosse prolongar a guerra contra o Irã por tempo indefinido, seria exatamente isso que se faria.”
Por que Israel precisa dessas bombas?
Especialistas descrevem as bombas de uma tonelada como um dos pilares operacionais da Força Aérea israelense, que atuou em sete frentes de conflito nos últimos anos: Gaza, Cisjordânia ocupada, Líbano, Irã, Síria, Iêmen e Iraque.
Essas campanhas reduziram drasticamente os estoques de munições da Força Aérea. Um ex-comandante da corporação, que falou sob condição de anonimato para tratar de informações sensíveis, afirmou que Israel concluiu ser necessário acumular suprimentos suficientes para vários anos, diante da possibilidade de atrasos na reposição dos estoques, e que 40 mil bombas de uma tonelada eram consideradas um estoque completo.
“O conceito tradicional da doutrina de defesa de Israel se baseava em guerras curtas”, afirmou Amos Yadlin, major-general reformado, ex-vice-comandante da Força Aérea e ex-chefe da inteligência militar israelense. “O que vimos nos últimos três anos foi Israel ser arrastado — talvez até com alguma contribuição de decisões israelenses — para uma guerra longa. E, se a estratégia é travar guerras longas, é preciso ter mais munição.”
Por que essas bombas são controversas?
O New York Times informou, em dezembro de 2023, que, nas primeiras seis semanas da guerra em Gaza, Israel usou rotineiramente bombas de uma tonelada em partes do território que havia designado como seguras para civis, inclusive em áreas densamente povoadas. O NYT identificou 208 crateras com pelo menos 12 metros de diâmetro em uma área do sul de Gaza para onde Israel havia ordenado que civis se deslocassem para a própria segurança.
Especialistas em munições afirmam que bombas desse porte quase nunca são lançadas pelas forças americanas em áreas densamente povoadas, e oficiais das Forças Armadas dos EUA já disseram que elas são inadequadas para combates urbanos. Desde a Guerra do Vietnã, as forças americanas têm utilizado bombas de uma tonelada com moderação.
Israel recorre a elas com muito mais frequência. O país afirma que as bombas pesadas são necessárias para atingir forças inimigas escondidas em grandes edifícios ou túneis subterrâneos e que suas Forças Armadas sempre procuram evitar ou minimizar as mortes de civis.
As bombas de uma tonelada se tornaram uma fonte de atrito entre o presidente Joe Biden e o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, em maio de 2024, quando Biden reteve uma remessa de 1.800 bombas na tentativa de impedir Israel de atacar a cidade de Rafah, onde muitos palestinos deslocados estavam abrigados.
Ainda assim, Israel atacou e destruiu grande parte de Rafah. A Casa Branca de Trump liberou a remessa de bombas poucos dias depois de Donald Trump assumir o cargo, em 2025.
O que a transação revela sobre as relações entre EUA e Israel?
Em um momento em que a relação entre Trump e Netanyahu atravessa altos e baixos, não se pode ignorar a dimensão política de levar adiante um acordo tão amplo envolvendo bombas pesadas.
Chuck Freilich, ex-vice-conselheiro de Segurança Nacional de Israel, afirmou que o acordo não deve ser interpretado como uma tentativa de favorecer a campanha de Netanyahu por um novo mandato na eleição do mês que vem, na qual ele aparece atrás nas pesquisas. “Se fosse um novo acordo para a compra de caças F-35, seria digno de manchete”, disse.
Ainda assim, segundo o general Yadlin, o acordo de armamentos transmite um sinal importante aos inimigos de Israel de que os EUA continuam ao lado do país. “É uma forma de mostrar que, mesmo havendo algumas divergências, quando se trata da segurança fundamental de Israel, os EUA continuam sendo um aliado muito forte”, afirmou.
Os defensores de Israel, porém, também estão cientes de que os ventos políticos mudaram e de que provavelmente não ficará mais fácil obter munições desse tipo dos Estados Unidos em um futuro próximo, sobretudo com a aproximação da eleição de 2028.
Jesse Weinberg, pesquisador do Instituto de Estudos de Segurança Nacional, em Tel Aviv, afirmou que autoridades israelenses e muitos apoiadores de Israel em Washington buscavam “antecipar” a ajuda militar ao país, “porque não sabemos qual será a composição do próximo Congresso — e também há um olhar voltado para 2028”.
“A visão na Kirya”, disse ele, referindo-se ao quartel-general das Forças Armadas israelenses, “no gabinete do primeiro-ministro e também entre os apoiadores de Israel no Capitólio é que, se você quer fazer as coisas avançarem, a hora é agora”.


