Nova espécie de felino, primeira descoberta em um século, é achada por brasileiro

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por Reinaldo José Lopes, Folhapress

Gato com pelagem manchada em tons de marrom e preto está agachado sobre um galho branco. Fundo desfocado mostra vegetação verde e troncos de árvores.
Gato-do-mato-pequeno da espécie ‘Leopardus tilcayo’, das matas montanhosas da Bolívia, descrito por cientista brasileiro e seus colegas – Paola Nogales-Ascarrunz/Divulgação

Usando análises de DNA, uma equipe liderada por um pesquisador brasileiro identificou como uma nova espécie um misterioso gato selvagem que vive nas florestas montanhosas da Bolívia. Se os autores do estudo estiverem corretos, trata-se da primeira nova espécie de felino a ser descrita pela ciência em cerca de um século.

O bicho, que mede apenas 45 cm de comprimento (mais 25 cm de cauda), é conhecido popularmente como “tilcayo” pelos moradores de sua região natal, tendo recebido, portanto, o nome científico de Leopardus tilcayo na publicação especializada em que foi descrito, na revista Current Biology.

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A primeira parte da designação em latim é, claro, enganosa —não se trata de um leopardo, felino que não existe nas Américas, mas de um membro do grupo dos gatos-do-mato-pequenos, entre os quais há espécies nativas do Brasil.

É justamente a semelhança e a proximidade de parentesco entre os diferentes felinos desse subgrupo, formando o que se costuma chamar de “complexo de espécies”, que deixa os especialistas um tanto confusos na hora de classificá-los.

No novo estudo, que tem entre seus coordenadores Eduardo Eizirik, da PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), a equipe buscou elucidar melhor essa complicação, especialmente levando em conta animais que vivem em áreas da distribuição geográfica do grupo as quais foram pouco estudadas.

Eizirik e seus colegas Jonas Lescroart, também ligado à PUC-RS e à Universidade de Antuérpia, e Paola Nogales-Ascarrunz, da Universidad Mayor de San Andrés, na Bolívia, coordenaram um esforço que mapeou o genoma dos gatos-do-mato-pequenos de diferentes regiões sul-americanas.

A lista de bichos estudados incluía tanto animais vivos em cativeiro quanto espécimes de museus coletados há décadas. Esses últimos são importantes porque podem preservar parte da diversidade genética que acabou desaparecendo com o encolhimento da população dos bichos, por causa da perda recente de habitat, por exemplo. No total, a análise abrangeu o DNA completo de 38 felinos do gênero Leopardus, dentre os quais 26 são classificados dentro do “complexo de espécies” que tanto intriga os biólogos.

Só no Brasil, o “complexo” inclui um felino da mata atlântica, o L. guttulus; outro que vive em regiões mais montanhosas na fronteira entre o extremo norte do país e as Guianas, o L. tigrinus; e ainda o L. emiliae, morador da caatinga e do cerrado.

Antes, todos esses bichos, bem como seus parentes em países vizinhos da América do Sul, em geral eram vistos como uma espécie só, a L. tigrinus (daí outro apelido do grupo, “gatos-tigres”). No século 19, alguns pesquisadores tentaram sugerir separações em outras espécies, com outros nomes.

Anos atrás, o trabalho de Eizirik, com as análises genômicas, “ressuscitou” justamente esses nomes antigos, como o L. guttulus da mata atlântica, indicando que as diferenças de DNA justificavam separar os bichos. “Todos esses foram casos de revalidação, mostrando espécies que devem ser reconhecidas, mas validando nomes que haviam sido previamente propostos”, explicou o pesquisador à Folha.

“O caso do L. tilcayo é diferente [a nova espécie boliviana] é diferente”, destaca ele. “Não havia nome disponível porque ninguém havia proposto a existência da espécie antes. Então o que estamos fazendo nesse caso é uma descrição e a proposta de um novo táxon [classificação de um ser vivo]. É isso o que não havia ocorrido com felinos não fósseis [ainda existentes hoje] desde 1923.”

Gato-do-mato-pequeno da espécie ‘Leopardus tilcayo’, das matas montanhosas da Bolívia, descrito por cientista brasileiro e seus colegas – Paola Nogales-Ascarrunz/Divulgação

Por um lado, faz sentido imaginar que o “tilcayo” tenha se diferenciado significativamente dos outros gatos-do-mato-pequenos, considerando seu habitat. Ele vive nas chamadas “yungas” bolivianas, uma área de transição entre a floresta amazônica e os Andes caracterizada pela intensa umidade e grande variação de altitude (de apenas 400 m até 3.500 m).

Esse sobe e desce do terreno tende a produzir uma série de pequenos habitats relativamente isolados entre si, o que tende a ser uma receita para o surgimento de novas espécies com o passar do tempo.

E é preciso acrescentar a isso também o vaivém de condições climáticas ao longo da Era do Gelo (que terminou há menos de 12 mil anos). As alternâncias de temperatura e umidade fizeram matas como as “yungas” avançar e recuar com os milênios, às vezes conectando seus habitantes com outras áreas, às vezes isolando-os de novo.

Os pesquisadores estimam que o L. tilcayo teria se separado da linhagem que deu origem aos demais gatos-do-mato-pequenos há cerca de 1,5 milhão de anos (para comparação, nessa época, o principal membro da linhagem evolutiva dos seres humanos ainda era o Homo erectus, e o Homo sapiens só surgiria mais de 1 milhão de anos mais tarde).

Isso não significa, porém, que o isolamento da espécie tenha sido completo. Uma coisa recorrente entre muitos felinos, e em especial no caso desse complexo de espécies sul-americanas, é que hibridizações (misturas entre espécies) ocorrem com bastante frequência.

Existem vários exemplos desse tipo entre as espécies brasileiras do grupo, e o novo felino tampouco ficou imune ao fenômeno. A principal “impressão digital” de que isso se deu, em diversos casos, é o DNA mitoncondrial ou mtDNA, material genético transmitido apenas pela linhagem materna, de mãe para filha ou filho.

Acontece que o mtDNA do “tilcayo” é derivado de um provável ancestral do gato-do-mato-grande (L. geoffroy, também presente no Brasil). “Parece ser outro caso de hibridação antiga, sem ter deixado vestígios que tenhamos detectado ainda no genoma nuclear [o DNA “principal” da espécie]”, diz o pesquisador da PUC-RS.

Além de ajudar a entender como os felinos do continente evoluíram, esses dados são importantes para coordenar esforços de conservação – a diversidade antes oculta passa a ser relevante para criar áreas protegidas para populações com sua própria história e características genéticas únicas.

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