Flávio Bolsonaro viajou e teve grupo de WhatsApp com investigados por fraude do INSS, mostra revista
por Pedro Tavares e Breno Pires, em reportagem da revista piauí

A fotografia revelada na sexta-feira (18) pelo jornal O Globo mostra uma cena curiosa: o candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em clima de descontração na África do Sul, ao lado do senador Weverton Rocha (PDT-MA) e do advogado Willer Tomaz. A imagem, feita em março de 2025, causou constrangimento à campanha de Flávio. Tanto Weverton quanto Willer são investigados no escândalo do INSS, sob suspeita de terem se beneficiado do esquema que roubou bilhões de reais de aposentadorias. A fraude do INSS se tornou pública em abril de 2025, logo depois da viagem.
A revista piauí apurou que a foto foi enviada no dia 10 de março em um grupo de WhatsApp intitulado “África do Sul”, do qual faziam parte Flávio, Willer, Weverton e suas respectivas esposas. Junto dessa imagem, havia dezenas de outras mostrando elefantes e diferentes animais da savana, fotografados em um safári de que o grupo participou. A Polícia Federal teve acesso a esse material depois de apreender o celular de Weverton no final do ano passado, em uma fase da Operação Sem Desconto, que investiga as fraudes no INSS.
Mas além da dupla Weverton e Willer, há um terceiro personagem que não havia sido identificado na foto e também participava do grupo de WhatsApp: o empresário Carlos Alberto de Sá, conhecido como Carlinhos. E, assim como os colegas, ele também esteve na mira da lei. Em 2021, o relatório final da CPI da Covid pediu seu indiciamento por corrupção ativa e improbidade administrativa. A suspeita da comissão era de que a VTCLog, empresa de logística da qual ele é sócio, havia oferecido vantagens indevidas a um diretor do Ministério da Saúde em troca de um aditivo num contrato para armazenamento e distribuição de insumos, entre eles vacinas. Além disso, segundo o relatório, havia indícios de que o contrato havia sido superfaturado em 17 milhões de reais.
Dois pontos principais chamaram a atenção dos senadores. Um deles foram as frequentes movimentações em dinheiro vivo feitas pela VTCLog. Desde 2018, segundo a CPI, um funcionário da empresa havia sacado 4,7 milhões de reais em espécie. Com o dinheiro em mãos, ele pagou boletos pessoais do então diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias. Para os senadores, era um indício claro de corrupção, já que Dias cuidava justamente dos contratos que interessavam à VTCLog. O diretor foi um dos protagonistas da CPI e acabou demitido do Ministério devido a uma suspeita ainda mais grave: a de que pedira propina na negociação da compra de vacinas contra a Covid.
O segundo ponto que chamou atenção dos senadores foi o fato de que a VTCLog venceu a licitação do Ministério da Saúde oferecendo descontos expressivos nos seus serviços para, depois disso, pedir grandes aditivos ao contrato. Segundo o relatório da CPI, tudo indicava ser um “jogo de planilha” – isto é, “artifício utilizado para possibilitar que um licitante vença o certame de maneira aparentemente legal e, posteriormente, ao longo da execução contratual, passe a manipular preços unitários com o intuito de aumentar demasiadamente o valor do contrato, mediante termos aditivos, em prejuízo ao erário”.
O relatório da CPI pediu o indiciamento de Carlinhos e Teresa Cristina Reis de Sá, sua sócia, também acusada de corrupção ativa e improbidade administrativa. Na visão dos senadores, “o fato de serem sócios controladores da empresa e, portanto, beneficiários finais de todas as ações criminosas perpetradas, sugere que tinham domínio do fato ou que tenham até mesmo de algum modo participado das decisões e condutas ilícitas cometidas”. Quanto à VTCLog, a CPI recomendou que fosse submetida às “punições previstas na Lei Anticorrupção, como sua inclusão no cadastro de empresas inidôneas.” Dias antes da aprovação do relatório, uma reportagem do El País revelou que Carlinhos e Teresa eram donos de uma offshore nas Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal.
Mas o relatório da CPI da Covid, aprovado em outubro de 2021, morreu na praia. Dos oitenta pedidos de indiciamento, a maioria ficou por isso mesmo – apenas como pedidos. Não houve um aprofundamento das investigações a respeito da VTCLog, que segue em atividade até hoje. Quando viajou com Flávio Bolsonaro, em março de 2025, Carlinhos não devia nada à lei.
Willer Tomaz, que também aparece na foto na África do Sul, por pouco não entrou no relatório da CPI ao lado de Carlinhos. Ele virou alvo da comissão devido à suspeita de que pudesse ter atuado na negociação da vacina Covaxin. Quem impediu que a apuração fosse adiante foram justamente Flávio Bolsonaro e seus aliados. Alguns integrantes da comissão defendiam quebrar o sigilo do advogado, mas, como registrou a imprensa na época, Flávio saiu publicamente em defesa de “meu amigo Willer Tomaz”. O caso não foi adiante, e a amizade dos dois se fortaleceu. Como mostrou uma reportagem publicada esta semana pela piauí, o presidenciável, enquanto fazia campanha em São Paulo no começo de agosto, usou um apartamento que pertence a Willer. O advogado, por sua vez, o comprou de Fabiano Zettel, cunhado e principal operador financeiro de Daniel Vorcaro, o dono do Banco Master.
Hoje, Willer é investigado sob suspeita de lavar dinheiro para o senador Weverton Rocha num esquema irrigado com dinheiro do INSS. O advogado se tornou uma figura influente em Brasília. Uma reportagem recente da piauí revelou uma foto que mostra deputados e senadores festejando na piscina do Rancho Tomaz, uma propriedade de Willer na cidade de Planaltina, a 80 km de Brasília. Flávio Bolsonaro não aparece na foto, mas já esteve no rancho do amigo em ao menos uma outra ocasião. Registrou a visita em seu Instagram.
O senador Weverton Rocha, além de ser investigado no inquérito sobre as fraudes do INSS, também teve seu nome incluído numa investigação do Ministério Público Federal sobre a farra ilimitada do orçamento secreto no Maranhão. O inquérito, que trata de repasses para a Saúde, começou depois de uma reportagem da piauí publicada em 2022. Como Weverton tem foro privilegiado, o caso foi remetido ao STF em 2024. Sob a relatoria do ministro Flávio Dino, o inquérito está sob sigilo e não se sabe se o senador está sendo investigado atualmente.
AVTCLog é uma das empresas que compõem o Grupo Voetur, fundado na década de 1980 por Carlinhos de Sá. O conglomerado tem braços em vários setores, entre eles o turismo. A Voetur Operadora, uma das empresas do grupo, oferece pacotes de viagem para países africanos. “África te chama: safáris no Quênia, cultura no Marrocos, os mistérios do Egito e paisagens inesquecíveis na África do Sul”, diz o site da agência de turismo.
A piauí perguntou a Carlinhos se a viagem de março de 2025 foi organizada por sua empresa. Ele respondeu por meio de nota, afirmando que tem “relação de amizade com Willer Tomaz e foi convidado por Willer para a viagem. Custeou suas próprias despesas de viagem e hospedagem. Não custeou nada para terceiros”. Não comentou as suspeitas levantadas pela CPI da Covid. Weverton Rocha disse: “Willer Tomaz é meu compadre e amigo há muitos anos e já fizemos várias viagens juntos em família. São relações privadas, que não envolvem dinheiro ou interesses públicos.” Willer, por sua vez, enviou à piauí a mesma nota que havia enviado para a reportagem do jornal O Globo, que tratou de várias viagens suas com Flávio Bolsonaro. Segundo a nota, “as viagens mencionadas têm caráter estritamente privado e decorrem de uma amizade pessoal de longa data com o senador Flávio Bolsonaro e sua família. Foram custeadas com recursos próprios e nada têm a ver com função pública, contratos ou interesse de terceiros”. Willer nega ser investigado no inquérito sobre as fraudes do INSS – fato contestado por fontes da Polícia Federal ouvidas pela piauí.
Flávio Bolsonaro, indagado sobre a viagem, o grupo de WhatsApp e suas relações com Willer Tomaz, Weverton Rocha e Carlinhos, não respondeu à piauí.


