Guerra religiosa: Igrejas se unem para garantir eleição de evangélicos conservadores
Por Gilberto Nascimento, ICL Notícias
O bispo da Igreja Universal do Reino de Deus Honorilton Gonçalves apareceu em um vídeo nas redes sociais tocando uma trombeta. É um “sinal de alerta”, explicou o bispo. O som desse instrumento representava um chamado solene de Deus, segundo a Bíblia, e anunciava um eventual perigo.
“A pessoa tinha de despertar, e despertar os outros, para cada um assumir o seu lugar. Chegou o momento de tocar a trombeta, de propagar. Essa é a semana decisiva, a semana da responsabilidade. Estamos cheios de inimigos. Não podemos deixar brechas. Vamos cada um tomar o seu lugar e a responsabilidade”, anunciou Gonçalves, responsável pela Universal no Rio de Janeiro, tocando a trombeta, ao lado dos candidatos ao Senado pelo estado Marcelo Crivella (Republicanos) e Marcos Dias (Podemos), em frente à sede da igreja, no Rio.
“Estamos no momento de perigo, estamos numa guerra. Parece que o mal quer tomar conta. Quer dizer, não tem mais jeito. Vamos colocar qualquer um. Justamente para tomar conta, para tomar definitivamente o poder”, disse Gonçalves, sem citar nomes ou fornecer mais detalhes, mas fazendo alusão ao governo Lula. A quase totalidade das maiores igrejas evangélicas no país está alinhada à candidatura conservadora à presidência da República de Flávio Bolsonaro (PL). A Universal não declarou voto, mas seus líderes reforçam o ideário bolsonarista em seus discursos.
Crivella e Marcos Dias, os candidatos da dobradinha política enaltecidos pelo bispo Gonçalves, são de igrejas distintas. Ex-prefeito do Rio e atualmente deputado federal, Crivella é bispo da Universal e sobrinho do fundador e líder da igreja, o milionário bispo Edir Macedo. Dias é pastor da catedral das Assembleias de Deus de Santa Cruz, na zona oeste do Rio de Janeiro.
A união desses dois religiosos representa muito mais do que uma mera dobradinha eleitoral. Igrejas como a Universal, a Assembleia de Deus de Santa Cruz, a Igreja da Família e a Comunidade Cristã Paz e Vida, entre outras, estão se unindo para tentar fortalecer a candidatura ao Legislativo de nomes tidos como relevantes e estratégicos no meio evangélico, como Crivella.
Esses líderes religiosos querem fortalecer a bancada evangélica no Congresso e assegurar a eleição de bispos e pastores candidatos que defendam os chamados valores cristãos, combatam propostas da esquerda no campo da moral e dos costumes e busquem também verbas e benefícios, principalmente por meio de emendas parlamentares, para projetos sociais e religiosos das igrejas.
Crivella diz que, se eleito, buscará aprovar no Senado mais isenções fiscais para as igrejas. “Pretendo aprovar no Senado, se eleito, a lei que já aprovei na Câmara dos Deputados que dá imunidade completa aos templos religiosos, às entidades filantrópicas e às comunidades terapêuticas”, promete o sobrinho de Macedo.
Dias diz que, além de cuidar do Rio de Janeiro, pretende ser um “guardião da fé, da família e dos valores morais”.

Crivella: apoio a impeachment de Moraes
Em um outro vídeo que mostra o bispo Gonçalves, Crivella e Marcos Dias, o bispo da Universal e candidato ao Senado promete que, caso eleito, votará a favor do impeachment do ministro do STF Alexandre de Moraes e de uma anistia aos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. Crivella foi o autor de projeto inicial que propôs a redução de penas aos presos na tentativa de golpe, aprovado depois, por meio da apresentação de um substitutivo
Na conversa no vídeo, Gonçalves e Crivella procuram esclarecer que o candidato da Igreja Universal ao Senado é realmente um representante “da direita”, já que sua postura estaria sendo questionada por candidatos concorrentes também conservadores.
Crivella aparece ainda em vídeo ao lado de um outro bispo evangélico, Gleibe de Andrade, da Igreja da Família, em jantar de apoio à candidatura a deputado federal desse religioso no Rio, pelo PRD (Partido Renovação Democrática), com a presença também de pastores da Igreja Batista. Crivella, a partir de agosto, recebeu diariamente líderes e membros da Igreja Batista em conversas em um escritório político num centro empresarial na Barra da Tijuca, no Rio.
Apoiadores de Crivella e Gleibe afirmam que essa dobradinha tem o apoio de 100 pastores e líderes de várias denominações. O bispo Gleibe, por outro lado, tem o apoio declarado de um outro líder de igreja evangélica, o pastor Juanribe Pagliarin, da Igreja Paz e Vida.

Igrejas evangélicas com Flávio Bolsonaro
A prioridade da Igreja Universal do Reino de Deus é eleger seus bispos e pastores candidatos a deputado estadual e federal e ao Senado por todo o país. Igrejas evangélicas como as Assembleias de Deus dos ministérios Belém e Vitória em Cristo (do pastor Silas Malafaia), Renascer e Sara Nossa Terra já se posicionaram ao lado de Flávio Bolsonaro.
A Assembleia de Deus Madureira declarou apoio a Ronaldo Caiado (PSD), mas como o ex-governador goiano não decolou, deve também apoiar agora o representante oficial do bolsonarismo. A Universal deve definir sua posição sobre a candidatura presidencial – mesmo que não declare apoio formal -, apenas no segundo turno.
A Universal lançou no dia 13 de agosto a campanha “Desafio de Neemias”, a fim de reunir seus fiéis e voluntários e mobilizá-los para a atuação política na atual campanha. A campanha é inspirada na narrativa bíblica de reconstrução dos muros de Jerusalém, que durou 52 dias. A Igreja vem fornecendo aos seus fiéis diariamente, por meio de um aplicativo, mensagens políticas e materiais de campanha de seus bispos e pastores candidatos ao Legislativo, até o dia 4, a data da eleição em primeiro turno.
Pastores e obreiros (auxiliar de pastor) estão sendo convocados a recrutar e doutrinar fiéis e multiplicar os votos dos candidatos apoiados pela igreja. A Universal propôs a seus seguidores “52 dias de fé, foco e reconstrução espiritual”, até a eleição.


