Dias após repasse milionário para Dark Horse, Flávio Bolsonaro e Vorcaro pousaram com 19 minutos de diferença na Flórida, diz revista

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por Breno Pires e Allan de Abreu, na Revista Piauí

Flávio Bolsonaro viajou acompanhado, novamente, do advogado Willer Tomaz - Crédito: Gledston Tavares/AFP
Flávio Bolsonaro viajou acompanhado, novamente, do advogado Willer Tomaz – Crédito: Gledston Tavares/AFP

O aeroporto internacional da cidade de Fort Lauderdale, na Flórida, não é tão grandioso quanto o de Miami, mas é um dos preferidos da aviação executiva. Oferece menos burocracia e mais discrição aos passageiros, muitos deles políticos e empresários, que podem embarcar em seus automóveis assim que descem das aeronaves, evitando se expor. Entre os seus frequentadores estão o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência, e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. No feriado prolongado de 1º de maio de 2025, os dois desceram ali em aviões diferentes, com poucos minutos de diferença.

Flávio estava acompanhado da sua esposa, Fernanda, e do advogado Willer Tomaz, investigado por envolvimento com as fraudes do INSS. O trio estava a bordo de um Bombardier Global 6000, de prefixo PS-UQN, que pertence a uma empresa de Fernando de Castro Marques, um dos donos da farmacêutica União Química e apoiador declarado da família Bolsonaro. O jato decolou de Brasília às 00h26 do dia 1º de maio e pousou na Flórida às 7h46. Dezenove minutos depois, o banqueiro também aterrissou com seu Dassault Falcon 7X, de prefixo PS-FST, vindo de Guarulhos. Os horários aparecem em registros de rastreamento aeronáutico obtidos pela piauí. A chegada tanto de Flávio quanto de Vorcaro em 1º de maio é confirmada pelos registros migratórios do governo americano.

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Na véspera do voo, em 30 de abril, Flávio completou 44 anos. A viagem coincidiu também com o Grande Prêmio de Fórmula 1 de Miami, competição realizada entre 2 e 4 de maio que atraiu celebridades, empresários e integrantes do governo americano. A viagem – e o fato de que Flávio usou um jatinho particular – foi revelada pelo Estadão em abril deste ano. Na época, o senador afirmou que a viagem tinha finalidade “pessoal e familiar”. O que não se sabia até agora é que Vorcaro também estava na Flórida naqueles mesmos dias.

Não há comprovação de que os dois tenham se encontrado durante a viagem. Naquela época, Vorcaro já havia feito repasses milionários com o pretexto de financiar Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro. Seis dias antes da chegada dos dois à Flórida, em 25 de abril, a Entre Investimentos – empresa do ecossistema do Banco Master – transferiu 3.333.334 dólares ao Havengate, fundo de investimentos sediado no Texas que concentrava os recursos destinados ao filme. Eram a quarta e a quinta parcelas do compromisso de 24 milhões de dólares assumido por Vorcaro. Com esses novos repasses, chegou a 9 milhões de dólares, naquele momento, o total desembolsado pelo banqueiro.

Mensagens extraídas do celular de Vorcaro mostram que a nova transferência de dinheiro vinha sendo cobrada. “Consegue liberar as parcelas do filme, pessoal começou a me cobrar cedo hoje”, escreveu o publicitário Thiago Miranda, em mensagem enviada a Vorcaro em 22 de abril. No dia 25, ele voltou à conversa para avisar ao chefe: “Entrou a parcela do filme. Acabaram de me avisar.” Na semana seguinte, o banqueiro embarcou rumo à Flórida.

Vorcaro conversou com a sua então noiva, Martha Graeff, sobre a viagem. Às 22h05 do dia 30, avisou a ela que estava a caminho do aeroporto e pretendia decolar às 23 horas. Mas a decolagem acabou atrasando e o jato Dassault Falcon 7X só deixou Guarulhos às 23h49. Na manhã seguinte, às 7h49, Vorcaro enviou outra mensagem a Martha. “Demorou pra decolar demais em SP, vou pousar só agora”, ele escreveu. Os registros aeronáuticos obtidos pela piauí informam que a aeronave pousou mais precisamente às 08h06.

Vorcaro estivera em Miami poucos dias antes. Seu histórico migratório registra que ele entrou nos Estados Unidos em 25 de abril e saiu no dia 27. Durante esse fim de semana, negociou por videoconferência a chamada “parte podre” do Master, que incluía precatórios e participações em empresas, segundo informou o jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo. A reportagem, publicada em 28 de abril, menciona que o banqueiro aproveitou a viagem para relaxar e elencou fotos no Instagram que registravam sua presença na cidade.

A notícia chegou ao conhecimento de Vorcaro, que a encaminhou para sua noiva. “Saiu notícia da minha ida a Miami! Nada demais, não atrapalha em nada”, escreveu. E comentou que, nos últimos tempos, havia se transformado numa espécie de celebridade: qualquer coisa que fizesse virava assunto nos jornais. Martha Graeff perguntou se a publicação não estimularia outras reportagens. “Nao, nao tem pauta pra isso”, respondeu o banqueiro.

Três dias depois, Vorcaro estava novamente na Flórida, no período que coincidiu com a ida de Flávio. Dessa vez, encontrou-se com Martha, que já estava nos Estados Unidos. Durante a viagem, as conversas de WhatsApp entre os dois trataram principalmente de compromissos pessoais. Não houve referências a Flávio, a Willer Tomaz ou a reuniões profissionais. No dia 3 de maio, sábado, o casal foi à Carbone Beach, um evento que acontece em paralelo ao Grande Prêmio de Fórmula 1 e consiste numa mistura de jantar com apresentações musicais. Dias depois, já no Brasil, Vorcaro ficou irritado ao descobrir que apareceu em fotos publicadas no Instagram da influencer Camila Coelho, amiga do casal. “A Camila postou da festa e eu apareço atrás. É chato amor mas eu preciso que vc fale, senão vai sair notícia disso no Brasil. […] Nada demais. Só precaução mesmo.”

A piauí apurou que Flávio, Fernanda e Willer não foram à Carbone Beach. O senador não publicou nada da viagem à Flórida nas suas redes sociais. Assim como chegaram em horários parecidos, ele e Vorcaro retornaram ao Brasil com pouca diferença de tempo. O Bombardier utilizado por Flávio decolou de Fort Lauderdale no dia 4 de maio, domingo, às 22h17 no horário de Brasília. O Falcon que levava Vorcaro partiu 2 horas e 47 minutos depois, já na madrugada do dia 5. Naquela segunda-feira, de volta a Brasília, o senador se reuniu com Ricardo Pita, integrante do Departamento de Estado americano, em seu gabinete. O tema da conversa, segundo Flávio, foi o combate ao crime organizado.

Indagado pela piauí sobre o motivo da viagem e quem custeou seus deslocamentos até a Flórida, Flávio Bolsonaro não respondeu. A defesa de Daniel Vorcaro também não se manifestou. Willer Tomaz enviou à piauí uma nota sucinta, afirmando: “É mentira que o senador Flávio Bolsonaro tenha se encontrado com Daniel Vorcaro nos Estados Unidos.” Não esclareceu o motivo da viagem nem quem custeou os deslocamentos do jatinho.

Eduardo Bolsonaro, que desde fevereiro de 2025 vive nos Estados Unidos, também esteve na Flórida entre o final de abril e o começo de maio. Dois dias antes de Flávio e Vorcaro pousarem em Fort Lauderdale, o deputado cassado publicou nas redes sociais uma foto ao lado de Francis Suarez, então prefeito de Miami, no gabinete do político republicano. A legenda dizia que o encontro ocorrera naquele dia. Na mesma semana, segundo uma reportagem da Folha de S.Paulo, Eduardo também foi a Washington. No dia 9 de maio retornou a Miami, onde participou de um jantar da Florida International University.

Semanas antes da viagem, em 18 de março, o publicitário Thiago Miranda havia informado a Vorcaro que os irmãos Bolsonaro queriam marcar uma reunião para falar sobre Dark Horse. Três dias depois, Miranda encaminhou ao banqueiro uma mensagem atribuída a Eduardo, com orientações sobre como acelerar as remessas de dinheiro para os Estados Unidos. Procurado pela piauí, Eduardo não respondeu até o fechamento da reportagem.

A viagem de maio não foi a primeira de Flávio com Willer. Em janeiro de 2025, como mostrou a piauí, os dois regressaram juntos da Flórida no Legacy 650 de prefixo PP-NLR – o mesmo jato que, sete meses depois, transportou Alexandre de Moraes. A aeronave pertencia a uma sociedade dividida entre três cotistas. Um deles era Willer. Outro era a Prime You, empresa que tinha Vorcaro entre seus sócios. À piauí, Willer afirmou ter pago integralmente o voo com as horas a que tinha direito como cotista e negou ter envolvimento com banqueiro. Flávio e Vorcaro não responderam às perguntas enviadas pela piauí.

O senador, no último ano e meio, visitou com frequência os Estados Unidos. Foram dez viagens entre dezembro de 2024, quando ele e Vorcaro fecharam pessoalmente o acordo de financiamento de Dark Horse, e julho de 2026. O levantamento foi feito pela piauí com base em registros migratórios e documentos aeronáuticos. Das dez viagens, duas – a de janeiro e a de maio de 2025 – foram feitas em jatinhos particulares. Flávio também viajou duas vezes em voos comerciais. Indagado pela piauí sobre as outras seis viagens – se foram feitas com aviões comerciais ou particulares –, o senador não se manifestou. Nenhum outro país foi tão visitado por ele quanto os Estados Unidos. No mesmo período, Flávio fez outras onze viagens ao exterior, passando brevemente por vários países.

Pouco depois do feriado de 1º de maio, Vorcaro e Flávio voltaram aos Estados Unidos com datas coincidentes. O banqueiro chegou e retornou por meio do aeroporto de Fort Lauderdale, permanecendo no país de 16 a 18 de maio. Já o senador foi e voltou por Dallas, permanecendo entre 15 e 18 de maio. Também não há, neste caso, comprovação de que os dois tenham se encontrado. O destino de Flávio chama atenção: a cidade de Dallas é onde fica o escritório de Paulo Calixto, advogado próximo de Eduardo Bolsonaro e administrador do fundo Havengate. A relação entre Eduardo e Calixto ia além da amizade: o advogado o ajudou nos trâmites do visto americano e cedeu seu escritório para reuniões políticas do então deputado. Não se sabe se Flávio e Calixto se encontraram na viagem.

Uma reportagem da piauí mostrou que, em setembro de 2025, Vorcaro repassou mais 1,6 milhão de dólares para o Havengate – e mensagens extraídas de seu celular indicam que houve ainda um outro repasse no mesmo valor, em outubro. Naquele mês, Flávio esteve novamente nos Estados Unidos, em uma viagem a Washington, onde, segundo reportagens publicadas na imprensa, se encontrou com seu irmão Eduardo. Em dezembro e janeiro, o senador passou uma temporada entre Orlando e Washington. Entre fevereiro e julho de 2026, fez outras cinco viagens ao país, visitando sobretudo Miami e Washington. A piauí também perguntou o que motivou todas essas viagens, mas o senador não respondeu.

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