Contradições do discurso econômico de Flávio expõem dúvidas no ajuste fiscal prometido pelo candidato
por Folhapress

As contradições entre as declarações e as propostas do candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) expõem dúvidas sobre o programa de ajuste fiscal que ele adotará no caso de vitória no segundo turno.
A equipe dele vem prometendo fazer um duro ajuste fiscal, mas as medidas sinalizadas por ele e por sua porta-voz econômica, Daniella Marques, vêm alimentando divergências e disputas nos bastidores da campanha.
O motivo é a velocidade e o tamanho do plano de ajuste fiscal no início de um eventual governo. Ou seja, a dúvida é se Flávio Bolsonaro, caso eleito, usará o capital político para adotar medidas duras, mesmo que tenha que passar por cima de promessas feitas ao eleitor durante a campanha.
A disputa está entre escolher um ajuste gradual e um arrocho inspirado no que foi adotado pelo presidente da Argentina, Javier Milei, no início do seu governo, aproveitando que o resultado das urnas no primeiro turno garantiu a formação de uma maioria da direita na Câmara e no Senado suficiente para aprovar PECs (Propostas de Emenda à Constituição) a partir de 2027.
Flávio Bolsonaro já disse que não fará ajuste “em cima de aposentados ou da população de baixa renda”.
O candidato também sinalizou que vai fazer um “tesouraço” nos impostos, desonerar a folha de pagamentos e interromper a reforma tributária para ajustes de rota —medidas que retiram receita dos cofres do governo.
Flávio Bolsonaro afirmou ainda, em entrevista ao SBT News, que não pretende acabar com os pisos constitucionais da saúde e da educação, nem desvincular esses gastos ou o salário mínimo.
Nesta quinta-feira (8), a Folha mostrou que a equipe responsável pelo programa econômico do candidato do PL estuda um pacote de medidas fiscais com foco na contenção das despesas obrigatórias da União para viabilizar um ajuste inicial da ordem de 2% do PIB (Produto Interno Bruto), o equivalente a cerca de R$ 250 bilhões.
Após a publicação, o candidato comentou o conteúdo da reportagem e afirmou que, se eleito, manterá o reajuste das aposentadorias do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) acima da inflação.
“Eu não vou fazer economia em cima de quem precisa, das pessoas mais carentes desse Brasil. Aposentado, fique tranquilo, não caia nessa fake news do PT dizendo que eu vou acabar com o reajuste da aposentadoria”, afirmou ele nesta quinta.
Em abril, o jornal já havia informado que as propostas de desvinculação do piso e de fim do ganho real para aposentados estavam sendo ventiladas internamente entre os integrantes que montavam a candidatura do senador à Presidência. Ele veio a público para negar essa pretensão e reiterou seu posicionamento ao longo da campanha.
As sinalizações de preservação de benefícios e despesas contrastam com a promessa de um ajuste fiscal mais forte, equivalente a no mínimo 1,5% do PIB, apresentada a representantes do mercado financeiro e citada por porta-vozes da campanha como um esforço que seria suficiente para levar à redução das taxas de juros.
Um ajuste dessa magnitude, superior a R$ 200 bilhões considerando projeções para o PIB deste ano, exigiria medidas mais duras, como cortes em despesas com benefícios sociais e previdenciários, na contramão das promessas de Flávio.
Até agora, porém, a campanha fala oficialmente em corte de cargos e ministérios, venda de imóveis da União e combate a fraudes em benefícios —medidas que, sozinhas, não são suficientes para colocar de pé um ajuste dessa envergadura. Mesmo o corte dos chamados gastos tributários, medida também citada por representantes da equipe do candidato, teria alcance limitado e enfrentaria resistências políticas.
Um assessor do presidenciável afirmou à reportagem, na condição de anonimato, que o tamanho do ajuste dependerá de como Flávio sairá das urnas no segundo turno em caso de vitória e também da chamada “agenda STF”, que envolve as negociações para eventual impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal.
A prioridade agora, segundo o assessor, é ganhar as eleições. A estratégia é não abrir os detalhes da proposta em público antes do resultado do segundo turno. Não haverá plano a ser anunciado antes do dia 25 de outubro. Esse interlocutor diz que o compromisso com o ajuste está respaldado pelo mercado, devido à queda dos juros e do dólar após o resultado no primeiro turno.
Procurada pela Folha para falar sobre as contradições da proposta, a campanha afirmou em nota que, ao contrário do “cenário de caos” nas contas públicas criado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o processo de consolidação fiscal proposto pela equipe de Flávio será feito pelo lado da despesa, com o fim de privilégios e penduricalhos e a racionalização de gastos ineficientes, com redução de impostos.
“Desde 2023, o governo do PT insiste na fórmula oposta: aumenta impostos, amplia gastos e deixa a dívida pública crescer. Não se corrige um problema fiscal cobrando cada vez mais de quem trabalha, produz, investe e gera empregos”, diz a nota, assinada pela coordenação da campanha.
“Agiremos com responsabilidade, eficiência e coragem para racionalizar despesas e reconstruir as contas públicas. O Brasil será recolocado no caminho da prosperidade e desenvolvimento.”
Há discordâncias internas na campanha sobre os rumos que a economia deve tomar, caso Flávio seja eleito. Nem todos os integrantes da equipe econômica do senador são favoráveis a um ajuste fiscal restrito, que, a depender da intensidade, pode acarretar uma onda de impopularidade para o presidente eleito.
Há um grupo dentro da campanha que aposta na melhora do mercado para entregar boa parte do ajuste. Isso porque as expectativas mais benevolentes dos agentes econômicos abrem caminho para o próprio governo pagar menos juros —consequentemente, a trajetória de alta da dívida desacelera.
Para essa ala, essa melhora dará tempo à nova gestão, se eleita, para começar o ajuste pelas medidas tidas como moralizantes, como corte de cargos e ministérios e fim de supersalários, até que se evolua para outros ajustes.
Outro grupo também tenta, nos bastidores, se distanciar da promessa de ajuste de 1,5% do PIB, que acaba por gerar uma expectativa pela qual o eventual novo governo será cobrado futuramente.
Na avaliação de Bruno Carazza, professor de economia da FDC (Fundação Dom Cabral), as contradições na campanha do senador eliminam o espaço para promover o ajuste fiscal. Para o economista, o Orçamento do governo já é comprometido com uma série de despesas obrigatórias e, para cumprir a meta prometida pela campanha, seria necessário fazer escolhas difíceis e impopulares.
“O mercado está empolgado com a perspectiva de vitória do Flávio Bolsonaro, mas o programa dele é extremamente genérico e tem uma série de contradições. Foi feito para evitar pontos de atrito”, afirma.
Para Gesner Oliveira, ex-presidente do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), é difícil detalhar as propostas durante a campanha, já que não há medidas concretas antes do início da transição de um governo. Ele foi o responsável por elaborar as primeiras diretrizes do plano de Flávio Bolsonaro.
Ele diz que, mesmo sem detalhar as medidas de ajuste fiscal, o mercado está convencido de que a candidatura de Flávio Bolsonaro não vai “tolerar esse crescimento contínuo” da relação dívida/PIB.
“As pessoas percebem que, embora não haja detalhes, há um compromisso, uma visão clara de que não dá para continuar crescendo a relação dívida/PIB”, declara.


