Lula sinaliza a aliados que pode indicar Fonteles para Fazenda; governador do PI aceitaria deixar o cargo
por Folhapress

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sinalizou a aliados que quer o governador do Piauí, Rafael Fonteles, em sua equipe no quarto mandato, e a vaga mais cotada é o comando do Ministério da Fazenda.
Lula considera que ele é politicamente preparado para o cargo, e auxiliares do presidente afirmam que o governador reeleito do Piauí reúne preparo técnico e densidade eleitoral para ocupar a pasta, considerada a mais importante da Esplanada dos Ministérios.
Fonteles já sinalizou a pessoas próximas de Lula que toparia renunciar ao cargo, apesar da votação expressiva nas eleições em seu estado. Embora seja politicamente complicado desistir do segundo mandato, aliados do governador afirmam que ele é focado e gosta de desafios.
Esses mesmos auxiliares relatam que o governador aceitaria a função, se o presidente Lula lhe oferecesse o cargo como uma missão.
Não houve, porém, até agora, nenhuma decisão de Lula. O vice-presidente Geraldo Alckmin também é um nome citado para a função, em caso de fracasso da opção Fonteles, e não se descarta até um nome de mercado.
Fonteles e Alckmin são nomes de confiança do presidente e alinhados à sua agenda. O perfil se assemelha ao de Fernando Haddad, que por vezes teve sugestões de acenos ao mercado acolhidas por Lula, como na adoção do arcabouço fiscal, e por vezes foi atropelado pelo Planalto, como na inclusão das carnes na cesta básica da reforma tributária.
Em entrevista à GloboNews nesta segunda (26), Fonteles negou que tenha falado com Lula sobre ministério:
“Eu nunca tratei com o presidente Lula sobre qualquer cargo num eventual mandato dele, nem antes da eleição nem depois. Eu acho que isso nunca aconteceu na história, de um governador no começo de mandato assumir um cargo ministerial, então isso não passa pela minha cabeça. Estou aqui para contribuir com o presidente Lula, dado que a nossa aproximação ficou maior nesse segundo turno”, disse.
Ele, no entanto, defendeu a conduta de Lula na área fiscal e disse que os agentes do mercado se convencerão disso.
“O presidente tem compromisso, sim, com o equilíbrio das contas públicas. Às vezes não é exatamente o que o mercado deseja ou sinaliza, mas ele não é presidente apenas para quem atua nos mercados, ele é presidente pensando no todo. Mas compromisso com as contas públicas, o presidente tem autoridade para dizer que fez superávit primário, encerrou a dívida externa, garantiu as reservas internacionais e fez o Brasil crescer”, acrescentou.
Pessoas próximas observam que Fonteles se posicionou para assumir um espaço de destaque em eventual governo Lula 4 ainda durante as eleições. Trocou o vice e escolheu Washington Bandeira, que era secretário de Educação e pessoa de sua confiança. Enfrentou dirigentes locais do PT para emplacar esse nome.
Aliados do governador afirmam que ele é pragmático e tem como vice-governador na chapa vitoriosa um amigo de confiança, facilitando uma eventual saída do cargo.
Na função de um dos coordenadores da campanha presidencial no segundo turno, Fonteles foi quem orientou Lula nos debates ao lado do senador Camilo Santana (PT-CE) e do ministro da Secom (Secretaria de Comunicação), Sidônio Palmeira. No discurso da vitória, no domingo (25), recebeu elogio especial de Lula.
Em 2022, quando foi eleito pela primeira vez para o governo do estado, Fonteles era apontado como o “Tarcísio da esquerda”, numa referência ao governador de São Paulo, que naquele ano também foi eleito para o cargo com apoio de Jair Bolsonaro.
Na época, petistas da área econômica apontavam que ele ganharia preeminência na política nacional pelo desempenho à frente da Secretaria da Fazenda durante o governo Wellington Dias, quando foi uma espécie de “ministro da Fazenda” dos estados ao comandar o Comsefaz (Comitê Nacional dos Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal) no biênio 2019-2021. Com apenas 37 anos à época, ele era visto como um nome para a renovação do PT.
Mas ao longo do terceiro mandato de Lula, essa projeção no cenário nacional como contraponto a Tarcísio não aconteceu. O espaço acabou ocupado por Fernando Haddad, que concorreu com Tarcísio nas eleições deste ano a pedido de Lula.
Um amigo próximo do governador atribuiu o fato de Fonteles não ter ganhado espaço de influência maior no governo Lula 3, como se esperava no início, à pouca idade. Segundo esse colega, para os petistas da velha guarda, Fonteles é “um baby”, com pouca história política no partido, que teria que enfrentar a fila antes de ser alçado a nome para suceder Lula.
No domingo (25), reportagem da Folha mostrou que o governador do Piauí já era citado como um dos cotados para o cargo, além de Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, e dos senadores Camilo Santana e Renan Filho (MDB-AL), dois ex-ministros de Lula.
Um executivo de uma grande instituição financeira ouvido pela reportagem disse que auxiliares do presidente já haviam sondado investidores sobre o nome de Alckmin para o cargo, antes do segundo turno, mas a recepção não foi calorosa. Ele não vê resistência do mercado ao nome de Fonteles, mas avalia que a preferência é pelo presidente do BC.
Alckmin, à frente do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, defendeu a proteção comercial a produtores nacionais e conduziu uma política industrial com incentivos tributários —que, na visão de analistas do mercado, minam a eficiência da economia.
Já o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, deve ficar no cargo. Moretti tem a confiança do presidente pelo seu preparo técnico e habilidade de negociação no Congresso.


