Líderes evangélicos que apoiaram Flávio adotam tom resignado, e bispo diz que ‘Lula soube jogar’

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por Folhapress

Ex-presidente fala ao microfone segurando bandeira do Brasil, cercado por grupo diverso de apoiadores atentos em ambiente interno.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) discursa em São Paulo após vitória no segundo turno das eleições 2026 – Amanda Perobelli – 25.out.26/Reuters

O pastor Lucinho, figura de proa na Igreja Batista da Lagoinha, compartilhou com seus 2,7 milhões de seguidores no Instagram o cronograma planejado para o domingo (25): votar às 9h, ir à igreja às 10h, “niver de churras” ao meio-dia, 18h, igreja de novo. Às 20h, “meu presente: vitória do 22!!!”. Terminaria o dia com o “enterro do PT”.

A vitória de Lula (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) pôs por terra o roteiro traçado pelo pastor e frustrou a ampla maioria das lideranças evangélicas de projeção nacional que torceram pelo bolsonarismo nesta eleição.

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O tom, ao menos por enquanto, é um misto de lamento e conformidade, com reconhecimento do resultado das urnas e sem adesões explícitas à tentativa de questioná-lo, levantada por bolsonaristas como o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG).

O bispo JB Carvalho, que lidera a igreja na qual Flávio se batizou em 2024, a brasiliense Comunidade das Nações, legendou com um resignado “vida que segue” a imagem do mapa do Brasil apoiado sobre uma mão que remete à figura de Deus.

A montagem traz a frase “a nação continua nas SUAS mãos”. Jesus continua no trono, e o Brasil ainda verá “um avivamento”, afirma Carvalho.

O pastor Silas Malafaia divulgou um vídeo pouco depois do resultado, dizendo lamentar “profundamente” o triunfo petista, sem deixar de apontar que “essa é a decisão do povo brasileiro”. Terminou com um “Deus tenha misericórdia do Brasil e livre-nos do caos econômico e social”.

À Folha o bispo Robson Rodovalho disse que “fica nossa tristeza e nossa lástima, mas democracia é isso, vence quem consegue comunicar e convencer a maioria”.

Conselheiro espiritual de Jair Bolsonaro (PL) na prisão e líder da igreja Sara Nossa Terra, onde o deputado eleito Jair Renan, o caçula político do ex-presidente, se batizou em 2024, ele reconhece que o adversário “soube jogar”. Preconiza: “Vamos em frente com fé em Deus e confiando nas instituições democráticas”.

Tom similar adotou o apóstolo Estevam Hernandes, da Renascer em Cristo e da Marcha para Jesus, que a princípio defendia chapa liderada por Tarcísio de Freitas (Republicanos) com Michelle Bolsonaro (PL) de vice, mas acabou endossando a candidatura de Flávio. “Apenas que essa foi a vontade popular. Democraticamente devemos aceitar, pois nos submetemos à vontade soberana de Deus”, afirma. “Devemos continuar confiando que dias melhores virão.”

A “vontade soberana do povo, manifestada democraticamente”, também foi convocada pelo bispo Abner Ferreira, da Assembleia de Deus Madureira, ministério assembleiano que costuma adotar comportamento pendular, apoiando o governante da vez —depois de se aproximar do governo Lula, havia respaldado Flávio na reta final do pleito.

“A democracia exige maturidade, equilíbrio e respeito às decisões populares, independentemente das convicções e preferências individuais”, afirmou.

O apóstolo César Augusto, da igreja Fonte da Vida, agora defende que o país “vire a chave” da disputa eleitoral. “Somos todos brasileiros, orando pelo Brasil, orando por esse governo. Que ele seja melhor do que os governos passados.”

Ele diz ver a direita saindo fortalecida, com conservadores “que vão realmente se posicionar no Congresso”, e Flávio consolidado como liderança nacional. Mas não se furtou a elogiar a trajetória do presidente reeleito. “Nós temos que reconhecer que Lula, como político, talvez seja o maior da história do país.”

Líder da Igreja Batista Atitude, que Michelle Bolsonaro frequentava quando morava no Rio, Josué Valandro Jr. afirma que a direita cristã fez tudo ao alcance dela, e “fica a paz de saber que não nos omitimos”. “Agora, com o coração apertado, é hora de esperar em Deus e seguir com dignidade.”

Referência entre presbiterianos, o reverendo Augustus Nicodemus Lopes enveredou para uma linha mais persecutória. Disse que a igreja já sobreviveu a momentos históricos nefastos e não deve temer os saldos eleitorais. “A Igreja sobreviveu a Nero, ao comunismo soviético e a inúmeras perseguições. Por que haveríamos de temer? Nossa esperança não está nas urnas, no Congresso ou no Planalto. Está em Cristo, o Rei dos reis, cujo Reino jamais terá fim.”

Por volta da meia-noite, a Igreja Universal do Reino de Deus disparou um email para fiéis que começava assim: “Seu candidato ganhou ou perdeu. E agora?”.

“Eleição passa”, diz a mensagem. “O familiar que votou diferente continua sendo da família. O colega continua trabalhando ao seu lado. […] O resultado das urnas não muda em quem você deposita sua fé.”

A Universal foi exceção entre as grandes igrejas evangélicas: não se posicionou a favor nem de Lula nem de Flávio, postura vista como cautelosa num momento em que o Digimais, banco controlado pelo bispo Edir Macedo, é alvo de investigações.

Genro de Macedo e nome central na igreja, o bispo Renato Cardoso preferiu reproduzir em suas redes um versículo do Evangelho de Mateus: “… pois Teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém”.

Omitiu só a primeira parte dessa passagem bíblica, que inicia com “e não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal”. Foi Cardoso quem, em 2022, publicou um texto dizendo que não é possível ser cristão e de esquerda.

 

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