‘Acha que segunda já tenho que estar fora?’, perguntou Vorcaro a Moraes 2 dias antes de prisão
por Folhapress

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, perguntou ao ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), se deveria deixar o país dois dias antes de ser preso pela Polícia Federal.
Ele também pediu encontros com o ministro do STF, justamente para tratar dos negócios que o fizeram ser investigado.
As informações constam de mensagens obtidas pela PF no celular do ex-banqueiro e que fazem parte da investigação sobre a crise do Master. Elas foram reveladas pelo jornal O Estado de S. Paulo e obtidas também pela Folha.
Vorcaro foi preso pela PF no dia 17 de novembro de 2025, quando se preparava para embarcar em um jato particular com destino a Malta. Documentos mostram que no dia 14 ele pergunta ao ministro se está “marcado amanhã lá em casa” ou se “prefere deixar para semana que vem”. Minutos depois, confirma: Vou chegar 14:30 ok! La em casa marcado”.
Na noite do dia 15, pelo horário brasileiro, dois dias antes da prisão, o ex-banqueiro pede um novo encontro com Moraes que “pode ser bem rápido”. “As 14 então. Passo na sua casa ou na minha?”, completa.
Em 15 de novembro de 2025, um sábado, Vorcaro envia a Moraes a mensagem: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”, questionando sobre a necessidade de sair do país.
No dia seguinte, 16, um domingo, avisa: “Já estou em voo, vou pousar 14:20 e irei direto praí, tudo bem?”
As trocas sobre os encontros aconteceram simultaneamente a outras mensagens, nas quais Vorcaro questionava Moraes sobre o andamento do processo contra ele e o Master.
Durante as trocas, o dono do Master questiona diversas vezes sobre as apurações contra ele, se mostra indignado e diz que está tentando resolver todas as pendências para evitar problemas.
A revelação amplia o conjunto de mensagens entre Vorcaro e um interlocutor que a Polícia Federal suspeita ser Moraes. Parte desses diálogos está em documento que foi enviado ao STF e sobre o qual o ministro André Mendonça, do STF, pediu manifestação da PGR (Procuradoria-Geral da República).
Em decisão no final de agosto, Mendonça disse que conversas que Vorcaro teve com “outra pessoa ainda não identificada” comprovam que o ex-banqueiro soube, com significativa antecedência, da decisão que determinaria a sua prisão.
De acordo com o ministro, os diálogos reforçam a hipótese investigativa segundo a qual Vorcaro “demandava intervenção junto a autoridades públicas envolvidas nos respectivos processos decisórios”.
A identificação do interlocutor de Vorcaro, prossegue o relator do caso Master no STF, é fundamental para mapear “integrantes da suposta rede de influência e monitoramento” gerenciada pelo empresário.
Sem citar nomes ou suspeitas, Mendonça indica que nessa rede pode haver pessoas com foro especial e sujeitas a julgamento pelo próprio plenário do STF, como ministros da corte e o procurador-geral da República.
“Uma vez identificados os destinatários e demais mencionados nas referidas mensagens, devem ser igualmente fornecidas a íntegra de todas mensagens e interações existentes que envolvam as mesmas pessoas”, determina o ministro.
Vorcaro mandou mensagens para Moraes no dia que foi preso
Um dia antes da prisão de Daniel Vorcaro, em 16 de novembro, Vorcaro também perguntou a Moraes: “Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?”.
A ordem de prisão preventiva de Vorcaro foi assinada pelo juiz Ricardo Augusto Soares Leite, da 10ª Vara Federal do Distrito Federal, às 15h29 de 17 de novembro. Horas depois, Vorcaro foi detido no Aeroporto Internacional de São Paulo.
No dia 15, Vorcaro perguntou a Moraes: “Aquele mesmo juiz Ricardo? E o [oresidente do banco Central Gabriel] Galípolo tá sabendo? Conseguimos fazer algo?”. Já às 17h26 do dia em que acabou preso, teria enviado: “Conseguiu ter notícia ou bloquear?”.
As mensagens extraídas do celular de Vorcaro não permitem saber o conteúdo de eventuais respostas de Moraes. Os dois usariam imagens de visualização única com capturas de textos escritos no aplicativo de notas, e a extração teria recuperado apenas conteúdos enviados pelo banqueiro.
A investigação da PF apresenta uma série de mensagens enviadas por Vorcaro a partir de 30 de outubro de 2025, quando a crise do Master entra em fase aguda.
Os documentos da Polícia Federal não deixam claro se os encontros de fato se concretizaram, mas apontam que Vorcaro enviou a Moraes 12 prints tratando de encontros nos dias que antecederam sua prisão.
A primeira mensagem foi dia 10, quando o ex-banqueiro questiona se o ministro estará livre no dia seguinte para se encontrarem em Brasília. No dia 11 de manhã, pergunta a mesma coisa.
Já no dia 12, pondera que não quer “atrapalhar programa de família” e diz que a agenda pode acontecer em outro momento.
“Eu iria para Brasília somente pra te ver e atualizar de tudo. Muita coisa acontecendo”, completa. Depois, Acrescenta que os dois também podem se encontrar em São Paulo, e, enfim, confirma o encontro.
No dia 14 de manhã, Vorcaro confirma novamente a agenda com o ministro para o dia seguinte, e mais tarde diz: “estamos juntos sempre.”
Na noite do dia 15, o ex-banqueiro pede para ver Moraes rapidamente em um horário que não vá “atrapalhar muito” o ministro e minutos depois, diz que o encontro está marcado.
Como mostrou a Folha, no dia 16, um domingo, o avião do ex-banqueiro —um jatinho que está em nome de sua holding patrimonial, Viking— partiu de Belo Horizonte rumo a Brasília, aonde chegou às 17h30. A aeronave deixou o Distrito Federal três horas depois, às 20h30, rumo a São Paulo.
Nesse mesmo dia, Vorcaro manda o print a Moraes no qual diz que vai pousar por volta de 14h30 e ir direto encontrar o ministro —nos documentos, a PF não comenta o horário do desembarque do ex-banqueiro, nem o voo.
Na tarde daquele mesmo domingo, Vorcaro também decidiu antecipar o dia em que faria o anúncio público de que a Fictor Holding Financeira iria comprar o Master em parceria com investidores internacionais, de acordo com inúmeras pessoas que acompanharam os preparativos.
Até então, tudo estava organizado para o anúncio ocorrer na sexta-feira seguinte, dia 21, após o feriado da Consciência Negra. A notícia foi divulgada aos jornalistas na tarde de segunda-feira (17).
Nas trocas com Moraes nos dias que antecederam sua prisão, Vorcaro explica justamente que estava trabalhando para antecipar esse anúncio e tentar evitar que o Master quebrasse.
Nesses trechos dos diálogos, o banqueiro pede a um interlocutor a atuação de “Andrei e Paulo” a seu favor. As referências seriam a Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e Paulo Gonet, procurador-geral da República.
A pessoa para quem a mensagem foi enviada não havia sido identificada inicialmente, mas a PF aponta suspeita de que o interlocutor seja Moraes. A informação foi divulgada inicialmente pelo site Metrópoles e confirmada pela Folha.
Em uma das mensagens, Vorcaro afirma que era “importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem que aí vai tudo pro saco”. Em outra, pede que o interlocutor tente adiar uma ação da PF: “Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”.
Ministro não se manifestou sobre o caso
Mendonça deu prazo de cinco dias para que a PGR se manifeste sobre o documento da PF. A Folha procurou nesta terça-feira (1º) Andrei, Gonet e Moraes, que ainda não se manifestaram.
Informações obtidas pela PF também apontam que Moraes fez edições em uma minuta do contrato entre o Banco Master e o escritório de sua mulher, Viviane Barci de Moraes.
Em nota, o escritório afirmou que seu setor de compliance solicitou informações ao ministro, “na condição de marido da sócia diretora”, sobre eventuais impedimentos legais para a contratação.
Segundo o escritório, não havia impedimento porque não estava prevista atuação perante o STF e Moraes não havia julgado causas envolvendo o Master. O contrato previa pagamentos de R$ 129 milhões ao longo de três anos, a R$ 3,6 milhões por mês.
Em março, o jornal O Globo revelou que Vorcaro trocou mensagens de WhatsApp com Moraes ao longo do dia de sua primeira prisão. A informação foi confirmada pela Folha.
À época, Moraes afirmou que “não recebeu essas mensagens” citadas em reportagens e classificou como “ilação mentirosa” a afirmação de que elas teriam sido enviadas a ele.
No dia 17 de novembro, mesmo dia em que Vorcaro se preparava para embarcar para o exterior, o Banco Central decidiu pela liquidação do Master, o que seria anunciado no dia seguinte pela manhã, dia 18.


