Argentinos têm dificuldade para pagar dívidas durante dolorosa reforma econômica de Milei

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por Financial Times
Homem de meia-idade com cabelo castanho volumoso veste terno azul escuro, colete e gravata azul, caminhando em rua com veículos e pessoas ao fundo.
Governo Milei diz que inadimplência está estável, mas economistas veem risco à economia – Angela Ponce/-22.ago.26/ Reuters

Quando seu carro quebrou, no início de 2025, Jonatan Verón, um motorista de Uber de 41 anos de La Plata, na Argentina, tomou um empréstimo bancário de cerca de US$ 1.300 (R$ 6.700) para consertar o motor.

Em poucos meses, Verón começou a atrasar os pagamentos, à medida que sua renda não acompanhava o custo de vida. Depois que furou um pneu, ele foi obrigado a pegar mais US$ 330 (R$ 1.700) com um agiota, a uma taxa de juros de 300%. Desde então, suas dívidas aumentaram para mais de US$ 11 mil (R$ 56,7 mil).

“É muita coisa”, disse Verón, acrescentando que também devia dinheiro à irmã, à ex-mulher e à operadora de telefonia celular. “Mas eu não tinha outra escolha.”

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Um número recorde de famílias argentinas tem enfrentado dificuldades para pagar suas dívidas em dia. Segundo o Instituto Equilíbria , 16,3% do crédito concedido a pessoas físicas está atrasado há pelo menos três meses.

Os empréstimos inadimplentes são resultado das amplas mudanças promovidas na economia argentina pelo presidente Javier Milei, que reduziu os gastos públicos e derrubou a inflação anual de um pico de 289% no início de 2024 para 34%.

A estabilização econômica promovida por Milei deu aos bancos mais incentivos para emprestar dinheiro, justamente quando suas medidas de austeridade aumentaram a necessidade de crédito de muitas famílias. Os argentinos haviam se acostumado com a redução do valor real das dívidas provocada pela alta dos preços, mas as taxas de juros reais passaram a ficar fortemente positivas, muitas vezes acima de 100% ao ano.

A combinação levou cerca de 5,8 milhões de pessoas a atrasarem pagamentos, quase um terço de todos os tomadores de crédito.

As dívidas pessoais se tornaram um ponto de tensão na insatisfação com os efeitos desiguais das reformas de livre mercado de Milei. Os argentinos viram seus salários encolherem ou ficarem estagnados desde a crise inflacionária de 2023, enquanto setores como construção, indústria e varejo sofrem uma desaceleração, mesmo com o avanço de áreas exportadoras, como agricultura e energia.

“Há crescimento [econômico], mas as pessoas não o sentem”, disse Nery Persichini, chefe de pesquisa da corretora GMA Capital. “Muita gente está passando por um momento difícil durante essa transição.”

A oposição peronista de esquerda, fragmentada na Argentina, uniu-se em torno da questão das dívidas. Seus líderes acusam repetidamente Milei de obrigar as pessoas a “se endividarem para sobreviver”. Sindicatos trabalhistas fizeram uma manifestação em Buenos Aires na semana passada para pedir alívio aos devedores.

O gabinete do presidente reagiu na segunda-feira (24), afirmando que os números “não mostram uma situação de crise” e que os atrasos “estão tendendo a diminuir”, depois que dados de junho mostraram que a parcela de empréstimos em atraso havia se estabilizado desde maio.

Integrantes do governo dizem que o aumento da inadimplência é uma consequência temporária da expansão do mercado de crédito privado argentino, que equivale a 12% do PIB e continua pequeno em comparação com países vizinhos. Segundo eles, o problema foi agravado por um forte aumento das taxas de juros no ano passado, quando os credores se protegeram da volatilidade do mercado antes das eleições legislativas de meio de mandato.

O próprio Milei demonstrou pouca simpatia pelos devedores. “Alguém colocou uma arma na cabeça deles para que fizessem isso?”, disse ele em uma entrevista para a TV argentina neste mês, classificando os atrasos como “um problema entre agentes privados”.

Economistas, porém, afirmam que a dimensão do fenômeno é um problema para Milei, 14 meses antes de sua tentativa de reeleição.

“Com tantas pessoas envolvidas, isso deixa de ser uma questão microeconômica e ameaça se tornar uma questão macroeconômica”, disse Amílcar Collante, fundador da consultoria Profit.

O governo Milei considera o crédito privado uma de suas principais ferramentas para impulsionar o consumo e a atividade econômica, que estão crescendo mais lentamente do que o governo esperava.

“Não está claro que o crédito possa ajudar a atividade quando há tantas pessoas incapazes de tomar empréstimos por causa de dívidas não pagas”, disse Collante.

O ministro da Economia, Luis Caputo, busca alternativas para ampliar o mercado de crédito, incluindo permitir que os bancos emprestem às empresas 15% de seus depósitos em dólares —algo que é amplamente proibido desde a crise econômica de 2001.

A economia argentina, historicamente marcada pela volatilidade, há muito desestimula os bancos a conceder empréstimos ao setor privado. Em vez disso, eles obtinham ganhos fáceis com os governos nacionais, que nos últimos anos emitiram grandes volumes de dívida remunerada para financiar os gastos públicos.

A austeridade de Milei mudou esse cenário, incentivando os bancos a buscar empresas e pessoas físicas como clientes.

Mas os indivíduos têm encontrado dificuldades para prever sua capacidade de pagamento, já que a queda da inflação desacelerou o ritmo dos aumentos salariais e Milei eliminou subsídios para gás, eletricidade e transporte.

“Você pega um empréstimo pensando que vai conseguir pagá-lo”, disse Oriana Fernández, analista de uma empresa de roupas, de 24 anos. Ela deve cerca de US$ 3.300 (R$ 17 mil) no cartão de crédito, com juros de 132%, depois de gastar US$ 1.600 (R$ 8.200) no ano passado para garantir um apartamento para ela e o filho após se separar do companheiro.

A empresa onde trabalha, que enfrenta dificuldades para competir à medida que Milei flexibiliza as restrições às importações argentinas, aumentou seu salário em apenas 20% nos últimos 18 meses, disse Fernández, integrante do Devedores Organizados, um coletivo que apoia pessoas inadimplentes.

O aumento dos empréstimos inadimplentes também alimentou a insatisfação com as empresas de carteiras digitais, que são muito populares na Argentina. Segundo o Equilibra, mais de 32% do crédito concedido a pessoas físicas por fintechs e outros credores não bancários está em atraso.

Manifestantes acusaram Milei na semana passada de ser “cúmplice” da “usura” praticada pelas fintechs. “Eles estão cobrando juros de 200%, o que é usura quando se considera a pouca capacidade que as pessoas têm de pagar”, disse Luci Cavallero, fundadora do Movida Ciudad, um grupo de ação comunitária de Buenos Aires.

Mariano Biocca, presidente da câmara argentina de fintechs, afirmou que as carteiras digitais precisam cobrar taxas de juros mais altas que os bancos porque trabalham com tomadores de maior risco. Segundo ele, os empréstimos de fintechs representam uma pequena parcela do total da dívida em atraso.

“Este é um processo de aprendizado”, disse Biocca, acrescentando que “todos os provedores de crédito vêm reduzindo a oferta neste ano enquanto recalibram seus critérios de decisão”. Dados do banco central mostram que a oferta de crédito para pessoas físicas praticamente não cresceu desde o fim de 2025.

Milei descartou medidas de alívio da dívida financiadas pelo governo, embora Caputo tenha dito no mês passado que os credores tinham seus próprios planos “para refinanciar as dívidas em prazos mais longos e com taxas menores”.

Economistas acompanham de perto essas iniciativas enquanto a Argentina se aproxima das eleições presidenciais de 2027. A estagnação da economia pesou sobre o apoio a Milei neste ano. Segundo o instituto de pesquisas Casa Tres, 38% dos entrevistados aprovam seu governo.

“Quando você não tem poder de compra de fato no bolso das pessoas por causa da redução da renda disponível, precisa do motor do crédito para impulsionar o consumo”, disse Persichini, da GMA Capital. “Neste momento, esse motor está desligado.”

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