Brasil deve suspender todo comércio com Israel, diz relatora da ONU
por Folhapress

O Departamento de Estado dos Estados Unidos impôs em julho de 2025 uma série de sanções contra pessoas que colaboram com a investigação do TPI (Tribunal Penal Internacional) contra Israel por suas ações na Faixa de Gaza.
Uma dessas pessoas foi a relatora especial das Nações Unidas para a Palestina, Francesca Albanese —as sanções foram suspensas em maio deste ano depois que um juiz federal americano entendeu que elas violavam a liberdade de expressão da italiana.
Já em fevereiro, a ONG pró-Israel UN Watch, que monitora a ONU, publicou um vídeo editado em que Albanese aparentava dizer que Israel era “o inimigo comum” da humanidade. Na verdade, ela não cita o país e, mais tarde, esclareceu que “o sistema que permite o genocídio na Palestina” era o inimigo comum. Mesmo assim, a França e a Alemanha pediram a renúncia da advogada, cujo mandato só termina em 2028.
A relatora especial, frequentemente acusada de antissemitismo por Israel e aliados, também diz que, para que a ocupação israelense em território palestino termine, são necessárias sanções contra o país —e pede que o Brasil suspenda todo o comércio que realiza com o Estado judeu.
Albanese foi declarada persona non grata por Israel e está proibida de entrar no país desde fevereiro de 2024. A decisão veio depois de a relatora dizer que os civis israelenses mortos pelo ataque terrorista do Hamas no 7 de Outubro foram assassinados não por serem judeus, mas sim em resposta à opressão cometida por Israel.
Como as sanções dos EUA afetaram sua vida?
Tratou-se de uma grave violação de meus privilégios e imunidades como membro do sistema ONU. Meu visto diplomático aos EUA foi revogado, minha afiliação acadêmica na Universidade Georgetown [em Washington] foi encerrada, meu apartamento nos EUA foi confiscado, meu seguro de saúde foi cancelado, minha conta bancária foi fechada.
Em fevereiro, um vídeo falso feito sobre a senhora levou a condenações de países europeus. Após esse incidente, mudou alguma coisa na forma como fala em público?
Não. Essa história foi um mal que veio para o bem, porque lido com esse tipo de golpe há anos. Dessa vez, foi muito escancarado, e expôs a virulência do sistema. Existem esses carniceiros, como gosto de chamá-los. Israel dispõe de um exército infindável de lacaios que saem procurando por qualquer coisa que possa ser usada contra quem denuncia o genocídio.
Eu já fui acusada de ser porta-voz do Hamas, de apoiar o terrorismo. Você consegue imaginar um funcionário da ONU que apoie o terrorismo? Seria expulso em um segundo. Há um amplo registro de falas minhas condenando os ataques de 7 de Outubro e os crimes cometidos pelo Hamas contra civis israelenses.
A Corte Internacional de Justiça, em suas deliberações sobre o tema, não afirmou explicitamente que Israel comete apartheid na Cisjordânia, e Tel Aviv afirma que o tratamento diferenciado se dá com base na nacionalidade, e não na raça. Como a sra. fundamenta a acusação de apartheid que faz?
A Convenção do Apartheid de 1973 se refere a regimes que tenham a mesma conduta da África do Sul, e não apenas à África do Sul.
É vergonhoso que nós, como sociedade, não tenhamos lidado com o termo “raça”, que deveria desaparecer como critério de distinção entre seres humanos. Mas a discriminação racial é um conceito que pode ser aplicado de muitas formas, incluindo para marcar a diferença entre grupos étnicos.
Israel vem usando a diferença religiosa e étnica para criar um sistema supremacista em desfavor dos palestinos. Não importa se usam o termo raça ou não, trata-se de um sistema de dominação composto de atos desumanos cometidos contra um grupo específico. Gostaria que não tivéssemos de chamar esse sistema de racial, mas os palestinos são tratados como uma raça inferior pelos israelenses, e até mesmo sub-humanos, como líderes israelenses já se referiram a eles.
A sra. acha que haverá mudanças na conduta israelense se houver um novo governo no poder no país após as eleições deste ano?
Não. O objetivo de anexação de Israel não é prerrogativa de [Itamar] Ben-Gvir e [Bezalel] Smotrich [ministros extremistas do governo Binyamin Netanyahu]. Se olharmos para as pesquisas de opinião, a limpeza étnica é uma prioridade para muitos israelenses.
Embora seja uma sociedade em convulsão, a luta contra os palestinos e os árabes é um fator gregário para muitos. Por isso, a política em relação aos palestinos não mudará no curto ou médio prazo.
Que medidas concretas a ONU e a comunidade internacional precisam tomar para proteger os direitos de palestinos sob ataque de colonos israelenses na Cisjordânia hoje?
Israel deve sofrer sanções. No limbo que vivemos causado pelo veto dos EUA no Conselho de Segurança, os Estados-membros precisam obedecer o direito internacional e não auxiliar um país que possívelmente comete crimes internacionais.
Isso significa: nada de exportar armas, energia, nada do Brasil exportar carvão que alimenta a máquina de guerra israelense contra os palestinos, os libaneses e outros na região.
A senhora acredita que o Brasil deveria cortar o comércio com Israel?
Suspender, com certeza. Trata-se da única maneira legal de lidar com Israel e a única maneira de manter o sistema do direito internacional de pé.
Raio-X | Francesca Albanese, 49
Nascida no sul da Itália, formou-se em direito na Universidade de Pisa, com mestrado em direito humanitário pela Universidade de Londres. Trabalhou para o Escritório de Direitos Humanos da ONU e para a UNRWA, a agência das Nações Unidas para refugiados palestinos. Foi eleita em 2022 pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU ao cargo de relatora especial sobre a situação dos direitos humanos no território palestino ocupado.


