Campanha de Lula avalia ato para evangélicos, mas ideia divide aliados
O hoje presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante ato com evangélicos em São Paulo na campanha de 2022 - Marlene Bergamo - 19.dez.22/Folhapress
por Folhapress
A equipe de campanha do presidente Lula (PT) avalia promover um evento voltado a evangélicos nas próximas semanas, provavelmente no Rio de Janeiro.
A estratégia para se aproximar desse eleitorado, que tende a apoiar mais seu adversário Flávio Bolsonaro (PL-RJ), divide o grupo do petista.
Parte dos aliados defende que ele adote ações diretas, como atos específicos para o segmento. Outra ala afirma que esses eventos soam artificiais e prega uma abordagem mais sutil.
A organização desse tipo de ato também é um assunto delicado no entorno do presidente porque ele costuma dizer que rechaça a ideia de misturar política e religião.
“A gente entendeu que é preciso ter um trabalho direcionado [aos evangélicos], até para combater a desinformação”, afirma Gutierres Barbosa, integrante da Igreja Batista Nazareth, de Salvador, e coordenador do Setorial Inter-religioso do PT.
Ele diz que eventuais atos do presidente voltados a esse público deverão ocorrer em um espaço separado das igrejas, com convites para líderes religiosos.
Pesquisa Quaest divulgada no início de agosto mostrou que Lula tem 33% das intenções de voto no segundo turno entre envangélicos, e Flávio, 48%. O Censo de 2022 mostrou que cerca de 27% da população do país é evangélica.
No eleitorado total, Lula tem empate técnico com Flávio, com 43% a 40%. A margem de erro é de dois pontos percentuais.
Os aliados mais próximos do presidente da República que, reservadamente, criticam a organização de eventual ato para evangélicos argumentam que as ações do governo se destinam a todos os segmentos da sociedade, independentemente da religião.
Para eles, a aproximação com esse eleitorado poderia ser feita de outras formas.
Uma delas seria Lula suavizar seu discurso, principalmente na forma. Foram citados dois exemplos de manifestações do presidente que, por essa análise, atrapalham a aproximação com o público religioso em geral.
O primeiro foi a frase que Lula repetiu inúmeras vezes ao longo da campanha de 2022, que tinha “tesão de 20 anos”. O segundo, o discurso no Palácio do Planalto no qual Lula mostrou o dedo do meio.
Outra proposta é incorporar aos discursos expressões que atraiam esse público, como mais menções à família.
Um colaborador afirma que o presidente sempre se disse cristão, antes mesmo de isso se tornar um tema relevante na política.
Além disso, é mencionado como ponto forte de Lula para a conversa com evangélicos o fato de ele ter indicado Jorge Messias para uma vaga no STF (Supremo Tribunal Federal). O advogado-geral da União, que é membro da Igreja Batista, foi rejeitado pelo Senado.
A senadora Eliziane Gama (PT-MA), integrante da Assembleia de Deus e uma das conselheiras do presidente em assuntos relacionados ao eleitorado evangélico, avalia que a adequação dos discursos e a promoção de eventos não são excludentes.
“Encontros do presidente com denominações evangélicas, como a Assembleia de Deus, são fundamentais e falam muito para o segmento na sua plenitude”, disse ela.
A vereadora de Goiânia e candidata a deputada federal Aava Santiago (PSB), da Assembleia de Deus Ministério de Madureira e aliada do presidente, disse que os evangélicos estão exaustos da politização das igrejas e que o petista acertou ao não criar um “cabo de guerra” com o bolsonarismo.
Ela afirma que atos específicos foram importantes em 2022, quando o clima era mais adverso a Lula, mas não precisam ser repetidos neste ano.
A vereadora defendeu foco em ações como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000, a regularização de dívidas no Desenrola e a defesa do fim da escala 6×1.
Segundo ela, essas medidas aumentam a capacidade das pessoas de colaborar com a manutenção da igreja por meio do dízimo e o tempo disponível para congregar com a comunidade, pontos sensíveis em círculos evangélicos. “[É preciso] ter a capacidade política de associar os resultados concretos das decisões do governo a valores caros ao evangelho”, afirmou.
Ela minimiza o potencial de desgaste com os discursos de Lula e cita o estilo do hoje ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), principal líder dos opositores do petista. “A referência deles puxou o [grito de] imbrochável no 7 de Setembro”, mencionou.
A deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ), um dos nomes que historicamente buscou pontes entre Lula e o eleitorado evangélico, disse à Folha que uma das preocupações é não fazer distinções entre grupos evangélicos de diferentes posicionamentos –desde os de esquerda até os mais conservadores.
“Nós temos todo o cuidado de não selecionar, mas dar o mesmo tratamento que nós já vínhamos dando”. Benedita, que é integrante da Igreja Presbiteriana Betânia, disse que a preocupação com o segmento em seu grupo político é antiga.
As tentativas de aproximação de Lula com o eleitorado evangélico se avolumaram ao longo do atual mandato. O petista tem feito conversas diretas com esse público, discursos com menção a Deus e participação em eventos de interesse desse segmento.
Lula é católico, mas em algumas declarações públicas passou a citar uma identidade religiosa mais abrangente, a de cristão, que inclui evangélicos.
Em setembro do ano passado, o petista deu entrevista ao lado da mulher, a primeira-dama, Janja, ao podcast Papo de Crente. O programa é feito por um grupo simpático ao petista. Na época, um dos vídeos mais populares do canal era intitulado “Coalizão de evangélicos contra Bolsonaro”.
Um mês depois, o presidente recebeu lideranças evangélicas no Palácio do Planalto, ao lado de Jorge Messias, que estava prestes a ser indicado para o STF. A religião foi um ponto reforçado pelo indicado de Lula durante sua sabatina, que se referiu a si mesmo como um “servo de Deus”.


