No total, foram enviados seis telegramas, entre 2019 e 2020, de embaixadas brasileiras em países como Alemanha, França, Itália, Suíça, Cuba e Jamaica. Bolsonaro havia decretado sigilo de 100 anos sobre as informações, mas a Controladoria-Geral da União (CGU) retirou a determinação.
Nos conteúdos, havia considerações sobre as matérias jornalísticas do caso Marielle e repúdio a algumas delas.
Em um dos casos, o embaixador do Brasil em Roma, Hélio Vitor Ramos Filho, enviou uma carta de repúdio ao diretor do jornal La Repubblica pela reportagem “Brasile, ucciso il killer che sapeva tutto sull’omicidio di Marielle Franco” (Brasil: morto o assassino que sabia tudo sobre o homicídio de Marielle Franco).
No texto, a jornalista fala sobre a ligação do clã Bolsonaro ao miliciano Adriano da Nóbrega, morto em 9 de fevereiro de 2020, em uma operação policial na Bahia. O indício, no entanto, já havia sido descoberto por investigadores brasileiros.
Veja o que diz o trecho da reportagem:
“Uma investigação perigosa para a família de Jair e para o próprio presidente. Um entrelaçamento de relações e amizades que pode chegar até o Planalto, abrindo caminho também para as conexões entre política e crime, entre lideranças locais e milícias. Entre instigadores e autores do assassinato de Marielle Franco. Melhor fechar o jogo. Com três tiros que silenciam uma importante testemunha. Mas desconfortável”, diz a reportagem do jornalista Daniele Mastrogiacomo.
Em resposta, o embaixador Hélio Vitor disse: “A matéria, em particular seu último parágrafo, faz ilações difamatórias e infundadas, baseadas em suposições incomprovadas, tendo por objetivo exclusivo levantar suspeitas sobre a honra do (então) presidente da República Jair Bolsonaro, eleito democraticamente pelo povo brasileiro”.
Caso Marielle
Marielle Franco (PSol), então vereadora do Rio de Janeiro, e o motorista dela, Anderson Gomes, foram assassinados em 14 de março de 2018, e a investigação nunca foi concluída.
Só acabaram presos os supostos executores do crime, Ronnie Lessa e Élcio Queiroz. Eles jamais foram denunciados à Justiça.
Em setembro de 2022, a Justiça do Rio negou recurso e manteve as prisões dos dois. Na decisão, o juiz Gustavo Gomes Kalil, da 4ª Vara Criminal do Rio, ainda criticou os “sucessivos” apelos por liberdade.