Congresso segue aprovando projetos que elevam gastos enquanto cobra cortes do governo Lula

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O presidente da Câmara, Hugo Motta (PB) - Mário Agra-9.jul.24/Divulgação Câmara dos Deputados

Em uma semana marcada por cobranças do Congresso para que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) corte gastos, deputados e senadores agiram na direção contrária ao seu próprio discurso e aprovaram projetos que elevam as despesas e renúncias fiscais da União.

Uma das iniciativas equipara à deficiência a fibromialgia (que causa dor crônica generalizada, sem causa inflamatória aparente) e a síndrome de dor regional complexa. A classificação abre caminho para que pessoas com essas condições tenham acesso ao BPC (Benefício de Prestação Continuada), benefício no valor de um salário mínimo (R$ 1.518) pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda.

O BPC é hoje uma das principais fontes de preocupação do governo, devido ao aumento no número de beneficiários. Nos 12 meses até maio, o governo gastou R$ 121,5 bilhões com o programa, 12% a mais do que nos 12 meses anteriores, já descontada a inflação do período. O Executivo inclusive propôs no ano passado uma série de apertos nas regras de concessão, boa parte delas rejeitada pelo Legislativo.

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Os indivíduos diagnosticados com as doenças agora classificadas como deficiência também terão direito a outros benefícios com impacto nas contas públicas, como isenção de IR (Imposto de Renda) sobre rendimentos e de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) na compra de veículos. Também poderão disputar vagas em concursos públicos por meio de cotas.

O projeto foi votado pelo Senado na quarta-feira (2) e segue agora para sanção de Lula, uma vez que já havia sido aprovado na Câmara. Dentro do governo, sua aprovação gerou consternação, por se dar justamente no momento em que o próprio Congresso cobra corte de gastos.

Apesar do discurso dos parlamentares, nas últimas semanas eles demonstraram inclinação distinta também em outros projetos.

Na última quarta, a CFT (Comissão de Finanças e Tributação) da Câmara aprovou um projeto que fixa em R$ 3.036 o piso salarial para trabalhadores de limpeza urbana e ainda garante aposentadoria especial para a categoria —ou seja, eles podem se aposentar mais cedo e com regras mais benevolentes, com impacto nas contas da Previdência Social.

Além disso, o piso pressiona o caixa dos municípios —muitos deles, em dificuldades financeiras. A CNM (Confederação Nacional de Municípios) estima um impacto entre R$ 4,9 bilhões e R$ 5,9 bilhões ao ano. Diante da fatura, o temor é que as prefeituras pressionem a União por algum tipo de ajuda, caso o projeto avance no Congresso. O texto ainda precisa passar por outras comissões e pelo plenário da Câmara.

O Senado também mantém na pauta um projeto que pode gerar uma fatura extra de mais de R$ 40 bilhões ao ano para o governo federal. Ele fixa em R$ 13,6 mil o piso salarial de médicos e cirurgiões dentistas para 20 horas semanais de trabalho. Além de garantir o valor mínimo aos profissionais federais, o texto ainda manda a União pagar uma complementação a estados e municípios para garantir que os funcionários desses entes recebam a mesma remuneração.

A proposta tramita na CAE (Comissão de Assuntos Econômicos). Em junho, a base aliada precisou articular um pedido de vista para evitar o avanço da iniciativa. O governo conseguiu segurar, mas o texto segue na pauta da comissão —e no radar de preocupações do Executivo.

Um integrante da equipe econômica diz que a investida do Congresso para elevar despesas e renúncias fiscais “está ficando incontrolável”. Segundo esse interlocutor, num cenário como este, não há revisão de gastos que seja suficiente para equilibrar o Orçamento.

Nos últimos dias, os atritos entre Executivo e Legislativo escalaram após a derrubada do decreto que aumentou o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). O governo decidiu recorrer ao STF (Supremo Tribunal Federal) para restabelecer o aumento do imposto, o que abriu uma nova crise com o Parlamento.

No decorrer do impasse, os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), defenderam cortes de gastos em diferentes ocasiões, mantra repetido por parlamentares do centrão e também da oposição.

Durante os trabalhos legislativos, porém, projetos com repercussão fiscal são votados até mesmo sem estimativa de impacto, apesar de a própria Constituição exigir que propostas que criem ou alterem despesa obrigatória ou renúncia de receitas sejam acompanhadas desses cálculos.

No caso da proposta da fibromialgia, os relatórios que embasaram a votação no plenário do Senado destacam os aspectos médicos da condição e seus efeitos sobre a pessoa —como dores, insônia, problemas de memória e concentração, ansiedade e depressão. Não fizeram menção, contudo, ao impacto orçamentário do projeto.

Na Câmara, a proposta passou pelas comissões de Saúde, de Seguridade Social e de Constituição e Justiça. O texto chegou a ser encaminhado à CFT, mas a comissão concluiu que a proposta não resultava em aumento de despesas ou renúncias, “não cabendo pronunciamento quanto à adequação financeira e orçamentária”.

Sem mais obstáculos, os deputados aprovaram o texto no plenário em setembro do ano passado, com ampla maioria: 450 votos a favor e apenas um contra, com duas abstenções. No Senado, a votação foi simbólica, sem a contagem individual de votos.

O texto aprovado define que a equiparação à deficiência dependerá de uma avaliação biopsicossocial, prevê a criação de um programa nacional de acompanhamento clínico e a criação de um cadastro. Um técnico do governo afirma que já existe hoje grande judicialização de pessoas com esse diagnóstico que buscam o benefício. A avaliação no Executivo é que o texto flexibiliza as condições de acesso e vai impactar, sim, o Orçamento.

O relator do texto no Senado, o petista Fabiano Contarato (ES), defende que a proposta reconhece a doença como uma condição que exige atenção do Estado e que atenderá 7 milhões de pessoas.

Apesar de a mudança na lei abrir caminho para o acesso ao BPC e a benefícios tributários, Contarato diz que Câmara e Senado concluíram pela ausência de impacto orçamentário.

As medidas aprovadas e em discussão por Câmara e Senado

Equiparação de fibromialgia à deficiência

Com a classificação de deficiência, a pessoa com o diagnóstico pode ter acesso ao BPC, à isenção do IR sobre rendimentos e de IPI na compa de veículo
Por onde já passou: aprovado na Câmara e no Senado
O que falta agora: a sanção do presidente Lula
Quanto vai custar: o projeto não teve avaliação de impacto orçamentário

Piso salarial nacional para médicos e dentistas

Médicos e cirurgiões dentistas passam a ter um salário mínimo de R$ 13.662 para jornada de 20 horas semanais
Por onde já passou: projeto aguarda votação na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado
O que falta agora: se for aprovado na CAE, vai para análise da Câmara
Quanto vai custar: governa estima um custo de R$ 40 bi

Piso salarial e aposentadoria especial para trabalhadores da limpeza urbana

O projeto prevê um mínimo de R$ 3.036 e a possibilidade de aposentadoria antecipada, como cáculo mais vantajoso
Por onde já passou: pelas comissões de Previdência e Assistência Social, de Trabalho e de Finanças e Tributação
O que falta agora: análise pela Comissão de COnstituição e Justiça e nos plenários de Câmara e Senado
Quando vai custar: de R$ 4,9 bilhões a R$ 5,9 bilhões, projeto a confederação dos municípios

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