“Crime organizado é o maior beneficiário de retirada de identificação de munições”, diz especialista
por Alice Ferraz e Nanny Cox, no Estadão

O crime organizado será o maior beneficiado caso ocorra a retirada da identificação de munições destinadas às forças policiais, proposta que tramita no Congresso Nacional atualmente. Essa é a avaliação de Roberto Uchôa, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. “Para o crime organizado, é muito mais interessante ir direto e subornar o policial para ele fazer o desvio de munição do que tentar comprar no mercado ilegal.” O especialista em armas, inclusive, conta que a mudança seria um retrocesso, uma vez que o País estabeleceu a obrigação da identificação, em 2003, como forma primária de evitar o desvio de munições das forças de segurança pública.
O tema veio à tona durante a sabatina da TV Globo com o candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL) na última sexta-feira (16). Foi o pai dele, Jair Bolsonaro (PL) que propôs a medida, aprovada pela Câmara dos Deputados. Segundo Uchôa, a discussão, neste momento, deveria ser o contrário: “A marcação de todas essas munições e não a desmarcação”.
Uchôa cita os casos da juíza Patrícia Acioli e da vereadora Marielle Franco. No caso da juíza, a identificação dos estojos usados no crime que tirou sua vida foram fundamentais: ajudaram a descobrir que a munição tinha saído do 7º Batalhão da Polícia Militar de São Gonçalo. No caso de Marielle, o lote das munições, que havia sido grande, dificultou o processo. Por isso, Uchôa afirma que, além de manter e até aumentar a identificação, é preciso limitar cada lote de fabricação a 10 mil munições. “Precisamos fiscalizar para que aquilo que está estabelecido seja cumprido. E responsabilizar quem desviou.”


