Dívidas de famílias em atraso com bancos batem novo recorde em setembro, mostra BC
por Folhapress

A inadimplência das pessoas físicas no crédito voltou a bater recorde em setembro, segundo dados divulgados pelo Banco Central nesta quinta-feira (29), alcançando a maior marca da série histórica, além da quarta alta mensal consecutiva.
O índice chegou a 8,1% para as pessoas físicas, alta de 0,1 ponto percentual em relação a agosto, quando o indicador já tinha alcançado o maior nível da série histórica, e expansão de 1,2 ponto percentual em 12 meses.
Esse indicador de inadimplência mede a dívida em atraso a mais de 90 dias em relação ao estoque total de empréstimos e considera o crédito livre, aquele cujas taxas são fixadas livremente pelos bancos, como cheque especial e o financiamento de veículos.
O nível de endividamento das famílias em relação à renda também atingiu nível recorde, 50,1% em agosto, alta de 0,2 ponto percentual em relação a setembro e 1,2 ponto percentual em 12 meses. Ou seja, mais da metade da renda de uma família correspondia a dívidas.
O endividamento foi tema da campanha eleitoral, vencida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no domingo (25). O governo estrutura um novo Desenrola, no qual a União comprará a dívida antiga das famílias com os bancos. É estimado que até 15 milhões de brasileiros negociem R$ 150 bilhões.
O candidato derrotado, Flávio Bolsonaro (PL), sugeriu um programa semelhante, no qual o governo também compraria as dívidas dos inadimplentes, que seriam refinanciadas pela Caixa Econômica Federal, com mais prazo e menor taxa de juros.
Os dados divulgados nesta quinta-feira também mostram uma alta no indicador que mede o percentual do orçamento familiar destinado para o pagamento da dívida: de 28,8% para 29%.
Apesar do ciclo de redução da Selic, atualmente em 13,75% ao ano, as taxas de juros bancários voltaram a subir em agosto e setembro, após três meses de queda, segundo dados do BC.
Em setembro, o juro médio cobrado pelas instituições financeiras tanto de pessoas físicas quanto de empresas foi de 32,4% ao ano, alta de 0,2 ponto percentual em relação ao mês anterior.
“Não é possível dizer se é uma nova tendência de aumento de taxas ou algo pontual, de ajuste, no nível médio”, afirmou o chefe do departamento de estatísticas do BC, Fernando Rocha, na apresentação dos dados.
De acordo com Rocha, embora a Selic esteja em trajetória de queda, a relação da transmissão da política monetária para a taxa de crédito não é direta. “Acho que a gente vai ter um momento de redução de taxas, mas você pode ter uma flutuação nesse processo”, comentou.
Embora a inadimplência geral tenha se elevado na média, houve uma queda de 0,5 ponto percentual no rotativo do cartão de crédito. Essa linha, no entanto, permanece com juros em elevação: houve alta de 6,8 pontos percentuais em relação a agosto, totalizando um juro de 451,7% ao ano. Uma regra do BC limita as dívidas no cartão a no máximo 100% do valor inicial.
A tendência de inadimplência permanece no crédito consignado, tanto para aposentados e pensionistas quanto no consignado privado total, turbinado pelo governo Lula 3. Também houve alta de 0,5 ponto percentual nas dívidas do cheque especial.
No final de setembro, o Comef (Comitê de Estabilidade Financeira), órgão do Banco Central, falou em endividamento em “patamar historicamente alto”. Na última semana, o BC anunciou novas medidas que visam proteger consumidores contra abusos nas ofertas de crédito, além de conferir mais transparência antes da contratação de empréstimos.
Para Caio Napoleão, economista da 4Intelligence, os índices de inadimplência parecem estar ganhando um “fôlego adicional”, já que mostram trajetória de alta desde junho.
Ele também disse que o nível de comprometimento de renda permaneceu alto em agosto mesmo na vigência do Desenrola 2, “contrariamente ao esperado”. Nessa etapa do programa de renegociação de dívidas, foram renegociados R$ 28,3 bilhões de quem ganhava até cinco salários mínimos, com dívidas de empréstimos de cheque especial, crédito pessoal sem garantia e da fatura de cartão de crédito no prazo entre 90 dias e 2 anos.
Já no Desenrola 1, lançado em 2023, foram renegociados R$ 53 bilhões de dívidas bancárias e contas de serviços públicos.
Os dados do BC também mostraram que no crédito direcionado, cujas taxas cobradas têm regras definidas pelo governo, a inadimplência recuou 0,2 ponto percentual para as pessoas físicas. Essa modalidade inclui o financiamento imobiliário, o microcrédito, crédito rural e financiamentos via BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).
Nas concessões de crédito, houve um salto em relação aos aposentados e pensionistas. A concessão teve um salto de R$ 4,7 bilhões em agosto para R$ 8,7 bilhões em setembro. Rocha explicou que isso ocorreu devido ao fim da regra que limitou a margem consignável em setembro, o que reduziu os empréstimos concedidos.
Já no consignado do setor privado, a concessão de crédito recuou 7,7% em setembro. Em 12 meses, com o efeito do programa turbinado pelo presidente Lula, a alta foi de 154%.


