Eletricista diz que ‘emprestou os dados’ para ser tesoureiro da ONG de Karina da Gama, que movimentou R$ 83 milhões, mas nunca exerceu a função
Por Rodrigo Rodrigues, Diego Zanchetta, g1 SP e TV Globo

Os advogados de defesa do eletricista Vanderlei Magalhães Natividade, que aparece formalmente em documentos como tesoureiro do Instituto Conhecer Brasil (ICB), de Karina da Gama, disseram nesta segunda-feira (14) que ele “nunca exerceu qualquer atividade de fato no instituto”, que tem contrato milionário com a Prefeitura de São Paulo.
Natividade é apontado pela Polícia Federal (PF) como a pessoa cuja assinatura aparece em documentos relacionados a movimentações que totalizaram cerca de R$ 83 milhões do ICB em apenas um ano. A casa dele foi alvo da operação autorizada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), na última quinta-feira (10).
🔎 Karina da Gama é produtora do filme “Dark Horse”, que retrata a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ela também é dona do Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade que mantém contrato milionário com a Prefeitura de São Paulo, e está no centro de uma investigação da Polícia Federal (PF) que apura suspeitas envolvendo recursos públicos e movimentações financeiras relacionadas ao instituto e ao filme.
Conforme o g1 publicou, Natividade se apresenta nas redes sociais como um eletricista industrial que faz reparos em empresas e apartamentos.

Os advogados Miguel Kupermann e Matheus Yasbeck Montenegro afirmam que ele apenas se dispôs a ajudar na criação do ICB por sua prima, Karina da Gama, sem jamais ter movimentado qualquer conta bancária da entidade.
“Há 12 anos, a pedido de sua prima, Karina da Gama, Vanderlei forneceu seus dados para auxiliá-la na constituição do Instituto Conhecer Brasil (ICB), ocasião em que foi registrado, formalmente, como tesoureiro estatutário”, afirmou a nota.
“Não obstante essa designação no estatuto, Vanderlei nunca exerceu qualquer atividade de fato no instituto, nunca movimentou contas da entidade e nunca recebeu qualquer valor em detrimento da sua suposta posição executiva”, diz.

Casa na Zona Norte
Em maio, a produção da TV Globo esteve no endereço onde Vanderlei Natividade mora, na Vila Brasilândia, na Zona Norte de São Paulo.
A casa faz fundos com o terreno onde também vive a família de Karina da Gama, produtora do filme “Dark Horse”, que está sendo investigada no Supremo Tribunal Federal (STF).

Segundo os advogados, “a proximidade familiar e a relação de confiança com Karina — que inclusive motivou, em determinado período, a residência de Vanderlei no imóvel vizinho à família dela — explicam por que seu nome foi utilizado na constituição do instituto”.
“[A proximidade] não se confunde com qualquer papel ativo na administração ou na movimentação de recursos da entidade. Vanderlei é pequeno empresário e trabalha como eletricista nas regiões Norte e Oeste de São Paulo. Não tem qualquer envolvimento com política, produção cultural ou de eventos, tampouco com a produção do filme ‘Dark Horse'”, disseram seus advogados

O que diz o ICB
O g1 procurou o Instituto Conhecer Brasil (ICB) para entender o motivo do eletricista ainda ser apontado como tesoureiro da entidade, segundo as investigações da Polícia Federal, mas ainda não obteve retorno.
A defesa de Karina Ferreira da Gama informou que apresentou uma reclamação constitucional ao STF após a operação da Polícia Federal da quinta-feira (10).
🔎 Reclamação constitucional é um instrumento usado para garantir a competência de um tribunal e o cumprimento de suas decisões por juízes e tribunais inferiores.
Segundo o advogado Ricardo Sayeg, a medida não questiona o mérito da investigação e busca garantir o cumprimento de decisões da Presidência do STF e a competência do juiz natural.
A defesa afirma ainda que Karina vinha colaborando espontaneamente com a investigação e entregou à PF, na última sexta-feira, mais de 20 mil páginas de documentos.


Íntegra da Nota de Karina da Gama
“Tendo em vista a operação da Polícia Federal na data de hoje [quinta], no exercício da advocacia em favor da Sra. Karina Ferreira da Gama, ajuizamos nesta data, reclamação constitucional em jurisdição criminal perante a Presidência do STF. A medida não discute o mérito da investigação, sendo certo que, a cliente estava contribuindo espontânea e voluntariamente, tanto que, atendeu, na última sexta-feira, à solicitação da Polícia Federal e entregou mais de 20 mil laudas de documentos, o que prova sua boa-fé e lealdade processual. Entretanto, nossa defesa técnica insiste em assegurar a autoridade das decisões da Presidência do STF e a competência do juiz natural. Acreditamos em nossas Instituições e confia-se na Suprema Corte para a plena garantia do devido processo legal.”


