Flávio Bolsonaro advogou de graça em defesa de PM suspeito de matar criança de 5 anos
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao chegar para evento no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) - Adriano Machado -12.mai.26/Reuters
por Artur Rodrigues, Amanda Rossi e Luís Adorno, no UOL
O senador Flávio Bolsonaro (PL) atuou como advogado de graça no caso relacionado à morte de uma menina de cinco anos durante uma operação policial no Rio de Janeiro.
Trata-se do caso Ana Clara Gomes Machado, de cinco anos, morta por disparos de fuzil em fevereiro de 2021, em Niterói (RJ), quando brincava na porta de casa com o irmão. O policial militar Bruno Dias Delaroli foi acusado pelo Ministério Público de atirar. Flávio integrou a defesa do policial e assinou, em 2024, um recurso ao STJ (Superior Tribunal de Justiça) contra a decisão de levá-lo a júri popular. Esse caso foi revelado em março pelo ICL.
Entre as notas fiscais do escritório de Flávio obtidas pelo UOL, não há nenhuma em nome de Delaroli ou de outras bancas de advogados. Ao todo, foram quase R$ 14 milhões faturados desde 2023.
Também não existe nota fiscal em nome do escritório que representa o policial —como mostrou o UOL, a maior parte dos clientes de Flávio são outros advogados.
Segundo nota enviada à Folha de S.Paulo por um dos defensores de Delaroli, o advogado Paulo Klein, o senador atuou no caso a convite dele, por meio do Instituto Família Policial. Procurado, Klein não quis se pronunciar.
A reportagem apurou que o trabalho feito pelo instituto neste e em outros casos é no modelo pro bono —ou seja, sem cobrar honorários pela atuação jurídica.
O instituto foi criado, segundo o advogado, para “que policiais e suas famílias que vivem em um estado narcoterrorista possam ter o mínimo de dignidade em suas defesas e foi com isso que o senador se identificou com sua longa história de defesa dos agentes da lei que colocam suas vidas em risco para o bem da sociedade”.
O UOL procurou a assessoria do candidato à Presidência, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.
Versão da defesa
O caso Ana Clara tem sido usado pela campanha do presidente Lula (PT) à reeleição. O candidato petista questionou seu rival sobre o processo durante o debate da Band, no último domingo. Enquanto o programa estava no ar, os termos “flavio bolsonaro caso ana clara” registraram mais de 1 milhão de pesquisas no Google, e “flavio ana clara” ultrapassou 200 mil.
A defesa do policial, porém, afirmou na nota à Folha de S.Paulo haver uma “inversão permanente de valores no Brasil”. “No caso concreto, este policial assim como seus colegas foram recebidos a tiros de fuzil dentro de uma comunidade e ao reagirem para se proteger e proteger a comunidade, uma criança ficou na linha de tiros e veio a óbito. Justamente por isso a defesa adotou todos os meios legais para que este caso fosse enviado a Justiça Militar para processamento e julgamento e não ao tribunal do júri”, afirmou na nota.
O advogado afirmou ter convidado Flávio para integrar a defesa quando o caso chegou ao STJ (Superior Tribunal de Justiça). “Julgado o caso, o STJ entendeu que não tínhamos razão e determinou que o caso fosse a júri popular que está marcado para o início do próximo ano. Portanto, a atuação do senador Flávio bem como do meu escritório se deu dentro da mais absoluta transparência, ética e profissionalismo, que a propósito, sempre pautaram a nossa atuação”, afirma a nota.
O defensor também afirmou que não houve adiamento do caso em razão da atuação de Flávio, conforme se falou no horário eleitoral. O adiamento, segundo ele, se deu “por determinação do juízo que estava impossibilitado de presidir o ato”.
A defesa ainda afirma que Delaroli é inocente e que “os atos praticados por sua defesa com o apoio do senador Flávio Bolsonaro estão em perfeita consonância com o exercício da advocacia”.
Segundo a denúncia do Ministério Público do Rio de Janeiro, o policial militar Bruno Dias Delaroli disparou seu fuzil em direção a uma área residencial onde Ana Clara brincava, assumindo o risco de matar moradores. A acusação afirma que pessoas que estavam no local chegaram a gritar “é morador, é morador”, na tentativa de interromper os tiros, mas o PM continuou disparando depois dos alertas.


