Flávio Bolsonaro lidera doações eleitorais com R$ 44 mi; Lula recebeu R$ 35,9 mi
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) durante evento de pré-campanha em Curitiba - Rodolfo Buhrer - 29.mai.26/Reuters
O senador Flávio Bolsonaro (PL) lidera até o momento a arrecadação de doações eleitorais na disputa pela Presidência da República, com R$ 44,3 milhões em recursos captados. A campanha de Lula (PT) vem em segundo lugar, com R$ 35,9 milhões arrecadados.
Dos seis principais presidenciáveis, o escritor Augusto Cury (Avante) é quem menos arrecadou: R$ 317 mil, dos quais 78% (R$ 250 mil) vieram dele próprio.
Os dados foram coletados no sistema Divulgacand do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) na noite de quarta-feira (8).
O prazo para que partidos e candidatos enviem à Justiça Eleitoral a prestação parcial de contas, com identificação de doadores e valores, começou nesta quarta e vai até domingo (13). Os recursos podem ser arrecadados até o dia da eleição, mas as despesas e as receitas registradas a partir desta quarta só entrarão na prestação completa, cujo prazo final de envio termina em 14 de novembro.
Segundo o TSE, o dinheiro arrecadado pode ser usado em despesas da campanha, como produção de material gráfico, propaganda eleitoral e aluguel de espaços para eventos. A lista também inclui deslocamento de candidatos, funcionamento de comitês de campanha, contratação de pessoal e utilização de carros de som.
Flávio, com R$ 44,3 milhões em doações, tem como principal financiador o próprio PL, que aportou R$ 42 milhões do Fundo Especial do partido. Trata-se de verba pública distribuída exclusivamente em anos eleitorais e destinada ao custeio das campanhas.
O mesmo acontece com a campanha de Lula. Dos R$ 35,9 milhões arrecadados, 97% (R$ 35 milhões) vieram do PT através do Fundo Especial. O partido ainda aportou R$ 150 mil por meio do Fundo Partidário.
Afora os recursos partidários, ambos os candidatos —que lideram as pesquisas de intenção de voto— tem um mesmo doador em comum: o empresário Erasmo Carlos Battistella, apelidado de “rei do biodiesel”.
Fundador e CEO da Be8, uma das maiores produtoras de biodiesel do país, Battistella doou R$ 500 mil para cada uma das candidaturas.
A companhia, com sede em Passo Fundo (RS) e unidades industriais no Brasil, no Paraguai e na Suíça, reportou faturamento recorde de R$ 10 bilhões no ano de 2025.
Battistella ainda integra o Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, o “Conselhão”, órgão de assessoramento imediato à Presidência da República.
Procurado pela Folha, o empresário disse por meio de sua assessoria de imprensa, que as doações foram realizadas como pessoa física e estão dentro dos limites estabelecidos pela legislação eleitoral brasileira.
Além dos recursos do “rei do biodiesel”, Flávio Bolsonaro recebeu R$ 500 mil de Fernando de Castro Marques, CEO da União Química Farmacêutica.
O terceiro maior doador é Ângelo Calmon de Sá, ex-ministro da Indústria e do Comércio durante o governo de Ernesto Geisel. Ele destinou R$ 400 mil à Direção Nacional do PL. Como mostrou a Folha, a prática cria uma camada entre o doador e o candidato e vem sendo adotada para ocultar o elo eleitoral de grandes empresários.
Calmon de Sá deixou a equipe ministerial de Geisel, o quarto mandatário do regime militar, em 1979 e assumiu a presidência do Banco Econômico. Após um curto período fora da instituição financeira —para comandar o Ministério do Desenvolvimento Regional do governo Collor— o banqueiro voltou ao Econômico.
Em meio a suspeitas de que o banco apresentava balanços maquiados, o BC interveio no comando da instituição em 1995. Nessa época, o órgão descobriu o escândalo da “pasta rosa”. Segundo registros, o Econômico doou US$ 2,4 milhões para candidaturas das eleições de 1990. A legislação eleitoral proibia doações de empresas jurídicas, e o BC apurou que o Econômico lançava os gastos como pagamento a empresas. O caso foi considerado crime tributário, e o BC decretou a liquidação do banco em 1996.
Em 2007, Calmon de Sá foi condenado a 13 anos de prisão em regime fechado, mas não há registros de cumprimento de pena. A Folha não localizou Calmon de Sá para comentar.
Já Lula, além das verbas do partido, recebeu R$ 115 mil de uma campanha de financiamento coletivo. Também figuram entre os principais doadores: Jones Alexandre Barros Soares, diretor da Transpetro, subsidiária da Petrobras, e Mayra Cristina da Luz Pádua Guimarães, doutoranda em enfermagem pela USP (Universidade de São Paulo). Ambos contribuíram com R$ 40 mil cada.
A candidatura do petista ainda recebeu R$ 17 mil de Fernando Paes de Carvalho, ex-diretor da Petros, fundo de pensão criado pela Petrobras. Outros R$ 17 mil foram doados por Luiz Sérgio Nóbrega de Oliveira, ex-deputado federal do PT pelo Rio de Janeiro. O professor de Direito da FGV, Rabih Nasser, doou R$ 15 mil, mesma soma de José Genivaldo da Silva, sindicalista da Petrobras.
Ronaldo Caiado (PSD) vem em terceiro lugar com R$ 6,6 milhões em recursos arrecadados. A maioria (cerca de 62%) são doações feitas ao partido.
A maior quantia veio de Carlos Eduardo Ferraz de Mattos Barroso, com R$ 2,3 milhões. Ele é proprietário do fundo de investimentos Polaris, da imobiliária e construtora CH Empreendimentos Imobiliários e de um cartório de registro de imóveis em Taguatinga (DF).
Ricardo Fleury Cavalcanti de Albuquerque Lacerda, fundador e presidente do banco de investimentos BR Partners, doou R$ 1 milhão. João Carlos Paes Mendonça, presidente do grupo JCPM, destinou R$ 500 mil. Outros nomes, como Pedro Passos, co-fundador da Natura, e os irmãos bilionários Salo e Helio Seibel, donos da holding Ligna, também constam na lista.
A campanha de Romeu Zema (Novo) arrecadou R$ 3,4 milhões até o momento. Desse total, R$ 3 milhões vieram do fundo partidário, e R$ 100 mil foram doados para a direção nacional do partido por Guilherme Vidigal Andrade Gonçalves, membro do conselho da química Nitro e da Globo Pharma. Os irmãos Seibel também doaram para a campanha de Zema, com R$ 50 mil cada.
Renan Santos, do Missão, soma R$ 1,3 milhão vindos quase que exclusivamente de doações de apoiadores. Mais de 90% do montante vem de financiamento coletivo, e a maior quantia até o momento é de R$ 4.014,14, de Rômulo Couto Araújo, empresário de Brasília.
Já Augusto Cury entrou com R$ 250 mil para a própria campanha, cerca de 78% do total doado para a candidatura do Avante. O partido aportou R$ 50 mil via Fundo Especial; outros 5% vieram de doações de pessoas físicas. O deputado estadual Noraldino Lucio Dias Junior (PSB-MG) doou R$ 15 mil à campanha.


