Gilmar propõe a Fachin vetar delegados da PF em gabinetes do STF após crise entre Mendonça e Moraes
por Folhapress

O ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal), propôs ao presidente da corte, Edson Fachin, que delegados da PF (Polícia Federal) sejam proibidos de atuar nos gabinetes dos magistrados no tribunal.
A medida já vinha sendo defendida pelo decano desde a escalada da crise entre o ministro André Mendonça e a direção-geral da PF. Ela ganhou força após o relator do Master expor diálogos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro com o ministro do STF Alexandre de Moraes.
Segundo o portal da transparência do STF, seis delegados da PF estão atualmente cedidos ao Supremo: dois com Mendonça nos casos Master e INSS (Instituto Nacional de Seguro Social), dois com o próprio Moraes, um no gabinete do ministro Luiz Fux e mais um que trabalha na área de segurança.
Fux, no entanto, afirma que não tem delegados na sua equipe, embora o sistema do STF cite o nome de Fabiano Emidio de Lucena Martins como cedido pela PF ao seu gabinete desde 18 de maio de 2026, com regime de trabalho presencial.
Gilmar afirmou a auxiliares que delegados da PF que atuam junto a ministros do STF podem acabar interferindo na condução das investigações, com o objetivo de galgar novas posições na categoria ou obter algum benefício político.
Os delegados cedidos pela PF aos gabinetes não atuam como investigadores, mas como assessores dos ministros. A partir da expertise em investigação criminal, podem auxiliá-los na análise técnica de procedimentos criminais, relatórios e pedidos de diligências feitos pela corporação.
Os policiais federais responsáveis por conduzir as investigações em si —como a do Master, a do INSS ou inquéritos criminais sobre emendas parlamentares, por exemplo— não trabalham dentro dos gabinetes do Supremo. Eles ficam na própria PF.
A ADPF (Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal) classificou como ”lamentável” a iniciativa de Gilmar. A entidade diz que o auxílio especializado é salutar para que os ministros tenham “suporte em uma melhor compreensão dos aspectos que permeiam uma investigação policial”.
“Certamente os problemas atuais da Suprema Corte não são responsabilidade dos delegados da Polícia Federal, nem dentro, nem fora da polícia. Talvez demonizá-los seja apenas o caminho mais fácil para tirar o foco dos problemas que realmente merecem solução”, diz o presidente da ADPF, Edvandir Paiva.
Em junho, o governo Lula (PT) enviou ofícios a mais de 50 órgãos da administração pública pedindo para que policiais federais cedidos fossem “devolvidos” aos postos de origem. O Supremo, no entanto, foi poupado.
O decano já conversou com Fachin sobre o tema em outra ocasião, há cerca de duas semanas, e deve voltar a suscitar essa questão nesta quinta-feira (3). Ambos devem se reunir para discutir a crise inédita vivida pela corte, que pela primeira vez vai deliberar se abre ou não investigação contra um colega.
Fachin tem procurado os magistrados para conversas individuais. A avaliação do presidente do STF é de que a situação não tem precedentes e deve ser tratada com o máximo de prudência, visando a preservação da instituição.
Como mostrou a Folha, um ministro chegou a alertar Fachin sobre a possibilidade de Mendonça estar sendo influenciado pelos delegados lotados em seu gabinete, que são críticos da postura do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.
O relator das operações Sem Desconto e Compliance Zero, por outro lado, afirma a pessoas próximas que atua com cautela e independência e que seu objetivo principal é garantir a integridade das investigações, respeitando o devido processo legal.
A ala que defende Moraes entende que Mendonça atropelou os ritos ao mandar a PF investigar um ministro do STF à revelia de decisão prévia do plenário, como manda o regimento. Esse grupo compara os métodos do relator com os da Operação Lava Jato e prepara uma ofensiva para expor essas fragilidades.
A reunião entre um juiz auxiliar de Mendonça com Vorcaro sem a presença da PF, a participação de Mendonça no quadro societário do Instituto Iter (do qual ele anunciou saída nesta quinta-feira) e supostos vazamentos de informações sigilosas devem entrar no rol de alegações do “contra-ataque”.
Já o entorno de Mendonça diz que não houve ato investigatório, apenas uma determinação para que a PF identificasse o interlocutor de Vorcaro. Ao levantar o sigilo do material, o relator do caso Master disse que o plenário do Supremo é o “caminho inevitável” para debater o tema.


