IPCA cai 0,32% com bônus de Itaipu em agosto e tem maior deflação em quatro anos
por Folhapress

O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) teve deflação em agosto ao registrar taxa de -0,32%, apontam dados divulgados nesta sexta-feira (11) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
O resultado foi puxado para baixo pela queda da conta de luz (-7,63%) sob impacto temporário do bônus de Itaipu. Também houve reduções nos preços da passagem aérea (-13,17%) e de parte dos alimentos e combustíveis.
Esta foi a primeira deflação do IPCA em um ano, desde agosto de 2025 (-0,11%), e a maior em quatro anos, desde agosto de 2022 (-0,36%).
A queda foi mais intensa do que a prevista na mediana das projeções do mercado financeiro. A estimativa era de -0,28%, conforme a agência Bloomberg.
A deflação ocorre quando um índice de preços cai em determinado período. É o contrário da inflação –alta do custo de bens e serviços. O IPCA havia subido 0,07% em julho.
No acumulado de 12 meses, o índice passou a registrar inflação de 4,22%. Houve desaceleração —perda de força— na comparação com a alta verificada até julho (4,44%).
Assim, o IPCA permaneceu pelo segundo mês consecutivo abaixo do teto de 4,5% da meta de inflação perseguida pelo BC (Banco Central).
A divulgação desta sexta é a última do índice antes do primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro, e ocorre às vésperas da nova reunião do Copom (Comitê de Política Monetária).
O colegiado do BC terá encontro na terça (15) e na quarta (16) para definir o patamar da taxa básica de juros (Selic), que está em 14% ao ano.
A deflação de agosto reforçou expectativas de novo corte de 0,25 ponto percentual. Com isso, a Selic iria a 13,75%.
Analistas, porém, chamam a atenção para a existência de riscos no cenário. Um deles é o fenômeno climático El Niño, que desafia o agronegócio ao alterar a distribuição das chuvas.
Outra ameaça vem da guerra entre Estados Unidos e Irã. Na quarta (9), as cotações do petróleo ultrapassaram US$ 100 pela primeira vez desde maio com a intensificação do conflito.
“Para o restante do ano, o cenário inflacionário é mais complexo diante do panorama envolvendo o evento climático do El Niño e do patamar do preço do petróleo, com potencial impacto altista para bens industriais”, diz a economista Mariana Rodrigues, da SulAmérica Investimentos.
QUEDA TEMPORÁRIA NA CONTA DE LUZ
A projeção de deflação em agosto era alimentada principalmente pela aplicação do bônus de Itaipu. Trata-se de um desconto temporário que tende a ser revertido já a partir de setembro na conta de luz.
O bônus é distribuído a milhões de consumidores todo ano. O crédito é calculado com base no saldo da conta de comercialização da energia de Itaipu.
A queda dos preços da energia elétrica (-7,63%) gerou um impacto de -0,33 ponto percentual no IPCA.
Em uma situação hipotética, se a conta de luz saísse do cálculo, o índice teria sido levemente positivo (0,01%), conforme Fernando Gonçalves, gerente da pesquisa do IBGE.
O pesquisador afirmou que a redução da energia elétrica foi a maior para o mês de agosto no Plano Real. A moeda passou a circular em julho de 1994.
Com a baixa na conta de luz, o grupo habitação também teve a maior queda para o mês de agosto no Plano Real (-1,87%).
COMBUSTÍVEIS E ALIMENTOS ALIVIAM; CIGARRO PRESSIONA
Outro grupo que aliviou o IPCA foi o de transportes (-0,86). Nesse caso, a variação refletiu as baixas da passagem aérea (-13,17%) e de combustíveis —gasolina (-0,59%), etanol (-3,95%) e óleo diesel (-0,8%).
O grupo alimentação e bebidas teve o terceiro mês consecutivo de deflação. A queda em agosto (-0,34%), porém, foi menos intensa do que a de julho (-0,67%).
Gonçalves associou a nova redução à ampliação da oferta de produtos sob clima mais favorável para a produção no campo. É um quadro que costuma influenciar os preços nesta época do ano.
As principais quedas foram da batata-inglesa (-19,89%), da cenoura (-11,22%), da cebola (-11,07%), do tomate (-10,94%), do ovo de galinha (-4,15%) e do café moído (-1,86%).
Do lado das altas, destacam-se o leite longa vida (1,78%), as frutas (0,84%) e as carnes (0,61%).
PRINCIPAIS QUEDAS DE ALIMENTOS EM AGOSTO
- Batata-inglesa: -19,89%
- Cenoura: -11,22%
- Cebola: -11,07%
- Tomate: -10,94%
- Ovo de galinha: -4,15%
- Café moído: -1,86%
PRINCIPAIS ALTAS DE ALIMENTOS EM AGOSTO
- Leite longa vida: 1,78%
- Frutas: 0,84%
- Carnes: 0,61%
O cigarro foi o componente que mais pressionou o IPCA para cima em agosto. A alta desse produto foi de 19,59% após reajuste no preço mínimo.
O IBGE informou que a variação foi a maior do cigarro no Plano Real. O avanço gerou um impacto de 0,11 ponto percentual no índice geral.
EL NIÑO E PETRÓLEO TRAZEM RISCOS
A instituição financeira Asa revisou a sua projeção para o IPCA de 2026. A estimativa caiu de 5% para 4,8%, mas o balanço de riscos permanece relevante, especialmente em razão do El Niño, diz relatório assinado pelo economista Leonardo Costa.
Preços de alimentos podem ficar mais caros para o consumidor em caso de perdas de produção devido ao fenômeno climático. O El Niño também ameaça pressionar custos em setores como o de energia.
A consultoria 4intelligence manteve a previsão para o acumulado deste ano em 5,1%.
Para a instituição, os possíveis efeitos do El Niño e as incertezas ligadas à guerra ainda poderão impactar os preços. O IPCA mensal de setembro deve mostrar inflação de 0,46%, aponta a 4intelligence.
O contexto do petróleo levou o governo Lula (PT) a anunciar um novo pacote de medidas para conter a alta dos preços dos combustíveis antes do primeiro turno das eleições.
Como mostrou reportagem da Folha, o IPCA acumula inflação de 17,9% ao longo da terceira gestão do presidente, no período de janeiro de 2023 a agosto de 2026.
É a menor alta em um mandato presidencial até as vésperas das eleições desde o início do Plano Real. A comparação considera o acumulado do IPCA até agosto do quarto ano de cada governo.
Se de um lado a inflação ficou em um patamar menor e o mercado de trabalho bateu recordes, de outro o endividamento das famílias virou dor de cabeça para Lula antes das eleições.
O nível dos preços de alimentos também é apontado como desafio para o presidente em 2026, apesar da trajetória recente de queda.
Na mediana, as projeções do mercado financeiro indicam alta de 5% para o IPCA nos 12 meses até dezembro, conforme o boletim Focus, divulgado pelo BC. A estimativa está acima do teto da meta (4,5%).
A meta é considerada descumprida quando o IPCA acumulado permanece por seis meses seguidos de divulgação fora do intervalo de tolerância, que vai de 1,5% (piso) a 4,5% (teto). O centro é de 3%.


