Lula cita ‘intervenções militares ilegais’ na América e diz que uso da força ‘jamais’ combaterá mazelas
Lula em Fórum Econômico no Panamá — Foto: Ricardo Stuckert/PR
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou na quarta-feira (28) que há “intervenções militares ilegais” na região da América Latina e do Caribe e criticou a paralisia de organismos internacionais na resposta a essas ações.
Ele também disse que o uso da força não é capaz de combater as “mazelas” dos países e que “falta convicção” às lideranças regionais.
O petista deu as declarações durante discurso na sessão inaugural do Fórum Econômico Internacional da América Latina, realizado no Panamá. Lula não especificou a qual intervenção militar estava se referindo ao dar a declaração.
” A única organização que engloba a totalidade dos países da América Latina e Caribe, a Celac, está paralisada, apesar dos esforços do nosso querido presidente Petro. A CELAC não consegue produzir nem mesmo uma única declaração contra intervenções militares ilegais que abalam a nossa região”, afirmou.
“A história mostra que o uso da força jamais pavimentará o caminho para superar as mazelas que afligem esse hemisfério que é de todos nós. A divisão do mundo em zonas de influencias e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos e retrocessos históricos”, completou.
No início do ano, os Estados Unidos invadiram a Venezuela, capturaram e prenderam o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, em um ataque que deixou 100 mortos. A ação tem sido criticada por Lula em pronunciamentos.
Apesar das críticas indiretas, o petista afirmou que os Estados Unidos “souberam ser parceiros” dos países latino-americanos em alguns momentos.
“O presidente Franklin Roosevelt (1933–1945) implementou uma política de boa vizinhança que tinha como objetivo substituir a intervenção militar pela diplomacia em sua política externa para a América Latina e Caribe”, destacou.
Em março, Lula deve embarcar para Washington para se encontrar com Donald Trump. Além de questões econômicas e comerciais, o petista pretende abordar as situações da Venezuela e da Faixa de Gaza.
Trump convidou o brasileiro para integrar um Conselho da Paz que vai debater, entre outros pontos, a questão do território palestino. Lula ainda não confirmou participação no colegiado de países.
Ainda sobre as turbulências internacionais, Lula afirmou que o Brasil escolheu “o mundo da democracia, da paz e da integração regional” e disse que a única guerra que deveria ser travada é a “contra a fome e a desigualdade”.
Lula defende ‘neutralidade’ do Canal do Panamá, alvo de investidas dos EUA
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou na quarta-feira (28) que o Brasil defende a “neutralidade” do Canal do Panamá — alvo de investidas constantes do presidente norte-americano, Donald Trump.
“Continuamos empenhados em trabalhar com todos os países vizinhos. São dezenas de obras de melhoria de rodovias, hidrovias, ferrovias, portos e aeroportos, além de infovias e linhas de transmissão, com potencial para dobrar o comércio intrarregional em poucos anos”, mencionou Lula.
A integração em infraestrutura não tem ideologia. Por isso o Brasil defende a neutralidade do Canal do Panamá, administrado de forma eficiente, segura e não-discriminatória há quase três décadas”, prosseguiu.
A declaração foi dada durante o evento do Fórum Econômico da América Latina e Caribe, na Cidade do Panamá, no Panamá. Após sua fala, o petista foi ovacionado pela plateia.

A soberania do Panamá no canal foi questionada por Trump que anunciou o desejo de “retomar o controle” da estrutura que permite a passagem de navios entre os oceanos Atlântico e Pacífico (leia mais abaixo).
Essa não é a primeira vez que o presidente brasileiro defende a soberania do Panamá. No ano passado, ao receber o então presidente panamenho, José Raúl Mulino, no Palácio do Planalto, Lula afirmou que o Brasil apoiava integralmente a soberania do Panamá sobre o canal.
Mudanças de administração
O Canal do Panamá foi inaugurado em agosto de 1914 e foi considerado a maior obra de engenharia da época. A construção possibilitou a passagem entre os oceanos Atlântico e Pacífico através das Américas, reduzindo o tempo de viagem de navios cargueiros.
Os Estados Unidos tiveram um papel crucial na realização da obra. Na época, o Panamá ainda era uma província da Colômbia, e o governo norte-americano não conseguia chegar a um acordo satisfatório com as autoridades colombianas.
Diante disso, os americanos decidiram apoiar a independência do Panamá e ancoraram navios nas duas costas da região. Três anos depois, já como um Estado autônomo, o Panamá firmou um acordo com os EUA para a construção do canal.
O acordo previa um pagamento de US$ 10 milhões, além de US$ 250 mil anuais, para que os Estados Unidos controlassem o canal. No entanto, na segunda metade do século 20, o Panamá passou a pressionar o governo americano pela nacionalização da estrutura.
Os Estados Unidos controlaram o Canal do Panamá até o final de 1999, quando ele foi entregue ao governo panamenho. Ao longo de mais de 80 anos, a via impulsionou a economia norte-americana e contribuiu para o desenvolvimento do noroeste dos EUA.
No ano passado, Trump acusou o Panamá de cobrar taxas excessivas para o uso do canal e afirmou que existe o risco de influência chinesa na região. Dois portos próximos à entrada do canal são administrados por uma empresa de Hong Kong.
“Se os princípios, tanto morais quanto legais, deste gesto magnânimo de doação não forem seguidos, então exigiremos que o Canal do Panamá seja devolvido a nós, integralmente, rapidamente e sem questionamentos”, afirmou o presidente na época.
Trump também declarou que o Canal do Panamá é vital para os Estados Unidos.
Na ocasião, o governo do Panamá afirmou que as taxas cobradas para o uso do canal são calculadas e avaliadas com transparência, ajudando a manter a estrutura.
O presidente panamenho, José Raúl Mulino, disse ainda que o canal não está sob o controle ou influência de nenhum outro país.
“Cada metro quadrado do Canal do Panamá e sua área ao redor pertence ao Panamá e continuará a pertencer”, afirmou Mulino.
“A soberania e a independência do nosso país não são negociáveis.”