Lula foi alvo de 1 em cada 4 conteúdos com IA publicados na pré-campanha, diz levantamento
por Folhapress

O presidente Lula (PT) foi o principal alvo de conteúdos com uso de inteligência artificial durante a pré-campanha, aponta levantamento do Observatório IA nas Eleições. Ao todo, foram 112 casos identificados com reprodução artificial da imagem ou voz do presidente.
Adversário de Lula na disputa presidencial, o senador Flávio Bolsonaro (PL) foi o segundo principal alvo de conteúdos sintéticos, com 57 casos. Na sequência, aparecem Jair Bolsonaro (PL), o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL).
O levantamento identificou 413 casos de uso político da tecnologia nas redes sociais, uma média de 1,8 caso por dia, no período entre 1º de janeiro e 15 de agosto.
O observatório é uma iniciativa conjunta da Data Privacy, entidade que atua com privacidade e proteção de dados, e do Aláfia Lab, laboratório de pesquisa em internet e política.
Em relatório divulgado na segunda-feira (14), o observatório apontou que 81% dos conteúdos de inteligência artificial identificados no período da pré-campanha eram deepfakes, ou seja, tinham manipulação de imagens ou falas de figuras públicas.
A pesquisa também indicou que 63% das publicações com uso de inteligência artificial identificadas neste período não as identificavam como conteúdos sintéticos.
Nos dois casos, o conteúdo vai na contramão das regras estabelecidas pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para o uso de inteligência artificial nas eleições.
Em resolução publicada em março, a Justiça Eleitoral determinou que as candidaturas informem de maneira explícita, destacada e acessível quando um conteúdo tiver sido fabricado ou manipulado, além de informar qual tecnologia foi usada.
A corte também estabelece restrições específicas aos chamados deepfakes, quando áudios e vídeos são manipulados digitalmente para criar, substituir ou alterar a imagem ou a voz de uma pessoa. O uso deste tipo de conteúdo é vetado seja para prejudicar, seja para favorecer uma candidatura.
Um dos casos mais emblemáticos foi a transmissão de um conteúdo que simulava um discurso do ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar, na convenção partidária que referendou a candidatura à Presidência do senador Flávio Bolsonaro.
Na época, o TSE estabeleceu que este tipo de conteúdo poderia ser considerado ilícito eleitoral se fosse usado para propaganda ao público externo. Como a sua divulgação foi no âmbito de uma convenção, voltada para o público interno do partido, não houve punição.
A maioria dos conteúdos com inteligência artificial foi publicado por pessoas anônimas, mas ao menos 35% vieram de agentes políticos, sendo 92 publicações feitas por políticos e 53 por partidos.
O político que mais publicou conteúdos sintéticos neste período foi Flávio Bolsonaro, com 13 casos. Na sequência, aparecem o deputado federal Mário Frias (PL-SP), o ex-governador Romeu Zema (Novo-MG), o deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) e o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP).
Entre os partidos, o PL aparece com 28 publicações, seguido por PT, com quatro, e PSDB, com duas. Republicanos, União Brasil, PSOL e MDB também tiveram ao menos uma publicação identificada.
O levantamento ainda aponta que 60% dos conteúdos sintéticos que circularam na pré-campanha eram de sátira ou humor, enquanto 40% foram classificados como desinformação.
Ao todo, 64% dos conteúdos eram críticas ou ataques políticos, enquanto 34% eram usados para elogiar ou endossar políticos e causas. Em seis casos, imagens de políticos foram utilizadas para aplicar golpes virtuais.
Entre os casos considerados mais graves no relatório estão manipulações usadas em ataques contra mulheres. O observatório identificou imagens adulteradas da deputada Érika Hilton (PSOL-SP) e um deepfake da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF).
A principal plataforma de circulação dos conteúdos foi o Instagram, com 50% dos casos. O TikTok aparece em seguida, com 21%, e o X, com 16%. Também foram registrados casos, em menor número, no Facebook, YouTube e Kwai.
Além das imagens e vídeos manipulados, o observatório testou o comportamento de ferramentas de inteligência artificial generativa diante das regras eleitorais.
Entre abril e agosto, cinco chatbots gratuitos disponíveis no Brasil —ChatGPT, Gemini, Grok, DeepSeek e Meta AI— foram submetidos mensalmente a 11 perguntas idênticas. O objetivo era verificar se as ferramentas atuaram para ranquear, traçar perfis e recomendar pré-candidatos à Presidência.
A pesquisa apontou que as empresas não seguiram as novas regras do TSE, fornecendo informações, orientações ou indicações que, segundo o observatório, poderiam influenciar o debate público e a escolha do voto.


