Milei promete radicalizar reformas, mas experimento liberal perde popularidade

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por The Economist

Uma estatueta de um homem com cabelo castanho e um sorriso, vestido com um terno preto e uma gravata azul. Ele segura uma motosserra amarela com um logotipo de leão. O fundo é desfocado, destacando a figura em primeiro plano.
Boneco do argentino Javier Milei com a motosserra – Agustin Marcarian – 12.fev.25/Reuters

“Meu brinquedo favorito”, diz Javier Milei, olhando para a motosserra dourada em seu gabinete na Casa Rosada, a sede da Presidência da Argentina.

“Há muito mais gastos a cortar e muitos mais impostos a reduzir”, ele afirma, acrescentando que vai realmente mostrar a que veio assim que for reeleito no ano que vem.

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Se as reformas até agora foram “mais do que tudo o que foi feito nos últimos cem anos na Argentina somados, garanto que o próximo pacote de reformas será muito mais profundo”.

Ele promete que a Argentina vai abraçar a inteligência artificial como nenhum outro país e diz acreditar que isso pode ajudá-la a “se tornar uma potência mundial líder, como os Estados Unidos” em apenas 20 anos. Prepare-se para Milei ‘recarregado’, ele sorri.

Ainda assim, este é um momento delicado. Após herdar uma situação econômica terrível, Milei conseguiu reduzir a inflação e desregulamentar fortemente a economia.

Os eleitores recompensaram isso na eleição de meio de mandato do ano passado, mas hoje dizem aos institutos de pesquisa que se importam muito mais com perspectivas de emprego e salários do que com a inflação.

O crescimento econômico está em crise, e ainda faltam apenas 14 meses para que novas medidas políticas tragam resultados antes que ele enfrente as urnas em outubro do próximo ano.

Com sua aprovação pessoal profundamente negativa, há o risco de que um rival mais esbanjador da ala à esquerda do movimento peronista da Argentina, que defenda um Estado intervencionista, possa capturar o coração dos eleitores.

O experimento radical, que inspirou defensores do livre mercado pelo mundo, está em jogo. A grande questão para o próximo ano é se redobrar a aposta agressiva —o Milei “recarregado”— é o caminho para vencer a reeleição.

Ele pode se orgulhar de sucessos notáveis. Antes de assumir o cargo em dezembro de 2023, a inflação batia em 13% ao mês e os gastos do governo estavam fora de controle, financiados pela impressão de dinheiro.

Milei usou sua motosserra contra os gastos e entregou superávits fiscais. A inflação caiu, para cerca de 2% ao mês. Isso ajudou a reduzir a parcela de pessoas vivendo na pobreza em cerca de um terço, para 28%.

Os mercados estão muito mais contentes. O governo tem lidado com a dívida externa e, este ano, o BCRA (banco central argentino) tem comprado reservas em dólares de forma agressiva. Isso é facilitado pelo boom das exportações de petróleo.

Milei também reduziu a burocracia excessiva da Argentina. “Eliminamos 17 mil regulamentos”, ele diz. No início deste ano, ele aprovou uma reforma trabalhista abrangente.

O presidente continua sendo um otimista convicto com a tecnologia. A IA “só pode fazer o bem; o único mal que pode ser causado é se os Estados interferirem”, afirma. A teoria econômica “prova” isso.

Ele quer conceder plenos direitos legais às empresas administradas exclusivamente por IA. “Por que eu deveria discriminá-las?”, questiona —embora o projeto de lei que empodera a IA pareça exigir alguma intervenção humana.

O alinhamento estreito com o governo Trump também deu resultados. Antes das eleições de meio de mandato do ano passado, com os peronistas gastadores indo bem nas pesquisas, o peso argentino estava sob tanta pressão que o banco central gastou mais de US$ 1 bilhão em dois dias tentando impedir a queda da moeda.

Trump veio ao resgate com uma linha de swaps de US$ 20 bilhões e compras diretas pelo Tesouro de pesos argentinos. A moeda se estabilizou, ajudando o partido de Milei a transformar uma provável derrota dolorosa em uma vitória expressiva.

Milei demonstrou pragmatismo em relação à China, grande parceiro comercial. Antes de assumir o cargo, ele vociferou contra a liderança chinesa, classificando-a de “assassina”. Agora, se derrete ao dizer que “trabalhar com os chineses é muito agradável”.

Isso valeu a pena. No mês passado, a China estendeu uma linha vital de swaps de US$ 19 bilhões com o banco central argentino. Ele diz que não pediram nada em troca.

E ainda assim, Milei tem problemas. A economia está a caminho de um segundo ano consecutivo de crescimento, algo raro na Argentina; mas em um ritmo mais lento do que o planejado.

Seu governo havia previsto um crescimento de 5% este ano, mas após vários meses de contração, a maioria dos analistas espera quase metade disso.

O crescimento está concentrado em setores como hidrocarbonetos, mineração e agricultura, que não são intensivos em mão de obra. A atividade econômica em setores mais importantes, como manufatura e construção, ainda é pelo menos 10% menor do que quando Milei assumiu o cargo.

Em parte, isso se deve ao fato de Milei estar expondo as fábricas protegidas da Argentina à concorrência estrangeira. Isso faz sentido, mas a transição é dolorosa.

“É como se estivéssemos financiando nossa própria autodestruição”, diz Martín Rapallini, chefe da associação industrial argentina, que defende uma reforma fiscal ampla que Milei nem sequer tentou.

O resultado é 230 mil empregos formais a menos no setor privado do que em 2023, uma queda de 3,6%. Ele se gaba de ter cortado 86 mil cargos no setor público.

A taxa de desemprego aumentou apenas dois pontos percentuais porque as inscrições no âmbito de um regime tributário para pequenos empresários de baixa renda aumentaram acentuadamente. O trabalho informal também cresceu. “Também é trabalho”, retruca Milei.

Salários são outra preocupação. No setor privado formal, eles ainda estão abaixo do que eram quando Milei assumiu o cargo. No setor público, eles são dramaticamente menores, fato que o presidente celebra.

Muitos argentinos estão enfrentando dificuldades. Quase 6 milhões de pessoas estão com dívidas atrasadas há mais de 90 dias. Taxas de juros altas e voláteis não ajudam.

Para combater a inflação, o banco central manteve a oferta monetária restrita e interveio para conservar o peso forte. Mas isso prejudica o crescimento porque limita o crédito. Também prejudica a manufatura, tornando as importações rivais mais baratas e as exportações caras.

Milei, concentrado em combater a inflação, simplesmente nega que seus esforços tenham qualquer custo para o crescimento da Argentina.

Esse foco em um único problema pode diminuir os retornos eleitorais. Quando o presidente argentino assumiu o cargo, os eleitores classificaram a inflação como seu principal problema, de longe. Atualmente, ocupa a oitava posição; a falta de empregos e os baixos salários estão no topo da lista.

Os eleitores também estão insatisfeitos com uma série de escândalos de corrupção em seu governo. Sua aprovação se aproxima dos 30%.

Isso parece estar irritando Milei. Ele ficou furioso com jornalistas argentinos por questionarem suas conquistas econômicas e escreverem sobre os supostos casos de corrupção. “Merda humana” é um de seus insultos favoritos para os jornalistas.

Ele pode atacar a imprensa várias vezes ao dia nas redes sociais. Quando questionado sobre economia na pergunta inicial da entrevista a The Economist, sua resposta incluiu ataques à mídia argentina “verdadeiramente vergonhosa” e suas mentiras “arrepiantes”.

Seus aliados temem que essa agressividade esteja afastando os eleitores. “Eu não justifico, eu não faço isso”, diz Patricia Bullrich, uma das principais senadoras de seu partido.

Com dificuldades internas, Milei parece cada vez mais tentado pelos assuntos externos. Desde que assumiu o cargo, visitou os Estados Unidos cerca de 17 vezes e Israel três vezes, mas ainda não visitou 8 das 23 províncias da Argentina.

No entanto, viajar não parece divertido para Milei. No vizinho Brasil, em um comício de campanha para Flávio Bolsonaro (PL), candidato de direita na eleição presidencial, ele se referiu ao atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), como “ladrão” e “condenado”.

O Brasil, maior parceiro comercial da Argentina, retirou seu embaixador em resposta. Milei não se arrepende. “O comunista Lula”, diz, “contaminou todo o continente com o socialismo do século 21”.

Em 3 de setembro, em um pronunciamento televisionado, ele intensificou sua retórica sobre as reivindicações da Argentina às Ilhas Malvinas, no que parece um esforço grosseiro para mobilizar apoio.

Será que preocupações com o emprego e a queda das pesquisas podem provocar mudanças antes das eleições? “Não vou parar de fazer o que é certo só pelo resultado da eleição”, ele responde.

“Se o povo argentino decidir virar as costas para o modelo de liberdade porque eu permaneci fiel às minhas convicções… bem, isso depende do povo argentino.”

As fortes convicções do Milei estão por trás de grande parte de seu sucesso, mas ele não alcançará uma reforma duradoura sem um segundo mandato.

Ele insiste que suas políticas centrais em breve impulsionarão o crescimento e os salários. Ainda assim, seu governo recentemente fez várias pequenas mudanças que parecem particularmente favoráveis ao crescimento: permitir que as taxas de juros caiam um pouco, usar o fundo de pensões dos argentinos para ajudar os bancos a reduzir as taxas de financiamento imobiliário e permitir que os bancos emprestem mais em dólares do que em pesos.

Milei diz que está apenas “liberando restrições”. Seja o nome que isso tenha, se oferecer melhores salários e mais empregos, os eleitores vão gostar mais dele.

A salvação de Milei pode ser seus rivais. O principal provável desafiante é Axel Kicillof, atual governador peronista da província de Buenos Aires.

Ex-ministro das finanças profundamente associado a excessos de gastos passados, sua taxa de aprovação é tão ruim quanto a de Milei. Kicillof insiste que, no momento, não é candidato, mas mesmo assim se esforça para destacar os problemas econômicos.

Ainda assim, sua própria economia pouco ortodoxa aterroriza os mercados e assusta muitos eleitores. Ele não aceita que a principal causa da inflação no passado tenha sido a emissão de dinheiro. Em vez disso, diz que a conjuntura é “muito complexa”.

Os peronistas também estão divididos. Sergio Massa, que perdeu para Milei nas últimas eleições, pode tentar novamente. Juan Grabois, um deputado inflamado, também pode concorrer. Ele promete justiça social financiada por impostos dramaticamente mais altos sobre os ricos. “Você não precisa temer Axel [Kicillof],” ele ri, “você tem que me temer, tem que temer Myriam Bregman.”

Bregman é uma trotskista de alto perfil, à esquerda até mesmo dos peronistas. Surpreendentemente, sua aprovação é muito melhor do que a de Kicillof e Milei.

Com os principais candidatos sendo tão impopulares, outros nomes também estão de olho nas eleições. Hernán Lacunza, um ex-ministro das finanças de centro-direita, oferece uma economia no estilo Milei, mas sem os palavrões do presidente.

Governadores provinciais e pastores pentecostais que aparecem na televisão estão sondando o terreno. Milei ainda é o favorito. Mas, enquanto a economia cambaleia, a situação parece desconfortavelmente apertada.

Texto da The Economist, traduzido por Douglas Gavras e publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com

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