No Rio de Janeiro, Lula cita Trump e volta a dizer que ‘se ele meter a mão’ na eleição brasileira, ‘vai perder’
Por Kellen Barreto, Mariana Laboissière, g1

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta quinta-feira (24) que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vai “perder” se tentar interferir nas eleições brasileiras.
A declaração foi dada durante um comício em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, a dez dias do primeiro turno da eleição.
“Esse país que eu tenho dito para o [Donald] Trump que, nas eleições daqui, se ele meter a mão, vai perder aqui as eleições. A gente não vai aceitar a ingerência de ninguém”, afirmou Lula.
A fala ocorreu enquanto Lula pedia votos e dizia que caberá aos eleitores decidir o futuro do país no próximo dia 4 de outubro.
A declaração retoma um tema abordado por Lula dois dias antes, durante discurso na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York.
Na ocasião, o presidente defendeu a soberania brasileira e afirmou que o país não permitirá interferências externas no processo eleitoral.
“Não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular. A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano”, disse Lula na ONU.
No discurso na ONU, Lula não citou Trump nominalmente ao falar sobre as eleições, mas afirmou que a democracia brasileira “pertence aos brasileiros” e que o país não permitirá que “inimigos da democracia, internos e externos” atentem contra a vontade popular.
Ao longo do pronunciamento, Lula também fez referências à influência dos Estados Unidos na América Latina e afirmou que o Brasil “não cabe no quintal de ninguém”.
O brasileiro discursou antes de Trump na abertura do debate geral da ONU. Os dois não se encontraram nos bastidores durante a troca dos discursos, segundo informou o governo brasileiro.
A preocupação manifestada por Lula com uma eventual interferência americana ocorre em meio a episódios envolvendo o governo Trump e o processo eleitoral brasileiro.
Na semana passada, durante negociações sobre o tarifaço, o governo dos Estados Unidos enviou ao Brasil um rascunho de documento em que exigia que o país permitisse que “dissidentes políticos” concorressem às eleições de 2026.
O texto não citava nomes. Integrantes do Itamaraty afirmaram que o Brasil rejeitou a proposta por considerar que ela continha “absurdos”.
Em maio, Flávio Bolsonaro (PL), adversário de Lula na disputa pela Presidência, foi recebido por Trump na Casa Branca.
Segundo o senador, os dois discutiram temas como segurança pública, tarifas e terras raras. Na ocasião, Flávio afirmou que Trump não havia declarado apoio à sua pré-candidatura.
Dois meses antes, em março, durante um evento conservador no Texas, Flávio havia pedido aos Estados Unidos “pressão diplomática” para que as eleições brasileiras tivessem o que chamou de “valores de origem americana”.
Ele também pediu que os Estados Unidos e o “mundo livre” acompanhassem de perto o processo eleitoral brasileiro.
Discurso reiterado
Lula e Trump também conversaram por telefone no fim de agosto. Na ligação, o americano perguntou sobre as eleições de outubro e Lula respondeu que o processo eleitoral transcorria de maneira confiável.
Segundo interlocutores da diplomacia brasileira ouvidos pelo g1, Trump não questionou as urnas eletrônicas nem o sistema eleitoral brasileiro.
No início de setembro, ao comentar a conversa, Lula afirmou ter dito diretamente a Trump que o Brasil não aceitaria interferência estrangeira no processo eleitoral.
“Se tiver, vai perder. Eu disse para o Trump isso. Seguinte, nós não aceitamos ingerência de ninguém nas eleições. E se entrar, vai perder”, declarou Lula na ocasião.
Dias depois, em 11 de setembro, Lula repetiu a advertência e antecipou que levaria o assunto à ONU.
O presidente disse que não interferia nas eleições americanas e que esperava o mesmo respeito de Trump em relação ao processo eleitoral brasileiro.


