O que é sapiossexual? Entenda por que Vini Jr. levou fora de modelo
O jogador Vini Jr. e a modelo Anna Silva - Fotomontagem/Reprodução
Vini Jr. está encarnando a versão futebolística da péssima série Todas as mulheres do mundo, com affairs mais ou menos famosos pululando aqui e ali. Recentemente ele e a influenciadora Virgínia Fonseca terminaram um lance que, se persistisse, poderia gerar fortunas vultosas na comunhão de bens do ramo das apostas. O motivo do fim foi o caso dele com uma outra moça, bem parecida com Virgínia.
O que mais me chamou a atenção, contudo, foi o papinho dele com uma terceira mulher, uma modelo, não muito diferente das outras duas (o que a genética não une, o ácido hialurônico agrega). Em conversas íntimas vazadas sem nenhum pudor, ela revela que não quis mais saber do jogador porque, além de safado e furão, ele era burro.
“Sou sapiossexual gosto de apreciação intelectual que isso seja mútuo, passei até um pouco do meu limite para agradar você, mais [sic] não rola sabe pois isso está sendo inverso. Sei que não é moleque mais [sic] não o conheço suficiente”, escreveu ela no zap após receber uma desculpa esfarrapada sobre o não comparecimento do atleta.
Sapiossexual é um termo controverso usado para definir uma preferência em que a inteligência é fator essencial para a atração sexual, a troca de conhecimento é um predicado do desejo, a cultura acende o tesão. Se uma pessoa for deslumbrante, bem dotada, famosa, rica, mas não tiver repertório intelectual, não tem lubrificação ou ereção que resista.
Esse assunto me transportou direto para o dia em que fui até São Gonçalo visitar uma Pombagira, entidade da umbanda que cuida de assuntos de paixão, amor, safadeza e outros mais. Pouco depois que cheguei, o espírito incorporou em seu médium.
Seu nome era Rainha do Inferno, mulher de Lúcifer, direta e debochada, como elas costumam ser. Sem que eu precisasse dizer muita coisa sobre mim, ela me olhou de cima para baixo e foi falando: “O seu problema é que você fica querendo dar para intelectual, e intelectual não sabe foder”.
Ela tinha um ponto. Sou seduzida por papinhos como o que há no horizonte de eventos do buraco negro que existe no centro da galáxia, e Pedro Loos do Canal Ciência Todo Dia é meu crush platônico do momento (com todo respeito ao muso).
Aventuras nas ciências humanas com múltiplas interpretações de teorias literárias e palestrinhas sobre Guy Debord também mexem comigo. A intelectualização constante do meu próprio desejo me enfia numa espiral de neurose que me impede de desfrutar.
Talvez, na hora do vamos ver, o melhor seja que não tenha nenhum Bordieu, nenhum Deleuze, nenhum Schrödinger entre a mão do rapaz e a minha bunda. Apenas o tesão puro e bruto. Só que, depois do gozo, faz falta aquela conversinha de travesseiro sobre as ligações entre a fenomenologia e o budismo e quais as teorias mais promissoras para unificar a relatividade geral e a mecânica quântica.
Ainda assim, rejeito o rótulo de sapiossexual porque ele é demasiado vago. Todo mundo se sente atraído por inteligência e papo em algum grau –o que é interessante pra mim pode ser chatíssimo para outra pessoa. Além disso, tem a questão de classe.
Uma pessoa que estudou por mais tempo provavelmente tem mais repertório acadêmico, mas isso não impede que ela seja só uma burra com referências. Por outro lado, quem não conhece grandes autores brancos ocidentais pode, ainda assim, ser dotado de vasta compreensão do mundo. Grau educacional não garante que uma pessoa tenha pensamento crítico, tampouco que seja hábil na arte de amar.
Acima de tudo, meu desconforto principal com esse termo é que é muito fácil se dizer sapiossexual quando quase todo mundo é mais “inteligente” que você. De resto, espero que Vini Jr. e suas ficantes consigam resolver tudo sem ter que citar Lacan, porque isso seria muito chato para todos os envolvidos.
*Bruna Maia é escritora, cartunista e jornalista. Autora dos livros ‘Parece que Piorou’, ‘Com Todo o Meu Rancor’ e ‘Não Quero Ter Filhos’, fala de tudo o que pode e do que não pode no sexo.
