Ocidente, como conhecíamos, não existe mais, diz chefe da UE

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Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, faz discurso sobre o Estado da União no Parlamento Europeu em Estrasburgo, na França. foto: reuters

Em entrevista ao jornal alemão Die Zeit nesta semana, Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, vendeu a Europa como uma espécie de último bastião do mundo livre depois que Donald Trump radicalizou a política e a economia dos Estados Unidos.

“A Europa ainda é um projeto de paz. Não temos bros ou oligarcas ditando as regras. Não invadimos nossos vizinhos e não os punimos. Pelo contrário, há doze países na lista de espera para se tornarem membros da União Europeia.”

O antes chamado Ocidente virou passagem para os livros de história, afirmou. “Ocidente, como conhecíamos, não existe mais. O mundo se tornou um globo, também geopoliticamente, e hoje nossas redes de amizade se estendem por todo o planeta, como se vê no debate sobre tarifas”, disse a médica alemã de 66 anos que virou política profissional e está em seu segundo mandato como chefe do Executivo europeu.

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Von der Leyen empreende uma ofensiva da UE no debate público. Na semana passada, falou ao Financial Times, pouco depois de Trump recuar e adiar por 90 dias a sobretarifa de 20% sobre os produtos do bloco. Declarou que a intenção de Bruxelas era negociar, mas que usaria todo o seu arsenal se fosse obrigada.

A arma mais forte do bloco mira o setor de serviços americano, o único em que os EUA têm superávit. O instrumento anticoerção daria poderes para a UE, por exemplo, afastar bancos americanos de investimentos no continente e taxar empresas de tecnologia, como Amazon, Meta e Google, em atividades lucrativas como publicidade digital.

Nesta semana, o aceno é político. “Na Europa, as crianças podem frequentar boas escolas independentemente da riqueza de seus pais. Temos menos emissões de CO2 e maior expectativa de vida. Discussões polêmicas são permitidas em nossas universidades. Tudo isso e muito mais são valores que devem ser defendidos e que mostram que a Europa é mais do que uma união. A Europa é a nossa casa. E as pessoas sentem isso.”

Indagada se a democracia americana estava em perigo, Von der Leyen preferiu listar a experiência europeia. Lembrou que parte da UE é formada por jovens democracias e que países como Portugal, Espanha e Grécia se livraram de ditaduras nos anos 1970.

“Para nós, europeus, a consciência e a memória da opressão e da repressão ainda são muito recentes. Nossa consciência coletiva tem um senso muito mais forte de como a democracia é preciosa e de como temos de nos esforçar constantemente para protegê-la.”

Ao comentar sobre o ambiente polarizado da política do continente, que de certa forma contradiz esse senso apurado de proteção do Estado de direito, a chefe da UE empurrou a conta para Vladimir Putin. “Há uma coisa que não devemos subestimar: a polarização é, em parte, fortemente orquestrada de fora. Por meio das mídias sociais, a Rússia e outros Estados autocráticos estão interferindo deliberadamente em nossa sociedade. Não se trata de uma questão de lados. As opiniões de ambos os lados estão sendo amplificadas porque o objetivo real é polarizar e dividir nossas sociedades abertas”, declarou.

Von der Leyen afirmou não ver limites para “as ambições imperiais” de Putin, ainda que veja a invasão da Ucrânia como um projeto até aqui fracassado do presidente russo. “Seu objetivo era tomar Kiev em três dias e o país em três semanas. Ele falhou.” Comentou ainda que a Otan, que Moscou queria enfraquecer, ganhou as adesões estratégicas de Suécia e Finlândia. A chefe da UE evitou, no entanto, especular sobre as ameaças americanas à aliança militar, que variam em gravidade, como boa parte do discurso de Trump.

“Sou uma atlantista convicta. Acredito firmemente que a amizade entre americanos e europeus permanece. Mas a nova realidade também inclui o fato de que muitos outros países estão tentando se aproximar de nós: 13% do comércio global é feito com os EUA, e isso é muito; 87% do comércio mundial é feito entre outros países. Todos querem previsibilidade e regras confiáveis. A Europa pode oferecer isso.”

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