PIB do Brasil desacelera e cresce 0,5% no segundo trimestre; consumo recua sob juros altos

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por Folhapress

Imagem mostra prateleira com caixas de controles de videogame e placas amarelas com preços. Uma pessoa passa em frente à loja.
Loja vende produtos eletrônicos na região da 25 de Março, em São Paulo – Rafaela Araújo – 16.jul.25/Folhapress

O PIB (Produto Interno Bruto) desacelerou no Brasil no segundo trimestre, com avanço de 0,5% na comparação com os três meses imediatamente anteriores, apontam dados divulgados nesta terça-feira (1º) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

A perda de ritmo era aguardada por analistas devido principalmente ao aperto dos juros elevados. O resultado ocorre após alta de 1,1% no primeiro trimestre.

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Motor do PIB, o consumo das famílias veio pior do que o esperado e puxou o indicador para baixo. Isso reforça a expectativa de que a economia continue a desacelerar.

O consumo, que mede as despesas com a compra de bens e serviços para uso próprio, recuou 0,4% no segundo trimestre. É o menor desempenho desde os três últimos meses de 2024 (-0,6%).

As altas da agropecuária (2,8%) e da indústria extrativa (3,4%), por outro lado, ajudaram a impedir uma desaceleração ainda maior do PIB.

Os dois segmentos são menos afetados pelos juros, diz a economista Juliana Trece, do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas).

“As famílias estão muito endividadas, e os juros elevados acabam sendo uma barreira para o crédito. Tudo isso mexe na dinâmica. Mas a economia seguiu crescendo, muito sustentada pelas atividades não tão relacionadas aos juros”, afirma.

Apesar de o resultado do PIB ter ficado ligeiramente acima das projeções do mercado financeiro, muitos economistas já falam em um viés de baixa para o acumulado do ano. A mediana das estimativas era de 0,4% para o período de abril a junho, conforme a agência Bloomberg.

“A retração do consumo das famílias é particularmente relevante nesse diagnóstico, uma vez que ocorre mesmo diante de uma taxa de desemprego em níveis historicamente baixos, sugerindo que os efeitos da política monetária contracionista [juros altos], do elevado comprometimento de renda e das condições ainda restritivas de crédito começam a se sobrepor”, disse o economista Yihao Lin, da Genial Investimentos.

A alta de 0,5% foi a menor para o PIB desde o quarto trimestre do ano passado (0,2%).

AGROPECUÁRIA E EXTRATIVA IMPEDEM FREADA MAIS FORTE

Pelo lado dos setores, os dados do IBGE mostram que os serviços (0,2%) e a indústria (0,1%) ficaram praticamente estagnados de abril a junho.

A agropecuária, por sua vez, acelerou ao registrar o crescimento de 2,8%. O país vive ano com projeções de recorde na safra de grãos. A pecuária também gerou contribuição positiva.

O economista-chefe do banco BV, Roberto Padovani, afirma que os dados mostram uma economia que ainda cresce devido à renda agropecuária e extrativa, mas a expectativa é de que os efeitos do agro diminuam. Ele projeta expansão de 0,2% no próximo trimestre e de 1,9% no ano para o PIB.

Analistas também chamam a atenção para a ameaça do El Niño. O evento climático altera a distribuição das chuvas, o que pode prejudicar a agropecuária a partir do final do ano.

“Tem esses riscos atrelados à atividade que está sendo motor do nosso crescimento”, diz Juliana Trece, do FGV Ibre, em referência ao agro.

Ela avalia que o contexto do segundo semestre é ainda mais desafiador que o do primeiro.

A economista não prevê taxas negativas para o PIB até o final de 2026, mas vê um cenário com variações ainda mais próximas de zero nos trimestres. O acumulado do ano tende a ficar abaixo de 2%, diz Juliana.

A indústria vinha de avanço de 1,2% nos três meses iniciais de 2026 e perdeu ritmo no segundo trimestre sob impacto das quedas da transformação (-0,4%) e da construção (-0,4%) —atividades sensíveis ao crédito.

O ramo industrial de eletricidade e gás, água, esgoto e gestão de resíduos também mostrou desempenho negativo (-1,1%).

O segmento extrativo, por outro lado, puxou a indústria para cima, com a alta de 3,4%. Petróleo e gás fazem parte dessa categoria.

Em nota, a Fiesp (Federação das Indústrias de São Paulo) afirma que a indústria de transformação segue limitada pela taxa Selic elevada e pelo custo do crédito livre. O indicador antecedente da entidade aponta para continuidade do arrefecimento da atividade industrial no segundo semestre.

Levantamento da Fiesp mostra que a renda, descontada a parte da dívida das famílias, perdeu fôlego desde meados de 2024. Isso limitaria a conversão do rendimento em consumo, mesmo com o mercado de trabalho ainda aquecido.

INVESTIMENTOS DESACELERAM

Os investimentos produtivos seguiram no terreno positivo, com alta de 1,2% no segundo trimestre. O resultado, contudo, sinaliza perda de ritmo depois do crescimento verificado no início de 2026 (3,4%).

Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos, afirma que o cenário mostra uma moderação mais intensa do que a esperada no consumo das famílias, enquanto o investimento veio um pouco acima das estimativas de mercado.

Para a economista Claudia Moreno, do C6 Bank, os números confirmam que o PIB está perdendo força de forma gradual. “Os juros elevados têm contribuído para essa desaceleração, enquanto, do outro lado, o mercado de trabalho aquecido e as medidas do governo para estimular o crédito ajudam a sustentar a economia.”

DIVULGAÇÃO É A ÚLTIMA ANTES DAS ELEIÇÕES

A divulgação desta terça é a última do PIB antes das eleições de outubro. O IBGE publicará o resultado do terceiro trimestre em 2 de dezembro.

Os juros altos travam o crescimento ao dificultar o consumo e os investimentos produtivos. O BC (Banco Central) iniciou um ciclo de cortes na Selic em março, mas a taxa básica segue em dois dígitos (14% ao ano).

Essa política busca conter a inflação ao esfriar a demanda que pressiona os preços de parte dos bens e serviços. O efeito colateral esperado é a desaceleração do PIB.

O indicador ainda abrange o consumo do governo, que subiu 0,4% de abril a junho, e o setor externo. As exportações caíram ante os três primeiros meses do ano (-0,8%), enquanto as importações aumentaram 1,8%.

PROJEÇÕES PARA 2026

O mercado financeiro espera alta de 1,92% para o PIB de 2026, conforme a mediana das projeções do boletim Focus, do BC.

Caso a estimativa se confirme, este ano será o primeiro com taxa abaixo de 2% desde 2020. À época, a economia amargou queda de 3,3% sob efeito da pandemia.

O PIB teve alta de 2,3% em 2025. É a mesma taxa prevista pelo Ministério da Fazenda para o indicador em 2026. O FMI (Fundo Monetário Internacional), por sua vez, projeta expansão de 2,4% para este ano.

A economia pode encerrar o terceiro mandato do presidente Lula (PT) com crescimento de 2,7% ou 2,8% em média ao ano. O cálculo considera os dados do PIB divulgados pelo IBGE de 2023 a 2025 e as previsões do mercado, do Ministério da Fazenda e do FMI para 2026.

Caso o cenário se confirme, a economia terá o maior avanço em um mandato presidencial de quatro anos desde o segundo governo Lula (2007 a 2010). À época, o PIB mostrou alta de quase 4,7% em média ao ano.

O desempenho positivo do indicador tem sido comemorado por apoiadores do presidente às vésperas das eleições, assim como a recuperação do mercado de trabalho.

Economistas, porém, alertam para o alto nível de endividamento das famílias e o quadro das contas públicas.

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