Quem é o miliciano que negociou emenda com assessora de Flávio Bolsonaro

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por Henrique Rodrigues, Revista Fórum

Flávio Bolsonaro Peixão miliciano
O senador Flávio Bolsonaro e o miliciano “Peixão” – Foto: Marina Uezima / Brazil Photo Press via AFP e Audiência Judicial/Reprodução

A revelação de que o gabinete do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) negociou o direcionamento de verbas públicas articuladas por um operador da milícia fluminense colocou no centro dos holofotes nacionais a figura de Robson Calixto Fonseca, o “Peixe”. O escândalo emergiu com os desdobramentos da Operação Emendatio da Polícia Federal, que interceptou mensagens trocadas em 2023 no celular do miliciano. A apuração detalhou que Peixe manteve diálogo direto com Maria de Fátima Bezerra Castro, assessora parlamentar do senador, usando de sua proximidade para negociar o envio de verbas federais a áreas sob controle de seu grupo armado.

A articulação resultou no envio de uma emenda parlamentar assinada por Flávio Bolsonaro no valor exato de R$ 199.999,79 para o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop), localizado na Taquara, Zona Oeste do Rio. Sob o pretexto oficial de financiar o projeto de futebol infantil “Jogadores do Futuro”, uma auditoria técnica do Tribunal de Contas da União (TCU) e da PF descobriu que o dinheiro foi integralmente desviado. O montante acabou repassado para um escritório de advocacia pertencente aos próprios donos da entidade por meio de contratos de fachada e simulação de concorrência. Como contrapartida pela facilitação do recurso, mensagens interceptadas mostraram a assessora de Flávio cobrando de Peixe quatro ingressos de camarote no Sambódromo durante o Carnaval carioca, configurando forte suspeita de vantagem indevida.

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Para compreender como um operador do crime organizado obteve livre trânsito e capacidade de barganha junto ao gabinete de um senador da República, é preciso examinar a trajetória de Robson Calixto Fonseca no ecossistema do crime de “colarinho branco” do Rio de Janeiro.

Do crime organizado ao gabinete de Flávio Bolsonaro

Ex-policial militar, miliciano e operador político-financeiro, Peixe foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal no início de 2026 a uma pena de 9 anos de prisão em regime fechado. A Procuradoria-Geral da República (PGR) e a Polícia Federal o classificaram como o braço operacional e o principal elo político da organização criminosa armada chefiada pelos irmãos Domingos e Chiquinho Brazão. Sua marca registrada sempre foi a capacidade de circular com extrema facilidade entre as forças de segurança, as estruturas formais do Estado e as lideranças paramilitares da Zona Oeste.

Foi nas comunidades de Rio das Pedras e da Taquara, consideradas o berço do milicianismo fluminense, que Peixe consolidou seu poder. Longe de ser um mero homem de frente focado no confronto armado, ele exercia funções estratégicas de logística, finanças e articulação. Relatórios de investigação e delações premiadas, como a do ex-PM Ronnie Lessa, revelam que Peixe comandava o mercado imobiliário clandestino em Jacarepaguá, chefiando esquemas de grilagem de terras, loteamentos irregulares e construções ilegais cujos lucros irrigavam a estrutura da milícia, além de gerenciar redes de extorsão contra comerciantes e agiotagem. No plano bélico, Lessa o apontou como o intermediário original na busca por armamentos pesados, incluindo a submetralhadora HK MP5 utilizada nos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em 2018.

Para garantir trânsito livre nos bastidores do poder e revestir suas atividades criminosas com uma fachada de legalidade, Calixto acumulava cargos públicos. Enquanto mantinha o status de policial militar, atuou por anos como assessor de extrema confiança de Domingos Brazão no Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ). Era desse gabinete oficial que ele articulava as demandas da milícia e estabelecia pontes com diversos agentes políticos. Mesmo após o assassinato de Marielle Franco e o cerco policial contra os Brazão, Peixe permaneceu ativo no “crime institucionalizado”, especializando-se na captação de recursos públicos para alimentar os currais eleitorais do grupo.

Atualmente, enquanto Calixto cumpre sua pena em regime fechado pela condenação no caso Marielle Franco, as novas descobertas sobre o desvio da emenda geraram desdobramentos jurídicos e políticos de grande impacto em Brasília. Partidos de oposição acionaram a PGR para apurar o nível de conhecimento e envolvimento direto do senador Flávio Bolsonaro sobre as tratativas de sua assessora com o miliciano. Por sua vez, a defesa do parlamentar sustenta que a indicação da emenda seguiu critérios estritamente técnicos e que a fiscalização da aplicação do dinheiro competia aos órgãos de controle e ao Ministério do Esporte.

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