“Não há uma análise séria, feita por gente qualificada, para essa redução, pois antes é necessário ter alguma substituição (da desoneração) para não ter uma crise fiscal mais adiante”, afirma Fabio Silveira, sócio da consultoria MacroSector, para quem o ministro Guedes “está jogando para a torcida”. Mesmo que o corte seja efetivado, ele acredita que não vai se sustentar até o início de 2023.

Reforma tributária

Já os segmentos que serão beneficiados veem a medida como um passo em direção à reforma tributária, que segue travada e só voltará a ser avaliada pelo Senado em 16 de março. “Guedes não pode mexer em todos os impostos, então vai trabalhar naquele que o governo pode mudar sozinho, por meio de decreto”, diz José Velloso, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq).

Defensor da reforma tributária e da criação de um imposto único (IVA), Velloso admite, porém, que só o IPI menor não vai ajudar a atrair investimentos e a reindustrializar o Brasil, mas sim a melhoria do ambiente econômico, da competitividade e do custo Brasil.

O gerente executivo de Economia da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Mário Sérgio Carraro Telles, diz que a expectativa da entidade era de desoneração de 50%, mas avalia que o corte proposto vai contribuir no controle da inflação, na medida em que for repassado ao preço final dos produtos.

Outro que esperava um corte maior, também de 50%, é o presidente executivo do Instituto Aço Brasil e coordenador da Coalização Indústria, Marco Polo de Mello Lopes. “Mas a medida “é um ponto de partida, ainda que em porcentual abaixo do desejado”. A Coalização reúne 14 entidades de classe que representam 12 segmentos produtivos da indústria de transformação e da construção civil com peso de 42% no Produto Interno Bruto (PIB).

Paralisação das vendas

Um dos receios do presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), Humberto Barbato, é que a medida demore a ser implementada, o que pode gerar uma paralisação momentânea das vendas, pois o consumidor vai ficar esperando o corte no imposto que será transferido ao produto final, barateando seu preço. “Por isso esperamos que saia o mais rapidamente possível”.

Barbato diz que “qualquer redução de carga é bem vinda”, mas acredita que um impacto significativo no setor produtivo só vai ocorrer com uma política industrial que acabe “com o manicômio tributário que afasta investidores”.

Em nota, o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Carlos de Moraes, afirma que “qualquer proposta que alivie a pesada carga tributária para a indústria de transformação é muito bem-vinda”.

E ressalta que, no mundo ideal, nem deveria haver IPI, mas que uma redução relevante desse imposto já sinaliza uma direção correta por parte do governo federal. O setor automotivo foi um dos que mais se beneficiou, no passado, de cortes temporários no IPI dos automóveis. / COLABORARAM LORENNA RODRIGUES, CÉLIA FROUFE E EDUARDO RODRIGUES