Suposta vidente envolvida em golpe com obras de arte é solta

Uma das obras levadas foi Sol Poente, de Tarsila do Amaral. Foto: Reprodução/Polícia Civil do RJ

Por Paulo Moura

A Justiça do Rio de Janeiro determinou que Jacqueline Stanesco, uma das falsas videntes presas por suspeita de aplicar um golpe na viúva de um dos maiores colecionadores de arte do país, seja colocada em prisão domiciliar. A mulher, que havia sido presa no dia 10 de agosto, deixou o Instituto Santo Expedito, em Bangu, na Zona Oeste do Rio, na manhã da quarta-feira (12).

A decisão de soltar Jacqueline foi tomada pela juíza Catarina Cinelli Vocos Camargo, da 23ª Vara Criminal, que acolheu um pedido da defesa. De acordo com os representantes de Jacqueline, ela estava com problemas de saúde na cadeia e precisava de cuidados.

– Tais preocupações foram corroboradas, ao menos em parte, pelo relatório, o qual aponta a hipótese diagnóstica de ansiedade generalizada, tendo havido, inclusive, a necessidade de ser medicada com “diazepan 5 mg”. Ainda, houve encaminhamento da ré para grupo de diabetes, psicologia e psiquiatria. Assim, restou evidenciada a presença de comorbidade física (diabetes) e a necessidade de cuidados especiais na área de saúde mental – declarou a juíza.

A magistrada determinou ainda que Jacqueline seja proibida de se aproximar da vítima dos golpes, Geneviève Boghici, de 82 anos. Além disso, Stanesco não poderá deixar sua residência sem a autorização judicial e deverá entregar seu passaporte em até 24 horas.

De acordo com a Polícia Civil, Jacqueline Stanesco e outras seis pessoas de uma mesma família são suspeitas de praticar os crimes de associação criminosa, estelionato, extorsão, roubo e cárcere privado contra a idosa. Ao todo, quatro pessoas foram detidas e duas seguem foragidas – o sétimo envolvido morreu.

A prima de Jacqueline, Rosa Stanesco Nicolau, que se passava por vidente, o filho Gabriel Nicolau e Sabine Boghici, filha da idosa vítima do golpe, tiveram a prisão mantida. No entendimento da Justiça, a medida era necessária para a continuidade da investigação.

RELEMBRE O CASO
A francesa Geneviève Boghici é viúva do marchand Jean Boghici, que morreu em 2015. De acordo com as investigações, o golpe contra ela teria começado em janeiro de 2020, quando a idosa foi abordada por uma suposta cartomante que se apresentou como Diana.

Na ocasião, a mulher teria dito que a filha de Geneviève, Sabine Boghici, estava doente e morreria dentro de pouco tempo. Aproveitando-se das crenças da senhora, a mulher a convenceu a investir em tratamentos espirituais para salvar Sabine. Oito pagamentos foram feitos entre 22 de janeiro até 5 de fevereiro, somando R$ 5 milhões.

Durante esse período, Sabine isolou Geneviève de pessoas próximas e demitiu os funcionários. Desconfiada da filha, a francesa decidiu suspender os pagamentos. A partir de então, Sabine passou a ameaçar a mãe de morte e a agredi-la. Ao longo do isolamento causado pela pandemia da Covid-19, os abusos ficaram mais recorrentes, e Geneviève foi proibida até mesmo de usar o telefone.

Nesse tempo, a filha da francesa recebia visitas de outra suposta vidente envolvida no golpe, Rosa Stanesco Nicolau, também conhecida como Mãe Valéria de Oxossi. Por diversas vezes, Sabine ameaçava a mãe com facas, e Rosa mandava matá-la caso não fossem realizadas transferências bancárias.

Ao todo, foram realizados 39 pagamentos à quadrilha liderada por Sabine, além dos bens que foram levados da casa da francesa, sob a alegação de que eles estavam amaldiçoados e precisavam ser benzidos. Entre as peças furtadas estavam 16 obras de arte milionárias, de autoria de Tarsila do Amaral, Cícero Dias, Antônio Dias, Michel Macreau, entre outros artistas. No total, Geneviève sofreu um prejuízo estimado em R$ 725 milhões entre pagamentos sob extorsão e quadros roubados.

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