Governo Lula teme bolsonarismo energizado com fortalecimento de campanha de Trump após debate

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Donald Trump em fevereiro de 2024 — Foto: Sam Wolfe/Reuters

O fortalecimento da candidatura de Donald Trump após o debate presidencial americano, na quinta-feira (27), aumentou a preocupação no Palácio do Planalto com as consequências para o presidente Lula (PT) de uma possível volta do republicano à Casa Branca.

A principal avaliação entre auxiliares do petista é que o eventual retorno de Trump significaria um empoderamento da extrema direita no Brasil e do bolsonarismo, com risco de impacto até mesmo sobre o STF (Supremo Tribunal Federal).

Na noite de quinta, Joe Biden e Trump se enfrentaram no primeiro debate das eleições presidenciais dos Estados Unidos, nos estúdios da emissora CNN, em Atlanta.

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Em um embate tenso, Trump encurralou Biden de maneira enérgica em temas-chave para o eleitorado americano, como imigração, guerras nas quais os EUA se envolveram nos últimos anos, a gestão da pandemia da Covid-19 e o aborto. O desempenho ruim do democrata aumentou a pressão para que ele desista de concorrer.

Embora destaquem que ainda faltam meses para a eleição e que o próprio Trump tem desafios políticos e até judiciais em sua campanha, membros do governo opinam que Biden demonstrou fragilidade no debate.

O debate aconteceu no mesmo dia em que Lula criticou Trump, lembrou o ataque ao Capitólio e disse que pessoas assim não são boa para a politica. Ele também disse que Biden é a “certeza de que os Estados Unidos vão continuar respeitando a democracia” e que, por isso, torce pelo democrata.

“O Biden é a certeza de que os EUA vão continuar respeitando a democracia. O Trump já deu aquela demonstração quando ele invadiu o Capitólio. Fez lá o que se tentou fazer aqui no Brasil no 8 de janeiro. Como democrata, estou torcendo para que o Biden saia vitorioso. Tenho uma relação sólida com ele e pretendo manter”, afirmou Lula, em entrevista à rádio Itatiaia.

Assessores no Palácio do Planalto minimizaram o impacto das declarações de Lula em apoio a Biden. Eles disseram que a fala se justifica pelo caráter de risco à democracia que Trump representa.

Disseram ainda que a relação com os EUA no caso de vitória trumpista não seria mais problemática do que é hoje, independentemente das declarações, por causa da proximidade de Trump com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e o bolsonarismo.

Por outro lado, manifestaram preocupação de que o fortalecimento de Trump crie uma nova onda em favor da extrema direita nos EUA e em todo o mundo. No Brasil, significaria combustível novo para o bolsonarismo, movimento que, na visão do Planalto, se enfraqueceu com as investigações sobre o 8 de janeiro de 2023 e a inelegibilidade de Bolsonaro decidida pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Assessores de Lula ouvidos pelo jornal Folha de SP traçaram dois cenários para um hipotético relacionamento entre Lula e Trump a partir do ano que vem. No otimista, temas econômicos ganhariam precedência sobre a disputa ideológica e o governo petista conseguiria margem para conduzir a agenda bilateral com pragmatismo.

Mas há razões para uma previsão mais pessimista: os vínculos políticos do trumpismo com Bolsonaro e seus aliados.

Políticos americanos partidários de Trump denunciaram recentemente o que consideram perseguição e censura do STF contra bolsonaristas.

Além disso, o bilionário Elon Musk, apoiador de Trump e dono da rede social X (ex-Twitter), fez ataques nas redes sociais ao ministro do STF Alexandre de Moraes e o acusou de ter atuado para beneficiar Lula.

Esses episódios levaram assessores de Lula a temer que Trump e seus aliados, caso cheguem ao poder, adotem uma postura de hostilizar abertamente o governo brasileiro e o Supremo. Como principal economia do mundo, não faltariam instrumentos para isso.

Segundo um auxiliar de Lula, uma Casa Branca trumpista não seria o único foco de tensão para Lula no continente. Javier Milei, o ultraliberal presidente da Argentina, poderia se sentir mais empoderado para adotar uma estratégia mais ideológica na relação com o Brasil.

As dificuldades de Biden no debate da CNN têm sido exploradas por bolsonaristas nas redes. O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente e articulador internacional do bolsonarismo, publicou em rede social vídeo do debate para dizer que Biden travou. Republicou ainda mensagem que ironiza a idade do democrata.

De acordo com pessoas que acompanham o tema no governo brasileiro, no momento é preciso aguardar para entender quais serão os próximos passos dos democratas nos EUA. O governo vai analisar primeiro se Joe Biden permanecerá candidato ou se cederá à pressão para ser substituído por alguém mais jovem.

Um assessor do Lula citou um tuíte da sexta-feira (28) do ex-presidente Barack Obama, no qual ele afirmou que “noites ruins de debate acontecem” e defendeu Joe Biden na disputa contra Trump. “Essa eleição é ainda uma escolha entre alguém que lutou por pessoas comuns a sua vida inteira e alguém que se importa apenas consigo mesmo”, escreveu.

O atual presidente americano, de 81 anos, chegou ao debate tendo sua capacidade de governar questionada por causa da sua idade avançada. Na avaliação de analistas, e de conselheiros de Lula que seguiram o debate, ele piorou essa percepção. Trump tem 78 anos.

 

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