‘Há boa probabilidade que Trump não aceite a vitória de Lula’, diz professor da Universidade de Harvard
por ICL Notícias

O risco de Donald Trump não reconhecer uma eventual vitória de Luiz Inácio Lula da Silva é real e existe uma “boa probabilidade” de que ele faça isso. Quem faz o alerta é Steve Levitsky, autor do best-seller “Como morrem as democracias” e uma das maiores autoridades no estudo do movimento autoritário recente no mundo.
Em entrevista exclusiva ao ICL Notícias, o professor da Universidade de Harvard apontou que eleger o movimento bolsonarista seria “muito arriscado” para a democracia brasileira.
Lula está nos EUA e se reuniu nesta segunda-feira (21) com o senador democrata Bernie Sanders. Ele ainda irá abrir a Assembleia Geral da ONU nesta terça-feira com uma defesa do sistema eleitoral brasileiro e irá denunciar a ingerência externa.
Para Levitsky, porém, o governo Trump deve intensificar essa ingerência no país nas próximas semanas e recomenda que atores político brasileiros chancelem o resultado do processo eleitoral para evitar uma crise institucional.
Eis os principais trechos da conversa:
Chade: o que representa a eleição no Brasil para o debate mais amplo sobre os ataques sofridos pela democracia no mundo?
Levistky: Sempre sou hesitante em fazer uma avaliação do impacto de uma eleição isolada para a democracia no mundo. O Brasil é uma democracia bem robusta e um país complicado, desigual e difícil de ser governado. Estamos num momento em que, por muitas razões, a democracia está vulnerável a desafiantes do “anti-sistema” que, ao contrário de anos 30, 60 ou 70, não estão necessariamente se desfazendo das instituições eleitorais. Eles participam do processo eleitoral, mas são contra o sistema e colocam diferentes graus de ameaça à democracia.
Não acho que Javier Milei vai matar a democracia argentina. Já Bukele matou a democracia em El Salvador. Ou seja, não sabemos exatamente o que vai ocorrer. Trump, em seu primeiro mandato, não fez tanto dano para a democracia. Trump, agora, tem causado mais dano. Eleger esses outsiders não automaticamente mata a democracia. Mas é sempre um risco.
Os americanos estão aprendendo agora que precisa ser levado à sério quando personagens autoritários tentam minar a democracia. O fato de eles fracassam em matar a democracia não significa que não sejam uma ameaça.
Os brasileiros devem aprender do fato de que os bolsonaristas tentaram dar organizar um golpe de estado (em 8 de janeiro de 2023). Elege-los de novo seria muito arriscado.
Mas também estamos num momento em que os atuais governantes são muito impopulares. No mundo todo. Em todos os lugares, salvo no México, eles perdem a eleição. Vimos nos EUA em 2024. Os americanos não votaram por Trump por serem autoritários. Votaram por estarem muito insatisfeitos com o status quo, que Joe Biden e Kamala Harris representavam. E Lula tem de lidar com isso.
Chade: Como o sr. vê a situação política latino-americana?
Levitsky: Tem sido dez anos muito difíceis, marcados por crescimento econômico baixo, escândalos de corrupção em quase todas as grandes democracias da região, covid-19, problemas sérios de violência e crime. Tudo isso levou a esse descontentamento e o tema da violência tem beneficiado a extrema direita. É um momento difícil. Mas não é o fim da democracia, principalmente no Brasil onde as forças democráticas continuam sendo muito fortes. Mas é um desafio e a democracia estará prejudicada se personagens abertamente autoritários, como os bolsonaristas, chegarem ao poder.
Vemos como Trump tem adotado políticas agressivas na América Latina, com acordos militares com Colômbia, Equador e outros países. Isso vai mudar o mapa político da região de uma forma duradoura?
É difícil dizer. A política externa de Trump é errática. Trump apenas está interessado no curto prazo. Portanto, é difícil prever quanto disso vai vingar para além de seu governo. Uma das maiores características hoje da política externa americana é sua instabilidade.
Não acho que Trump vai durar muito tempo no poder. Há uma chance real de que ele seja enfraquecido depois da eleição legislativa de 2026 e pode estar fora do governo em 2028. Portanto, é difícil ver o futuro.
Por enquanto, o que vemos é um governo agindo um pouco como o velho estilo imperialista. Eles apresentam essa relação na região como uma “cooperação”. Mas o que os EUA fazem de forma crua é exercer seu poder para impor sua vontade. E tem a sorte de ter governos na região que são tão fracos que estão dispostos a cooperar, ou de extrema direita que compartilham a ideologia.
Chade: E o Brasil?
Levistky: O Brasil é diferente. O Brasil é muito maior. O Brasil é muito mais poderoso que o Equador ou Peru. A política externa brasileira, mesmo quando os bolsonaristas estiveram no poder, tem uma estrutura profissional que não vai erodir da noite para o dia. Não acho que o Brasil vai se comportar como a Colômbia ou Peru, mas Trump terá um aliado muito mais cooperativo com Flávio Bolsonaro.
Chade: O senhor acredita que haverá uma intensificação da ingerência de Trump na eleição brasileira?
Levitsky: Sim. Haverá um esforço. A questão é que muitas vezes exageramos a eficiência de uma ingerência externa. Essas ações por Rússia ou EUA com muita frequência fracassam. É muito difícil afetar o padrão de voto de uma população no voto. Com Evo Morales, a ação dos EUA foi um tiro no pé. Na Hungria, o governo americano adotou uma postura explícita na defesa de Orban e não funcionou. Não está claro quanto impacto os EUA pode ter. No Canadá, houve um efeito bumerangue quando Trump passou a atacar o país. Lula mesmo se beneficiou quando as tarifas foram impostas.
Dito isso, os EUA já tentaram influenciar a eleição no Brasil e vão tentar mais. Só não sei o quanto será o impacto disso tudo. No final, serão os brasileiros que irão votar.
Chade: Existe o risco de que Trump não reconheça uma eventual vitória de Lula?
Levitsky: É uma risco. Não sei quais serão as consequências. Se Lula vencer, há uma boa probabilidade de que Trump não aceite sua vitória. Frequentemente, ele se recusa a aceitar derrotas eleitorais. Ele fez consigo mesmo, com seus aliados. Quando seus amigos perdem, Trump rotineiramente chama a eleição de fraudulenta. Essa é uma das características de uma personalidade autoritária. Ele não aceita derrota.
Trump tem muitos problemas hoje. Sua própria eleição, Irã. Talvez ele não dê tanta atenção no Brasil ou invista tanto. Mas acredito que há boa probabilidade que não aceite.
O Brasil tem duas vantagens nesse aspecto. O Brasil tem um longo histórico de eleições limpas e, portanto, não é plausível argumentar que há uma fraude no Brasil. O outro aspecto é que o resultado sai rápido. Nos EUA, a demora torna mais fácil dizer que tem algo errado.
É importante o reconhecimento do resultado por outras democracias, mas o mais importante é que atores no Brasil reconheçam o pleito rapidamente. Governadores estaduais, lideres de partidos. Mas se os atores de extrema direita falarem em fraude, o que seria muito irresponsável, isso pode criar problemas.


