Nikolas e Flávio aparecem em mapa de contas que disseminam desinformação para cristãos
Por Gabriel Gomes, no ICL Notícias

Um levantamento sobre a circulação de desinformação em ambientes digitais religiosos identificou 141 contas no Instagram que, segundo os critérios adotados pelos pesquisadores, integram um ecossistema de produção ou disseminação de conteúdos desinformativos voltados principalmente ao público cristão. Entre os perfis citados estão políticos como Nikolas Ferreira (PL-MG), Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Eduardo Bolsonaro, além dos pastores André Valadão e Silas Malafaia.
O estudo, intitulado “Mapa da desinformação em ambientes digitais religiosos”, é desenvolvido pelo Bereia em parceria com o Laboratório de Internet e Ciência de Dados da Universidade Federal do Espírito Santo (Labic/Ufes), com colaboração da pesquisadora e jornalista Lidia Neves.
As contas identificadas somam cerca de 140 milhões de seguidores brutos. O material técnico do levantamento estima entre 70 milhões e 80 milhões de pessoas de alcance único, após considerar a sobreposição de públicos, e relaciona esse universo a cerca de 40% da população conectada. A Bereia também trabalha com uma estimativa conservadora de aproximadamente 60 milhões de pessoas expostas.
O mapeamento divide os perfis em grupos como políticos e mandatários, lideranças religiosas, portais e mídias digitais e influenciadores de nicho. Em uma apresentação dos resultados, Nikolas Ferreira aparece com 22 milhões de seguidores, Flávio Bolsonaro com 12 milhões e Eduardo Bolsonaro com 7,4 milhões. André Valadão aparece com 6,6 milhões, enquanto a Brasil Paralelo soma 5,1 milhões.

Segundo os pesquisadores, a presença de um perfil no levantamento não significa que todo o conteúdo publicado por aquela conta seja falso ou enganoso. O objetivo é identificar fontes nas quais houve produção ou disseminação de desinformação conforme os critérios e procedimentos da pesquisa e acompanhar como essas narrativas circulam e se conectam.
Entre os principais eixos utilizados para rastrear as publicações estão pânico moral e perseguição religiosa; gênero e família; instrumentalização política e eleitoral da fé; sionismo cristão e geopolítica bíblica; antivacina e negacionismo; e Bíblia e Apocalipse. O documento cita, por exemplo, conteúdos sobre supostas ameaças à liberdade religiosa, “ideologia de gênero”, comunismo, profecias relacionadas a Israel, curas milagrosas e versículos bíblicos apresentados fora do contexto.

A metodologia partiu de 96 perfis e materiais sistematizados pelo Bereia, que foram cruzados com bases acadêmicas e conteúdos de redes sociais. Em uma das etapas, aproximadamente 20 mil publicações do Instagram foram filtradas a partir de palavras-chave. O levantamento também empregou conferência manual para reduzir falsos positivos.
Para Lidia Neves, os resultados indicam que a existência de um volume relevante de desinformação direcionada a cristãos, sobretudo evangélicos, não permite atribuir esse comportamento ao conjunto desse público. O próprio estudo afirma que foi mais fácil localizar conteúdos destinados a evangélicos em bases sobre desinformação e teorias da conspiração do que em conjuntos de dados dedicados exclusivamente à religião.
O mapa continuará sendo atualizado. Entre os próximos passos estão análises de redes de atores e palavras, cruzamentos com outras pesquisas e o uso das contas já identificadas como ponto de partida para acompanhar novas narrativas e formas de circulação de desinformação no Instagram.


