Morre Jomard Muniz de Britto, professor perseguido pela ditadura e referência cultural na Paraíba
por TH+ SBT

O filósofo, cineasta, poeta e professor Jomard Muniz de Britto morreu aos 89 anos, na madrugada da segunda-feira (12), no Recife. Além de uma trajetória de destaque no cinema experimental e no movimento tropicalista do Nordeste, Jomard manteve uma ligação de décadas com a Universidade Federal da Paraíba (UFPB), onde se tornou professor titular e, posteriormente, professor emérito.
Segundo a UFPB, ele morreu às 3h30. A universidade atribuiu a morte a complicações da doença de Parkinson. O Centro de Comunicação, Turismo e Artes (CCTA) informou que Jomard estava hospitalizado desde o sábado (10), com quadro de insuficiência respiratória.
O Jornal do Commercio também informou, a partir de relato da família, que o artista estava internado em uma Unidade de Terapia Intensiva no Recife, com infecção respiratória, e havia apresentado piora nas semanas anteriores.
Da perseguição política à volta à UFPB
A relação de Jomard com a Paraíba atravessou um dos períodos mais duros da história política brasileira.
Formado em Filosofia pela antiga Universidade do Recife, atual Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), ele trabalhou com Paulo Freire na equipe do Serviço de Extensão da universidade e participou das experiências de educação de adultos desenvolvidas pelo educador no início da década de 1960.
Durante a ditadura militar, foi perseguido por sua atuação intelectual e política.
Segundo o CCTA da UFPB, Jomard foi impedido de lecionar na universidade em 1969. Após ser reintegrado, voltou à instituição e passou a dar aulas no curso de Comunicação Social. Encerrou a carreira acadêmica como professor titular.
Em 2007, recebeu da Universidade Federal da Paraíba o título de professor emérito, reconhecimento concedido a docentes que tiveram contribuição de destaque para a instituição.
Influência no cinema paraibano
A presença de Jomard na UFPB não ficou restrita às salas de aula.
O professor integrou o ambiente de experimentação audiovisual que se desenvolveu na universidade e em João Pessoa entre o fim dos anos 1970 e o início da década de 1980, período marcado pelo fortalecimento do cinema em Super-8 na Paraíba.
Pesquisa e publicações da própria UFPB identificam Jomard entre professores, pesquisadores e agitadores culturais que participaram daquele movimento, associado ao Curso de Comunicação e ao Núcleo de Documentação Cinematográfica (NUDOC).
Ele também formulou a proposta chamada de “Cinema Indireto”, apresentada em pesquisas acadêmicas da UFPB como uma vertente de caráter experimental e contestador dentro da produção cinematográfica daquele período.
Entre as obras ligadas à Paraíba estão “Esperando João”, realizado em João Pessoa em 1981, e “Paraíba Masculina Feminina Neutra”, de 1982. Os dois trabalhos integram registros sobre a produção Super-8 paraibana preservados e estudados pela universidade.
Mais de 30 filmes e vídeos
Jomard nasceu em 8 de abril de 1937, no bairro de São José, área central do Recife.
Ao longo da carreira, transitou por cinema, literatura, filosofia, educação, performance e crítica cultural. Produziu mais de 30 filmes e vídeos, escreveu peças teatrais e publicou dez livros, segundo levantamento do Jornal do Commercio.
Entre seus filmes estão “O Palhaço Degolado”, “Alto Nível Baixo”, “Discurso Classe Média”, “Inventário de um Feudalismo Cultural” e “Jogos Labiais Libidinais”.
Jomard também foi um dos nomes ligados à Tropicália no Nordeste e integrou a chamada Geração Super-8, que teve papel importante na produção audiovisual independente e contracultural das décadas de 1970 e 1980.
Sua produção ficou marcada pela experimentação estética e pela crítica às convenções culturais e políticas do período.
UFPB lamenta morte
Em nota de pesar, a Universidade Federal da Paraíba destacou a atuação de Jomard como poeta, cineasta, professor, performer, filósofo e crítico, além de lembrar sua condição de professor emérito.
A instituição ressaltou ainda sua participação entre os principais realizadores do Ciclo do Super-8 do Recife e sua produção marcada pela experimentação artística.
O velório e o sepultamento ocorreram na segunda-feira no Cemitério de Santo Amaro, no Recife.


