Ação de Trump sobre petróleo venezuelano ameaça dívida bilionária com a China

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por Folhapress

Homem de pele clara e cabelo loiro claro fala em microfone. Ao fundo, desfocada, está a bandeira dos Estados Unidos com listras vermelhas e brancas.
Trump tenta conter a influência chinesa sobre ativos estratégicos na América do Sul – Evelyn Hockstein – 02.set.26/Reuters

A Venezuela está se tornando um importante campo de testes para as ambições de Donald Trump no Ocidente e desponta como mais uma possível fonte de rivalidade com a China.

Depois de anunciar planos para assumir o controle de mais de 65 bilhões de barris das reservas de petróleo bruto da Venezuela, o governo Trump deixou claro que esse era apenas o começo. O próximo passo é uma campanha para afastar a China e potências como a Rússia, que a Casa Branca classificou como “atores estrangeiros malignos”, em uma ofensiva para garantir que “a predominância americana em nosso hemisfério nunca mais seja questionada”.

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Agora, Washington pretende tentar reestruturar a dívida da Venezuela, que inclui bilhões de dólares devidos à China. O secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, afirmou na quarta-feira (2) que Pequim não terá direito a nenhuma receita proveniente da nova produção venezuelana —eliminando um dos canais usados para o pagamento da dívida.

Os EUA apresentaram a campanha como o capítulo mais recente da chamada “Doutrina Donroe”, incorporada à Estratégia de Segurança Nacional da Casa Branca, que estabelece o direito unilateral dos EUA de impedir que potências rivais tenham a propriedade ou o controle de “ativos estrategicamente vitais”. Sob essa bandeira, retirar campos de petróleo venezuelanos de empresas chinesas representa uma oportunidade geopolítica de alinhá-los aos interesses de Washington.

A China reduziu sua exposição à Venezuela nos últimos anos, e Trump provavelmente teria dificuldade para reproduzir em outros lugares a escala das ações adotadas no país. Para Pequim, portanto, as implicações são mais políticas do que econômicas.

Uma postura mais intervencionista dos EUA corre o risco de colidir com os interesses mais amplos da China na América do Sul, afirmou Christian Reyes, analista de risco político baseado em Pequim e natural do Equador.

“A Venezuela não é necessariamente um precedente para a expropriação direta, mas pode ser um precedente para a exclusão coercitiva”, disse. “Os Estados Unidos estão cada vez mais dispostos a definir partes da relação econômica da região com a China como uma questão de segurança e a usar sua considerável influência para fazer valer essas linhas vermelhas.”

Até agora, a reação da China tem sido relativamente contida. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Guo Jiakun, afirmou que os “direitos e interesses legítimos” da China na Venezuela “devem ser protegidos”, durante uma entrevista coletiva regular em Pequim na quinta-feira. “A cooperação entre China e Venezuela é protegida pelo direito internacional”, acrescentou. “Ela não envolve nenhum terceiro.”

Às vésperas da primeira visita de Estado do presidente Xi Jinping aos EUA em mais de uma década, prevista para este mês, autoridades das maiores economias do mundo buscam evitar grandes confrontos, mesmo enquanto os dois países divergem sobre temas que vão dos desequilíbrios comerciais ao apoio econômico de Pequim a Teerã.

Ainda não está claro até que ponto projetos ligados à China estão incluídos no acordo de concessão por 100 anos anunciado por Washington. Os governos dos EUA e da Venezuela não identificaram publicamente os campos abrangidos pelo acordo. O governo americano negociou, no início desta semana, uma participação de 35% na North American Blue Energy Partners, empresa privada do empresário venezuelano Alejandro Betancourt, obtendo acesso a 17 campos de petróleo no país.

“O acordo torna menos provável que a dívida seja paga em um futuro próximo”, disse Michal Meidan, chefe de pesquisa sobre energia chinesa do Oxford Institute for Energy Studies. “Será interessante ver se isso será sequer abordado mais tarde neste mês, durante o encontro entre Trump e Xi, mas duvido.”

Para Pequim, a Venezuela se tornou uma fonte menos importante de energia nos últimos anos. O petróleo bruto venezuelano respondeu por apenas 4% das importações totais de petróleo da China em 2025. Nenhum carregamento venezuelano foi registrado chegando à China desde que o governo Trump assumiu o controle dos ativos após a captura, no início deste ano, do então presidente Nicolás Maduro.

O impacto maior pode ser sobre os bilhões de dólares em dívida com bancos chineses, vinculada a barris de petróleo que não foram entregues. Embora Caracas tenha deixado de divulgar informações detalhadas sobre essas obrigações depois da moratória da dívida soberana em 2017, estimava-se que a dívida total com a China fosse de pelo menos US$ 10 bilhões (R$ 51,2 bilhões) em 2025.

Esse valor já caiu consideravelmente em relação ao pico. A China começou a financiar projetos de infraestrutura e energia na Venezuela em 2007, durante o governo do então presidente Hugo Chávez. Dados disponíveis publicamente indicam que bancos estatais chineses haviam concedido mais de US$ 60 bilhões (R$ 306 bilhões) em empréstimos lastreados em petróleo ao país até 2015.

À medida que as sanções dos EUA contra Caracas se intensificaram nos anos seguintes, a China se tornou o maior comprador do petróleo venezuelano e seu principal credor estrangeiro. Empresas estatais, entre elas a CNPC (Corporação Nacional de Petróleo da China), controladora da PetroChina, e a Corporação Nacional de Petróleo Offshore da China, desenvolveram projetos de petróleo e gás na faixa do Orinoco, rica em petróleo pesado, e em outras regiões.

Empresas privadas chinesas, entre elas a Concord Resources, também investiram em participações em ativos de produção.

O ambiente operacional, porém, tornou-se cada vez mais difícil à medida que a economia venezuelana se deteriorava e as instalações de produção operavam muito abaixo de sua capacidade projetada. Essas movimentações se aceleraram depois que os EUA impuseram sanções ao setor petrolífero venezuelano em 2019, embora algumas joint ventures chinesas mais antigas e equipes de contratados, incluindo funcionários da CNPC, possam ainda permanecer em Caracas.

Isso significa que as alegações de que os EUA estão retomando campos de petróleo de adversários estrangeiros não devem ter grande impacto sobre as empresas chinesas, que já haviam reduzido sua exposição à medida que as prioridades estratégicas de Pequim mudaram.

O impacto maior pode recair sobre as refinarias chinesas, que já enfrentam interrupções no fornecimento de petróleo do Irã.

Processadores independentes da província de Shandong, em particular, há muito dependem do petróleo pesado venezuelano como matéria-prima para a produção de betume. A perda desses suprimentos apertou o mercado doméstico de betume, ajudando a impulsionar fortemente os preços dos contratos futuros.

Para a maioria das empresas e credores chineses na Venezuela, os riscos de fazer negócios no país já eram conhecidos, afirmam analistas. Por isso, a nova turbulência não chega a ser uma surpresa.

“A América do Sul há muito é uma encruzilhada geopolítica onde os interesses da China e dos EUA se cruzam e, às vezes, colidem”, disse Liao Na, fundadora da GL Consulting, empresa especializada em pesquisa sobre energia. “Dada a importância que ambas as potências atribuem à Venezuela, o atrito é quase inevitável sempre que seus interesses se sobrepõem.

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