Alvo de abordagem de PMs, jovem negro filho de diplomata conta que custou a entender a situação: ‘Eu vi meus amigos com medo’

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Jovem canadense disse que ficou com medo de abordagem policial — Foto: Reprodução/ TV Globo

Um dos adolescentes que foram alvos da abordagem de policiais militares em Ipanema, na Zona Sul do Rio de Janeiro, na noite de quarta-feira (3), contou que demorou a entender o que estava acontecendo. Na manhã de sexta (5), um jovem canadense e um brasileiro contaram que temeram a ação dos policiais.

“No início, eu achava que era uma zoeira. Então, eu estava até rindo. Mas, depois de um tempo, eu vi meus amigos com medo. E aí, eu vi que era uma coisa séria. Eles empurraram na parede, com força. Até que machucou um pouco”, disse o canadense, que é negro.

O menor de 14 anos é filho de uma assistente do embaixador do Canadá no Brasil. Ele e outros 4 jovens, sendo dois brasileiros brancos e dois filhos dos embaixadores do Gabão e de Burkina Faso, ambos negros, estavam caminhando pela rua Prudente de Moraes, em Ipanema, quando foram abordados por policiais militares.

Todos estão passando férias no Rio de Janeiro.

O adolescente brasileiro, que é branco, disse que houve mais truculência com os amigos negros.

“Muito mais tensão vindo para eles, com muito mais agressividade, os encostando na parede, levantando o braço, do que comigo”, afirmou o adolescente.

Ele contou como foi a abordagem. Câmeras de segurança registraram o momento (veja acima). A viatura da PM atravessou as pistas e dois policiais desembarcaram com as armas em punho.

“Voltando da praia, a gente ia deixar o meu primo na casa dele, que é ali naquela rua. Cumprimentamos ele, que entra e, na hora que ele entra, a polícia para assim, por trás. Chega apontando arma, falando para encostar na parede, levantar o braço”, contou o brasileiro.

Itamaraty

O caso é acompanhado pelo Itamaraty, que se reuniu com as famílias na manhã da sexta (5). Por meio de nota, o Ministério das Relações Exteriores afirmou que recebeu os embaixadores do Gabão e Burkina Faso em Brasília para falar sobre a abordagem.

“Na reunião, foi entregue em mãos dos Embaixadores estrangeiros nota verbal com um pedido formal de desculpas pelo lado brasileiro, e o anúncio de que o Ministério de Relações Exteriores acionará o Governo do Estado do Rio de Janeiro, solicitando apuração rigorosa e responsabilização adequada dos policiais envolvidos na abordagem”, afirmou um trecho do comunicado do Itamaraty.

Ainda de acordo com a pasta, nota semelhante será entregue para o embaixador do Canadá.

Investigação

PMs abordam jovens filhos de diplomatas no Leblon — Foto: Reprodução
PMs abordam jovens filhos de diplomatas no Leblon — Foto: Reprodução

Após a divulgação da abordagem de policiais militares ao grupo de adolescentes na última quarta-feira (3), a Polícia Civil abriu uma investigação para apurar o caso.

A investigação foi aberta pela Delegacia Especial de Apoio ao Turismo (Deat), no Leblon, também na Zona Sul da cidade. A abordagem também será investigada pela Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), na região central do Rio, para apurar crime de injúria racial.

O comandante da Polícia Militar, coronel Marcelo de Menezes Nogueira, afirmou que um procedimento apuratório foi aberto para esclarecer o caso e que a PM vai colaborar com a investigação da Polícia Civil.

Em uma rede social, a presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), a deputada Dani Monteiro (PSOL-RJ) disse que tornar uma pessoa suspeita apenas pela cor da pele é inadmissível.

E que, infelizmente, isso faz parte do cotidiano dos jovens negros, seja na periferia ou em um dos bairros mais ricos da capital fluminense, como é Ipanema.

Férias

Os adolescentes dizem que ficam pensando na abordagem.

“No momento, eu não senti nada, né? Mas depois, quando foi pra dormir, eu tava um pouco traumatizado, com mais medo”, disse o canadense.

Eles contam que tentam se recuperar do trauma para aproveitar o resto das férias no Rio.

“A gente saiu ontem, né? A gente escutava sirene de polícia, de bombeiro, de qualquer coisa, e já ficava mais ligado, ficava mais atento, mais com medo”, afirmou o brasileiro.

“Eu não tava preparado pro policial. Eu tava mais preparado pra ser roubado pelos bandidos, coisa assim”, contou o jovem canadense.

Rhaiana Rondon, mãe de um dos adolescentes brasileiros, conta que a família tenta se recuperar do caso.

“Foi uma violência psicológica, uma violência física. Não tinha razão. Meninos menores de idade que poderiam ter sido abordados pedindo a identidade e perguntando o que estavam fazendo. É racismo, é crime o que foi praticado ali, para todos verem.”

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