Brasil reduz mortes violentas, mas letalidade policial aumenta e suicídios de agentes seguem elevados

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Policiais militares em uma favela em São Paulo durante o período de trabalho - Danilo Verpa - 11.jul.2025/Folhapress

por Folhapress

Embora o Brasil tenha reduzido as mortes violentas intencionais e registrado seu menor patamar nos últimos 14 anos, os indicadores envolvendo policiais caminham em sentido contrário.

Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram que a letalidade policial voltou a crescer em 2025 e atingiu o maior nível da série histórica, passando de 6.237 em 2024 para 6.602 nesse ano. Em números absolutos, é a maior soma desde 2017, primeiro ano no levantamento.

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A situação também preocupa quando o foco são os próprios agentes de segurança. Em 2025, 110 policiais tiraram a própria vida, o que equivale a uma morte a cada três dias.

Apesar da redução de 12,7% em relação ao ano anterior, o número é 48,6% superior ao observado em 2017, quando foram registrados 74 casos.

Dados do Sinesp, sistema nacional de informações de segurança pública do Ministério da Justiça, atualizados até junho desse ano, mostram que o crescimento das mortes decorrentes de intervenção policial persiste na comparação entre os seis primeiros meses de 2026 e o mesmo período de 2025. Já os suicídios apresentam até o momento tendência de queda.

Leonardo Silva, coordenador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, afirma que há uma relação frequentemente ignorada entre o aumento da letalidade policial e o adoecimento dos agentes, o que pode levar ao suicídio.

Segundo ele, a política de segurança pública ainda está baseada em um modelo de combate às drogas herdado das décadas de 1960 e 1970, centrado na repressão e incapaz de enfrentar as causas estruturais da violência.

Na prática, as operações atingem principalmente a base das facções, cujos integrantes são rapidamente substituídos, enquanto policiais permanecem expostos a situações permanentes de estresse, violência e risco de morte.

Assim como matam, os policiais também morrem. Em 2025, 139 agentes foram assassinados. Apesar da redução em relação aos últimos anos, Leonardo afirma que o número permanece elevado e evidencia que os profissionais continuam expostos à violência.

“O resultado desse enxugar gelo permanente é um severo adoecimento físico e mental dos agentes públicos”, afirma.

Para ele, o suporte institucional é insuficiente. Além da escassez de equipes de psicologia e psiquiatria, muitos policiais evitam buscar ajuda por medo do estigma dentro das corporações.

A diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, Carolina Ricardo, também vê a letalidade policial e o suicídio como reflexos de um mesmo problema estrutural.

Segundo ela, a cultura do policial-herói cria a expectativa de que o agente seja um super-homem, incapaz de demonstrar fragilidade, o que dificulta a procura por atendimento psicológico.

Carolina afirma que as corporações ainda priorizam o enfrentamento ao crime em detrimento da proteção dos próprios policiais e da gestão do uso da força.

Para ela, a ausência de políticas de valorização, saúde mental e protocolos de controle contribui tanto para o adoecimento dos agentes quanto para o aumento da letalidade policial.

“Por trás da imagem do herói, os policiais enfrentam problemas comuns, como endividamento, uso abusivo de álcool e conflitos familiares. Sem um ambiente institucional que trate a saúde mental de forma aberta, esses problemas se acumulam”, diz.

Ela acrescenta que o discurso das lideranças também influencia o comportamento das corporações. Segundo ela, quando governadores e comandantes priorizam o controle e o uso técnico da força, os índices de letalidade tendem a cair. Já quando a violência é legitimada, ocorre o movimento inverso.

O Ministério da Justiça e Segurança Pública afirmou, em nota, que tenta mudar esse cenário, mantendo ações voltadas à valorização dos profissionais de segurança pública, incluindo iniciativas de promoção da saúde mental.

Segundo a pasta, recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública são repassados anualmente aos estados e podem ser utilizados, conforme a legislação, em programas de valorização dos agentes, entre eles ações de assistência à saúde mental.

O ministério também citou o Projeto Escuta Susp, que oferece atendimento psicológico e psiquiátrico online, gratuito, sigiloso e especializado a profissionais das forças de segurança estaduais e das guardas municipais, em parceria com estados e municípios.

Sobre o aumento das mortes decorrentes de intervenção policial, a pasta informou que desenvolve políticas nacionais para qualificar a atuação das forças de segurança, com foco na proteção da vida e no respeito aos direitos humanos.

Entre as iniciativas mencionadas estão o Projeto Nacional de Câmeras Corporais e o Projeto Nacional de Qualificação do Uso da Força.

Os dados mostram ainda que a evolução dos indicadores varia significativamente entre os estados. Em alguns casos, como no Rio Grande do Norte, houve piora simultânea dos três indicadores: letalidade policial, suicídios e mortes de policiais.

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