Do luto à luta: saiba como familiares que perderam parentes de forma violenta se tornaram assistentes de acusação em processos

Leniel Borel veste camisa com a foto do filho Henry Borel — Foto: Marcos Serra Lima/g1

Por Eliane Santos

Um luto sofrido e sem tempo para ser realizado. É assim a vida de um familiar que perdeu um ente querido vítima de violência e que ser tornou assistente de acusação no processo que investiga o crime.

A figura jurídica é prevista em qualquer ação do Ministério Público em que a vítima não pode se defender, como nos casos de crime contra a vida, e pode ser exercida por pais, cônjuges, filhos ou irmãos. Cabe a eles a ajudar ao MP a acusar e a definir rumos do processo.

Na prática, os assistentes de acusação vivem uma realidade que tem de um lado a vontade de ver a Justiça sendo feita, e de outro a dureza de quem lida com laudos cadavéricos dos parentes, lê depoimentos dos acusados do crime e vê decisões nem sempre favoráveis como pedidos de liberdade e revogação de prisão.

Essa é a rotina do engenheiro Leniel Borel, que há um ano e meio ajuda nas investigações da morte do filho, Henry Borel.

“É muito difícil. Tem dias que não quero falar com ninguém. Mas penso que, se não for eu pelo Henry, não vai ser mais ninguém. Para o juiz é mais um caso, para o promotor também. O Henry só é meu filho para mim. Se eu não fizer, quem vai fazer?”, diz ele que recentemente questionou a revogação da prisão de Monique Medeiros no STJ.

‘A morte dele não vai ficar impune’

Cauã Neres das Chagas, espancado até a morte por causa de um celular — Foto: Reprodução/TV Globo
Cauã Neres das Chagas, espancado até a morte por causa de um celular — Foto: Reprodução/TV Globo

Quem também está aprendendo a lidar com o luto e a luta, é a dona de casa Vanessa Neres das Chagas. O filho dela, Cauã, de 17 anos, foi morto em julho desse ano por cinco homens. Eles acharam que Cauã tinha pegado o celular de um deles, e resolveram matar o jovem e jogaram o seu corpo em um rio.

Vanessa conta que desde o desaparecimento do filho, ajudou nas buscas, falou com suspeitos e viu imagens de câmeras até localizar o corpo de Cauã.

“O meu filho eu não vou ver nunca mais, mas a morte dele não vai ficar impune”, diz.

Perguntada como está lidando com a realidade do processo, ela diz que nada pode ser pior do que o reconhecimento do corpo do filho, que ela teve que fazer.

“Foi difícil, mas fiz questão de estar presente [na audiência], ficar cara a cara com eles, ver se tinha algum traço de arrependimento. Lamento não poder estar mais”, diz ela, referindo-se ao fato de que quem está no papel de assistente de acusação não pode assistir todas as audiências. Ela só esteve na primeira no papel de testemunha do Ministério Público.

Dor ainda grande

Quem está começando a se ambientar ao novo papel é a assistente comercial Mariana Cardim de Lima, mãe de João Gabriel Cardim Guimarães, de 16 anos, e que morreu atropelado no final de julho pelo modelo Bruno Krupp.

Mariana Cardim de Lima, mãe de João Gabriel e Bruno Krupp: decisões no processo ainda são difíceis — Foto: Reprodução
Mariana Cardim de Lima, mãe de João Gabriel e Bruno Krupp: decisões no processo ainda são difíceis — Foto: Reprodução

Ainda muito abalada, ela divide com a tia Débora Cardim as decisões/informações mais difíceis do processo da morte do filho.

“Fomos explicando as questões jurídicas, tudo o que envolve um caso como esse e os caminhos para se buscar justiça. Ela foi entendendo e aceitando. Às vezes é difícil, o sofrimento é grande, ela ainda vive à base de remédios. Quando fica muito difícil, falamos com a tia dela, a Débora”, explica a advogada Luciane Noira, que dá assistência jurídica na parte criminal e está à frente do processo cível que pretende pedir indenização de R$ 1 milhão a Krupp.

Mãe de Moïse Kabagambe também será assistente

Já a congolesa Lotsove Lolo Lavy Ivone, mãe de Moïse Kabagambe, de 25 anos, — espancado em um quiosque até a morte na orla da Barra da Tijuca no final de janeiro —, foi aceita como assistente de acusação no processo que apura a morte do filho esta semana.

O pedido foi feito pela Defensoria Pública, que representa a comerciante, no final de julho, e deferido pela Justiça. O trabalho junto ao Ministério Público ainda não começou, mas o sentimento é o mesmo de outras mães e pais: justiça.

Mãe de Moïse com o advogado da OAB: justiça — Foto: Henrique Coelho/g1
Mãe de Moïse com o advogado da OAB: justiça — Foto: Henrique Coelho/g1

 

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