Em campanha para relançar o Orkut, criador critica atuação da Meta nas eleições e redes por algoritmos
por Folhapress

O turco Orkut Büyükkökten, criador da rede social homônima que foi febre no Brasil nos anos 2000, encabeça um movimento para reviver a plataforma, priorizando conexões humanas em detrimento do engajamento.
Para isso, ele move uma petição online, que reunia cerca de 467 mil assinaturas de 165 países às 10h desta quarta-feira (21), segundo o contador do site. O Brasil lidera em apoiadores, com 61,9% do total, à frente de Portugal (10,4%) e da Irlanda (2,7%).
Büyükkökten disse que, quanto maior o número de assinaturas, mais rápido será o relançamento, mas não informou data nem uma meta de apoios.
Junto à petição, Orkut publicou uma carta. No texto, ele diz que criou, duas décadas atrás, uma das primeiras redes sociais, mas viu essa tecnologia tomar um “rumo errado”.
A indústria, segundo ele, trabalhou para capturar a atenção dos usuários, com feeds baseados em engajamento, e não mais conexão humana.
“Uma geração de crianças entregue a algoritmos que as viciaram, dividiram e as venderam para anunciantes. Não é de surpreender que tenham crescido solitárias e ansiosas”, diz a carta.
O texto também afirma que a inteligência artificial agrava o quadro, por dissolver a premissa de que há uma pessoa do outro lado das redes, e cita os robôs, conteúdos de baixa qualidade gerados por IA e deepfakes.
Como alternativa, propõe uma internet construída em torno de pessoas reais e de comunidades que recompensem “gentileza, curiosidade, amizade e confiança”, em vez de algoritmos e tempo de tela.
Ele lembra ainda que o que os usuários mais citam como saudade do Orkut são as comunidades. Nelas, diz, a pessoa é membro. Já em um feed (fluxo contínuo de publicações usado pelo Instagram, TikTok e o X, por exemplo) é plateia.
Comunidades clássicas que fizeram história no Orkut
Esta não é a primeira tentativa de reviver o Orkut? O que deu errado da última vez?
Na verdade, esta é a primeira tentativa. Da outra vez, eram muitos boatos sobre a volta do Orkut.
Vamos voltar ao começo. Eu era engenheiro de software do Google quando criei a rede, então ela sempre foi um produto deles. Depois, o Google+ virou a rede social da empresa e, por isso, o Orkut foi cancelado.
Eu saí do Google, mas não podia trazer o Orkut de volta porque não tinha a propriedade intelectual nem a marca. Depois de anos conversando com a empresa, no fim do ano passado consegui recuperar as duas coisas e agora posso relançá-lo oficialmente.
O que quer medir com a petição online? Existe uma meta de assinaturas?
Queremos chamar a atenção e reunir assinaturas para conseguir os recursos necessários para trazer o Orkut de volta mais rápido.
A petição mostra que há demanda não só pela volta do Orkut, mas por uma internet humana, baseada em pessoas. Estamos pedindo que todos assinem, compartilhem o selo de apoiador nas redes sociais e vamos tentar chegar a milhões de assinaturas.
Comunidades de Bruno Predolin no Orkut, que criou 715 no total
No Brasil, jogos como Colheita Feliz e Buddy Poke eram muito queridos. Há planos para esse tipo de jogo?
Adoraríamos apoiar os games. Uma das coisas mais tristes que aconteceram com as redes sociais é que elas popularizaram jogos como Farmville, Mafia Wars e Buddy Poke e depois os tiraram dos usuários. Tudo devido à otimização excessiva em engajamento e do feed.
Gostaríamos de trazer essas experiências de volta, porque jogos são divertidos, criam comunidade e aproximam as pessoas.
As big techs dizem defender a liberdade de expressão. Onde você traça a linha entre moderar e censurar?
Liberdade de expressão é muito importante, mas há linhas que não se pode cruzar: notícias falsas, desinformação, tráfico, violência armada, pornografia infantil e discurso de ódio político. Isso prejudica a democracia e a própria base de usuários.
Uma das coisas que aconteceram no passado é que as plataformas pararam de fazer checagem de fatos. E não foi só checagem sobre democracia e política, foi sobre tudo. Isso faz muito mal à democracia.
Se você pensar nas eleições dos Estados Unidos, o Facebook teve um impacto enorme sobre quem foi eleito, e boa parte disso foi causado por desinformação. Muita dessa desinformação vem de agentes estrangeiros, com fazendas de bots e IA.
A política é extremamente sensível, porque é muito fácil criar polarização e espalhar desinformação. E, no caso da saúde, as consequências são mortes. Houve muita notícia falsa sobre vacinação na época da Covid, e milhões de pessoas não se vacinaram e morreram por isso.
No Brasil, temos disputas entre o STF e as big techs, além de um debate permanente sobre a responsabilidade das empresas pela desinformação. Os governos devem regular as plataformas?
Não acredito que o governo deva regular as plataformas. O governo muda de política dependendo de quem está no comando. A política dos Estados Unidos mudaria completamente se fosse Donald Trump, Kamala Harris ou Joe Biden, por exemplo.
Não dá para confiar a quem estiver no poder a tarefa de regular. É o mesmo no Brasil: dependendo de quem for o próximo presidente, haverá consequências para o país inteiro e para as redes sociais, e não se quer que ele tenha esse poder.
Você defende, então, a autorregulação?
Não acho que o governo deva regular as plataformas, mas as empresas devem ser responsáveis por ter as ferramentas necessárias.
Por exemplo, as redes sociais deveriam ter equipes que façam checagem de fatos. Devem garantir que não haja polarização política, desinformação e ódio que prejudiquem comunidades ou indivíduos. As empresas precisam ter essas ferramentas funcionando e ser responsabilizadas.
Aqui no Brasil, a Meta tem sido acusada pela campanha de Lula de favorecer o candidato Flávio Bolsonaro em seus algoritmos. O que isso revela sobre o poder e a responsabilidade das redes na democracia?
Isso é muito assustador, porque a Meta favoreceu Trump nas eleições dos Estados Unidos. Não estou dizendo que a Meta favoreça algum candidato no Brasil, mas é muito danoso quando uma plataforma toma partido.
Ela deveria ser imparcial, porque quem deve decidir são os usuários. Se a plataforma ajuda a espalhar desinformação e fake news, pode polarizar o resultado. Alguém pode ser eleito com base em mentiras, e é assim que a democracia é arruinada.
O Orkut foi um dos primeiros casos de sucesso das redes sociais. Você se sente responsável pelo modelo de hoje?
Talvez. Sou um dos pioneiros da web e éramos todos otimistas. Cada decisão que tomei no Orkut, de design, de produto, técnica, era para deixar os usuários mais felizes e mais conectados.
Já as outras plataformas passaram a otimizar o engajamento, e quando se faz isso acaba-se otimizando ódio, indignação e desinformação, que disparam emoções e se espalham mais rápido.
Não me sinto responsável, porque nunca tivemos esse tipo de otimização, e o Orkut foi um lugar feliz até o Google desativá-lo. Mas fico muito triste ao ver o dano que as redes causaram, como a epidemia de solidão e os problemas de saúde mental.
A geração Z e a geração Alpha passam tanto tempo nas redes que não sabem se comunicar nem fazer amigos, e agora conversam com companheiros de IA. No início isso alivia a solidão, mas, com o uso ao longo de meses, deixa a pessoa mais sozinha e mais deprimida.
Você critica na carta a publicidade baseada em atenção. Como o novo Orkut vai se sustentar?
Hoje a otimização é em torno de engajamento, ou seja, tempo de uso, número de sessões e alcance, porque mais engajamento significa mais cliques em anunciantes e mais lucro. Nós temos uma otimização totalmente diferente, voltada para felicidade, conexão, positividade e comunidade.
Marcas e empresas são parte importante do nosso ecossistema, todos temos marcas de que gostamos, e eu quero poder ter conversas significativas sobre elas. Isso desapareceu com a otimização excessiva em torno de lucro.
Antes havia comunidades de marcas no Orkut, depois vieram as páginas do Facebook, que ninguém usa mais, porque virou uma questão de quanto mais dinheiro a empresa gasta, mais engajamento consegue.
É assim que se destrói um recurso: otimizando-o para o dinheiro, e não para o consumidor.
No novo Orkut, pequenos negócios e marcas farão parte da plataforma. Pense na cafeteria que você visita todo dia a caminho do trabalho: ela forma uma comunidade, e esse tipo de interação significativa queremos levar para o ambiente online.
RAIO-X | ORKUT BÜYÜKKÖKTEN, 51
Engenheiro de software turco e ex-funcionário do Google, desenvolveu a rede social Orkut como um projeto independente enquanto estudava na Universidade de Stanford, nos EUA, no começo dos anos 2000. Criada em 2004 e desativada em 2014, a rede chegou a ter mais de 10 milhões de usuários no Brasil.


