Exército vê civil bolsonarista como ministro da Defesa se Flávio vencer

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por Folhapress

Homem de terno escuro e gravata amarela discursa em púlpito com bandeira ao lado
Marcos Degaut, então secretário de Produtos de Defesa no governo Bolsonaro, durante discurso – Marcos Corrêa – 20.fev.20/PR

Integrantes da cúpula militar brasileira, ainda se recuperando dos danos que a adesão ao governo Jair Bolsonaro já causou, discutem cenários para o caso da vitória do primogênito do ex-presidente, o senador Flávio (PL-RJ), na disputa pelo Planalto.

O tema é debatido via WhatsApp, telefonemas e foi assunto em conversas paralelas ao encontro regular do Alto Comando do Exército, principal das três Forças. Os 16 generais de quatro estrelas que o compõem estão reunidos em Brasília para definir promoções nesta semana.

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Entre oficiais no topo da hierarquia, segundo relatos feitos à Folha, há a certeza de que o próximo ministro da Defesa será um civil bolsonarista, e não um militar, como foi regra da metade do governo Michel Temer (MDB) até a volta de Lula (PT) ao poder.

O favorito é Marcos Degaut, ex-secretário de Produtos de Defesa da pasta. Muito próximo do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, ele vem sendo cotado até para o Itamaraty, dada a defesa que assumiu da reforma do órgão.

Sua relação com a Defesa, contudo, é mais orgânica. Ele esteve à frente das tratativas lideradas por Eduardo no governo do pai para estreitar laços no setor com os Emirados Árabes Unidos. Chegou a ser indicado para a embaixada no país, mas o Senado segurou a análise de seu nome.

Degaut desistiu da postulação, alegando problemas de saúde, e saiu do governo em 2022. Cumpriu quarentena e, de maio de 2023 a abril de 2024, foi diretor do principal conglomerado de defesa dos Emirados, o Edge Group, para Brasil e América Latina.

Alguns fardados questionam se essa relação não seria problemática, dado que o Edge entrou agressivamente no mercado brasileiro, adquirindo o controle da fabricante de mísseis SIATT e da casa de engenharia Akaer.

Questionado, o Centro de Comunicação Social do Exército disse que não comentaria as especulações.

Já para o comando do Exército, que com 60% dos 374,5 mil fardados do país é seu mais importante ente militar, a aposta mais ouvida é no nome do general Francisco Humberto Montenegro Júnior, o número 2 da Força.

Ex-assessor parlamentar da Força, ele é visto como o mais político dos integrantes atuais do Alto-Comando, à parte do comandante, general Tomás Ribeiro Paiva. Sua relação próxima com o chefe o autorizaria a conduzir a transição de um Exército sob um governo de esquerda para outro de direita, no caso de Flávio vencer.

Contra ele, há o fato de que ele é o sétimo general mais antigo no colegiado, e a praxe sugere que o presidente indique o primeiro da fila, no caso o chefe da Secretaria de Finanças, Luciano Guilherme Cabral Pinheiro.

A relação com Tomás também pesa, como o comandante é conhecido. Dois bolsonaristas próximos de Flávio afirmam que a família não o perdoou pelo discurso legalista proferido às vésperas de sua escolha por Lula, no auge da crise provocada pelo 8 de Janeiro.

Na fala, ele defendeu a despolitização das Forças Armadas. Tomás substituiu Júlio César de Arruda, criticado pelo Planalto pela condução da crise provocada por bolsonaristas em Brasília. O afastamento do Exército e das outras Forças dos holofotes foi um dos pilares da gestão de José Múcio Monteiro na Defesa.

Outros nomes estão na pista entre Guilherme, como é chamado o general, e Montenegro.

Entre eles está Kleber Nunes de Vasconcellos, comandante de Operações Terrestres e paraquedista como Bolsonaro foi, o que lhe dá certa simpatia entre os bolsonaristas após Tomás ter coibido a influência das Forças Especiais, os “kids pretos” associados ao golpismo, na cúpula do Exército.

Surge também no páreo Luiz Fernando Baganha, diretor de pessoal da Força. Ele trabalhou no Gabinete de Segurança Institucional de Bolsonaro de 2019 a 2021, dois anos como número 2 do ministro Augusto Heleno, um dos generais condenados pela trama golpista de 2022.

Os militares, que viram 19 dos seus serem condenados no episódio, inclusive dois ex-comandantes de Força e dois ex-ministros, tratam a questão com discrição.

Primeiro, não querem constranger Tomás, que de resto é um líder respeitado, mas não exatamente popular. Segundo, são distantes de Flávio por obra tanto do afastamento promovido após o fim do governo Bolsonaro, quando ocuparam diversos ministérios, quanto por afinidade.

Segundo um militar ouvido, não há interlocução entre o Exército e a campanha de Flávio. Como seria previsível, todos os sete cotados para o comando são homens com visões políticas à direita, mas nenhum é associado hoje ao golpismo que marcou algumas figuras do Alto-Comando na era Bolsonaro.

Uma dúvida expressa por um político de centro com contatos com militares é se, num eventual governo Flávio, haverá uma reaproximação.

Ele duvida por dois fatores. Com o pai, a ideia de que os fardados iriam ser tutores do capitão indisciplinado reformado à força fracassou, e Bolsonaro expurgou o ministério e as três Forças para colocar simpatizantes seus, em 2021.

Segundo, porque o clã não se conformou com a falta de apoio para a intentona do fim de 2022, como ficou explícito no relato do ex-chefe da Força Aérea, Carlos Alberto Baptista Junior. A isso se soma uma desconfiança acerca das ligações de Flávio com milicianos e com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

Na Marinha, Força cujo ex-chefe Almir Garnier está preso após ter oferecido tropas para o golpe que não veio, o assunto é ainda mais abafado.

Por ora, o pouco que se ouve é que há esperança numa transição que veja o almirante mais antigo, o chefe do Estado-Maior Arthur Fernando Bettega, escolhido comandante. O mesmo ocorre na FAB, onde o candidato natural seria Walcyr Josué de Castilho Araújo, atual número 2 da Força.

Outra expectativa entre os militares é que a perspectiva de uma saída de Bolsonaro da cadeia antes da eventual posse do filho, algo urdido por aliados do ex-presidente e no Supremo, possa liberar os condenados fardados.

O sentimento aqui varia de oficial para oficial ouvido e, principalmente, a depender do preso em questão. Já a questão da perda de patentes dos envolvidos no caso no Superior Tribunal Militar é vista como um assunto que será deixado de lado mesmo se Lula ganhar.

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