Fundos de investimento no agro crescem (e rendem) com avanço do setor

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Por Bianca Alvarenga

Criados no ano passado, os Fundos de Investimento em Cadeias Agroindustriais (Fiagro) são um dos produtos financeiros mais” jovens” do mercado, mas já receberam mais de R$ 6 bilhões de recursos dos investidores brasileiros e estrangeiros.

Como o nome sugere, tais fundos se dedicam a financiar empreendimentos de toda a cadeia agrícola, desde os insumos, como sementes, até a logística que leva os alimentos para o exterior ou para a mesa dos brasileiros. São, atualmente, cerca de 30 fundos do Fiagro disponíveis aos investidores, com atuação em diferentes etapas da cadeia de produção e em diferentes setores e culturas atrícolas.

O crescimento do setor da agropecuária, que superou em quase duas vezes o do próprio PIB brasileiro em 2021, é um espelho do bom rendimento do segmento. Um levantamento feito pela consultoria Quantum Finance mostrou que alguns dos maiores Fiagro do mercado renderam até 36% em 2022, quase o triplo da taxa Selic, que é base para retorno da maioria dos ativos financeiros.

A boa distribuição de dividendos aos investidores do Fiagro esteve relacionada, principalmente, a um ciclo positivo para as commodities, como a soja e o milho. Nos últimos meses, em um contexto de guerra na Ucrânia e retomada de crescimento pós-pandemia, os preços de produtos agrícolas bateram recordes no exterior.

Fiagro é “primo” dos fundos imobiliários

A maior parte dos fundos agrícolas em negociação no mercado está na categoria de ativos imobiliários. São Fundos de Investimento Imobiliário (FII) dentro do escopo dos Fiagro. Na prática, esses fundos compram os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRA), um tipo de título de dívida emitido por empresas do setor para custear seus projetos.

Até pouco tempo atrás, as empresas do setor que precisavam de recursos para financiar seu crescimento só encontravam o caminho do crédito nos bancos. No caso dos grandes negócios agrícolas, ainda havia a porta do crédito subsidiado concedido pelos bancos públicos. Já aos pequenos e médios produtores, muitas vezes só restavam condições restritivas e juros mais elevados.

A criação do Fiagro e de outras regras que melhorou o acesso das empresas ao mercado de capitais tem mudado essa dinâmica. Hoje, 12% dos recursos que financiam o setor já estão fora dos bancos, em ativos como os CRAs e os próprios Fiagros. A tendência é que isso aumente ainda mais, daqui em diante.

“O governo terá que fazer escolhas difíceis para o orçamento público nos próximos anos, e o crédito agrícola não deve ser subsidiado como foi no passado. Restará ao mercado de capitais a oportunidade de financiar o segmento”, explica Julia Bretz, sócia da JGP, importante gestora do mercado financeiro.

Ela estima que o mercado potencial para os fundos agrícolas é de R$ 500 bilhões, o que colocaria o segmento entre as maiores categorias de ativos financeiros do mercado. Até 2027, o Fiagro deve captar mais de R$ 100 bilhões – ou seja, a categoria captará, em apenas seis anos, o que os fundos imobiliários levaram quase 20 anos para acumular.

“Os fundos imobiliários pavimentaram o caminho para o Fiagro, o investidor já entende melhor como funciona esse produto. Mas é fato que há um interesse maior pelo agro atualmente, porque é um segmento muito resiliente. Estamos falando, basicamente, da produção de comida, um bolsão da economia resguardado de tempos de crise”, diz Marcelo Petto, da gestora Hedge.

O especialista lembra que os fundos do Fiagro que investem em ativos imobiliários têm rendimento isento de Imposto de Renda, outro atrativo para o investidor.

No entanto, é importante lembrar que tais fundos compram títulos de dívidas corporativos, por isso, é necessário que o investidor saiba quais empresas e projetos estão atrelados ao fundo, para avaliar os eventuais riscos de inadimplência. Caso tais empresas não consigam pagar os credores, o rendimento do fundo será afetado.

Os eventos de inadimplência e, em última instância, de calote são raros no mercado de crédito brasileiro, uma vez que as autoridades que fiscalizam o setor têm regras rígidas de solvência e os próprios gestores dos fundos fazem um trabalho diligente para avaliar a saúde financeira das empresas que captam os recursos.

“Os juros altos são um problema porque encarecem a captação das empresas, então a inflação e a Selic são pontos de atenção para os próximos anos. Por outro lado, se tivermos uma piora no cenário local, a tendência é que o dólar suba, o que beneficia as exportações agrícolas. É, de qualquer maneira, um setor mais protegido dos ciclos negativos”, pondera Petto, da Hedge.

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