Homem perde testículo após ser agredido por policial durante manifestação em Paris

Policiais reprimem manifestantes durante protesto contra a reforma das pensões na França, em Paris, em 19 de janeiro de 2023. — Foto: Benoit Tessier/ Reuters

Por RFI

Um engenheiro franco-espanhol de 26 anos, que fotografava a manifestação contra a reforma da Previdência na quinta-feira (19) em Paris, teve que amputar um testículo após ter sido agredido por um policial. Vídeos nas redes sociais mostram o momento em que um membro das forças de segurança usa seu cassetete para dar um único golpe entre as pernas do jovem Ivan, que já estava no chão. Um processo está sendo aberto contra a polícia.

A informação foi divulgada na manhã de domingo (22) por Lucie Simon, advogada da vítima. Ela afirma estar iniciando um processo contra o policial, que é acusado de violência levando à mutilação, cometida por autoridade pública.

Segundo a advogada, trata-se de um crime e o argumento da legítima defesa não poderá ser usado pelo agente para justificar seu ato. “As imagens provam isso”, argumenta a advogada, que lembra que o rapaz não foi preso após a agressão.

Vídeos e fotografias que circulam nas redes sociais e em sites de emissoras francesas mostram claramente o momento em que um policial se afasta do pelotão, vai em direção ao rapaz, que está caído na rua, lhe dá um golpe de cassetete entre as pernas, e volta para o pelotão. O jovem, que segura um aparelho fotográfico, afirma que havia sido jogado no chão por outro policial.

“Foi um golpe tão forte que ele teve que amputar um testículo”, afirmou a advogada, que fala de um ato deliberado. “Ele apontou deliberadamente para seus órgãos genitais em um gesto cuja violência gratuita beira o sadismo”, completa.

Ivan, que vive em Guadalupe e estava de passagem pela França, continua hospitalizado. “Ele permanece em estado de choque e não para se que perguntar porque foi agredido”, diz a advogada. “Ele não representava nenhum perigo e sente uma mistura de incompreensão, choque e raiva, pois vai sofrer consequências irreversíveis”, declarou Lucie Simon.

Em entrevista ao jornal francês Libération, Ivan lembra que não é a primeira vez que um civil é vítima de violência da parte de policiais na França. “A diferença é que agora a cena foi filmada”, diz o rapaz, que afirma acionar a justiça “para que isso cesse”.

Ivan faz alusão às várias agressões cometidas pelas forças de ordem francesas nos últimos anos, principalmente durante manifestações. Na época dos protestos dos “coletes amarelos”, em 2019, dezenas de pessoas foram atingidas com balas de borracha lançadas por policiais. Pelo menos dez perderam a visão e os casos chamaram a atenção para o uso desproporcional da força em protestos.

A agressão de Ivan ocorreu durante os confrontos entre manifestantes e policiais nos arredores da Praça da Bastilha, em Paris, por onde passava cortejo de quinta-feira. Alguns manifestantes atiraram pedras e objetos contra as forças de segurança, que revidaram com gás lacrimogênio, mas também atacando diretamente alguns civis.

Governo exprime “empatia” com a vítimaUma investigação administrativa interna foi aberta desde sábado (21) para analisar o caso. Segundo a polícia, Laurent Nuñez, secretário de Segurança Pública de Paris, “pediu que as circunstâncias exatas do incidente sejam esclarecidas”. No entanto, as autoridades frisam que os fatos ocorreram “em um contexto de extrema violência e como parte de uma manobra da polícia para deter indivíduos violentos”.

Olivier Véran, porta-voz do governo francês, reagiu ao acontecimento e expressou sua “empatia” à vítima, mas disse que “é necessário entender as condições nas quais essa intervenção aconteceu”, e “identificar o que constitui legítima defesa”.

“Foi um momento bastante difícil para os policiais que foram, em alguns casos, foram agredidos”, lembrou o porta-voz. Mas “quando olhamos para a imagem [dos vídeo da agressão], sem dúvidas nos questionamos” e “nada justifica ser ferido desta maneira e ser operado desta forma”, avaliou Véran.

A manifestação em Paris reuniu 80 mil pessoas, segundo o Ministério do Interior, 400 mil de acordo com os sindicatos que organizavam a passeata.

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