Integrantes do Ministério da Justiça e da PF veem caráter político-eleitoral em crítica de Trump sobre PCC e CV

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Ministro da Justiça, Wellington Cesar Lima, durante cerimônia de sanção de projeto de lei no Palácio do Planalto - Pedro Ladeira - 06.ago.2026/Folhapress

por Folhapress

Integrantes do Ministério da Justiça e Segurança Pública e da Polícia Federal avaliam que a manifestação do governo Donald Trump, que acusa o Brasil de falhar no combate ao PCC (Primeiro Comando da Capital) e ao CV (Comando Vermelho), tem caráter político-eleitoral e afirmam não haver fato novo sobre o tema que justifique a declaração a poucas semanas das eleições presidenciais.

A avaliação ocorre após o governo americano afirmar nesta quarta-feira (16) que o Brasil “falhou em confrontar” as duas facções e que os grupos transformaram o país em um centro para o fluxo global de cocaína.

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A pressão dos Estados Unidos pelo combate às organizações criminosas ocorre em meio à campanha presidencial brasileira e num contexto em que autoridades do governo Trump manifestaram apoio ao senador Flávio Bolsonaro (PL).

Em contraponto ao entendimento da gestão Trump, integrantes do governo Lula (PT) ouvidos pela Folha sob reserva citaram o investimento anunciado pelo Brasil para o enfrentamento ao crime organizado no valor de R$ 11 bilhões e operações recentes.

Nesta quarta-feira (16), frisaram eles, as Ficcos (Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado), coordenadas pela Polícia Federal, deflagraram uma operação simultânea em 19 estados contra grupos investigados por tráfico de drogas e armas, lavagem de dinheiro, homicídios e outros crimes ligados a organizações criminosas.

Uma manifestação oficial do Brasil foi preparada pelo Planalto e pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (leia no final desta notícia).

Reservadamente, também veem a manifestação como parte de uma possível movimentação para novas sanções da Lei Magnitsky contra autoridades brasileiras, incluindo ministros do STF (Supremo Tribunal Federal).

A crítica do governo Trump aparece em um documento enviado pela Casa Branca ao Congresso americano na terça (15). No relatório, a gestão Trump identifica os países considerados grandes produtores de entorpecentes ou importantes rotas de narcotráfico e avalia os esforços de governos estrangeiros no combate às drogas.

A menção ao Brasil representa uma mudança em relação ao relatório do ano passado, quando o país não foi citado. Em 2025, a Casa Branca concentrou suas críticas em países como México, China, Colômbia e Venezuela e tratou de forma mais ampla do uso de designações terroristas e sanções contra cartéis e outras organizações criminosas transnacionais.

Neste ano, embora o Brasil continue fora da lista oficial de grandes países produtores ou de trânsito de drogas e também não tenha recebido a classificação de governo que “falhou de forma demonstrável” em suas obrigações, passou a ser alvo de uma reprimenda nominal da Casa Branca.

A mudança ocorre em meio a uma escalada da pressão do governo Trump sobre as duas principais facções criminosas brasileiras.

Em maio, o secretário de Estado (cargo equivalente ao de ministro de Relações Exteriores), Marco Rubio, classificou PCC e Comando Vermelho como “Specially Designated Global Terrorists”, ou terroristas globais especialmente designados. A decisão foi assinada em 28 de maio e publicada no início de junho.

A declaração acrescentou um novo capítulo à relação turbulenta entre Lula e Trump, marcada neste ano por tentativas de aproximação intercaladas com novos atritos.

Em maio, o brasileiro foi recebido pelo americano na Casa Branca em uma reunião de cerca de três horas, na qual os dois discutiram comércio, minerais críticos e combate ao crime organizado.

Poucas semanas depois, Flávio Bolsonaro (PL) se reuniu com o republicano e pediu que PCC e Comando Vermelho fossem classificados como organizações terroristas internacionais —medida adotada pelo Departamento de Estado no fim daquele mês e à qual o petista se opôs.

Leia a íntegra da nota do governo brasileiro, publicada nesta quarta-feira (16), que rebate a acusação dos EUA:

Em 15 de setembro, o governo dos Estados Unidos enviou ao seu Congresso lista anual dos países que identifica como maiores produtores e de trânsito de drogas. O Brasil não integra a lista de 23 países citados.

Entretanto, foi objeto de críticas laterais no documento. O governo brasileiro refuta quaisquer alegações de que existam falhas ou omissões no enfrentamento ao crime organizado transnacional.

A posição estampada na referida nota desconsideraria, se acolhida em todos os seus termos, os esforços do Governo Federal no enfrentamento ao crime organizado, como a Lei Antifacção, sancionada em março de 2026, que prevê penas mais severas para líderes de facções e cria mecanismos que asfixiam suas operações.

Também não levaria em consideração as dezenas de milhares de operações de combate ao crime, por forças federais, com bilhões de reais de prejuízo aos criminosos, bem como as múltiplas ações implementadas em 2026 no âmbito do Programa Brasil contra o Crime Organizado, lançado em maio último, que sufoca economicamente as facções, fortalece o sistema prisional, qualifica a investigação de homicídios e enfrenta o tráfico de armas.

A manifestação norte-americana desconsideraria a robusta cooperação já existente entre Brasil e EUA no combate ao crime organizado transnacional. Além disso, convém frisar a proposta entregue pessoalmente pelo presidente Lula no dia 7/5/2026, em Washington, com detalhamento de medidas conjuntas de enfrentamento à lavagem de dinheiro, compartilhamento de inteligência e combate ao tráfico de armas. Até o momento, permanecemos no aguardo da possível resposta do governo dos EUA.

O Brasil não foi incluído na relação de países formalmente classificados pelos EUA como principais rotas de trânsito ou de produção ilícita de drogas. A alusão registrada no texto não corresponde à categoria jurídica de descumprimento formal prevista na legislação norte-americana que rege esse mecanismo anual. Trata-se, portanto, de manifestação circunstancial inserida na parte narrativa do documento, sem respaldo em sua parte dispositiva.

O Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) reafirma que o combate ao crime organizado é prioridade do Governo Federal e vem sendo conduzido de forma permanente por meio de ações de inteligência, investigação, integração entre as forças de segurança e cooperação internacional e jurídica.

O Governo brasileiro seguirá atuando de forma soberana e coordenada no enfrentamento às organizações criminosas, como demonstram os resultados obtidos nos últimos anos. O enfrentamento ao crime organizado transnacional exige atuação contínua, integração entre instituições e cooperação. Essa é a estratégia adotada pelo Estado brasileiro e que continuará sendo fortalecida em defesa da segurança da população brasileira.

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