Mais da metade das brasileiras que já se relacionaram com homens afirmam ter sofrido violência, diz pesquisa

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Por Júlia Christine, Isabela Leite, g1 e GloboNews 

Violência contra a mulher, mão de socorro — Foto: Nino Caré/Pexels

Mais da metade (54%) das brasileiras que já se relacionaram com homens afirmam ter sofrido algum tipo de violência, enquanto apenas 11% dos homens reconhecem ter cometido algum tipo de agressão contra a parceira ou ex-parceira.

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É o que aponta a pesquisa de opinião “20 anos da Lei Maria da Penha: percepção da sociedade brasileira”, realizada pelo Instituto Patrícia Galvão e pelo Instituto Locomotiva.

O levantamento mostra também que cerca de 30 milhões de mulheres dizem já ter sido vítimas de violência por um parceiro ou ex-parceiro. Quando questionadas sobre situações específicas de violência, esse número sobe para quase 48 milhões de brasileiras.

Entre os principais obstáculos no enfrentamento da violência contra a mulher, a maioria das entrevistadas aponta o medo de denunciar por represálias ou por falta de proteção (68%) o risco de impunidade dos agressores (56%), e a lentidão da justiça (39%).

O objetivo do estudo é avaliar o conhecimento, a percepção da efetividade e os desafios da Lei Maria da Penha após 20 anos de sua criação, investigando como a sociedade reconhece as diferentes formas de violência contra a mulher, os mecanismos de proteção e as expectativas em relação ao futuro.

🔎 A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) é o principal instrumento jurídico do Brasil para prevenir e coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. Ela homenageia a farmacêutica Maria da Penha, que ficou paraplégica após sofrer duas tentativas de feminicídio por parte do marido e lutou por quase duas décadas para ver seu agressor punido.

Os resultados da pesquisa mostram avanços importantes promovidos pela legislação, mas também revelam que a violência de gênero permanece como um problema estrutural.

Segundo o estudo, a superação desse problema exige atuação articulada do Estado, fortalecimento das redes de proteção e transformações culturais capazes de enfrentar o machismo, a misoginia e outras desigualdades de gênero.

🔎 A pesquisa ouviu 1.500 pessoas de 16 anos ou mais, de todas as regiões do país, entre os dias 22 e 30 de abril de 2026, por meio de entrevistas digitais de autopreenchimento. A margem de erro é de 2,8 pontos percentuais.

Violência costuma ser praticada por homens próximos, na percepção das brasileiras

  • Parceiros ou ex-parceiros: 88%
  • Familiares ou parentes próximos: 33%
  • Pessoas conhecidas: 29%
  • Desconhecidos: 27%
  • Todos os tipos de homens igualmente: 9%
  • Outras mulheres: 6%

Violência psicológica é a forma mais relatada pelas mulheres

Mais da metade das brasileiras afirma já ter sofrido pelo menos um dos tipos de violência previstos na Lei Maria da Penha.

  • Violência psicológica: 42%
  • Violência física: 25%
  • Violência moral: 19%
  • Violência sexual: 10%
  • Violência patrimonial: 9%

Mulheres acionariam mais a polícia; homens dizem que interviriam diretamente

Ao presenciarem um homem agredindo uma mulher:

  • Chamariam a polícia ou outras autoridades: 70% das mulheres | 56% dos homens
  • Procurariam ajuda de outras pessoas: 11% das mulheres | 4% dos homens
  • Tentariam intervir discretamente, sem uso da força: 9% das mulheres | 19% dos homens
  • Tentariam intervir diretamente, usando a força se necessário: 7% das mulheres | 15% dos homens
  • Não interfeririam: 1% das mulheres | 3% dos homens
  • Não souberam responder: 1% das mulheres | 3% dos homens

Delegacia da Mulher é o serviço de apoio mais conhecido

Entre as mulheres entrevistadas, o serviço mais conhecido é:

  • Delegacia da Mulher: 75%
  • Ligue 180: 64%
  • Polícia Militar (190): 55%
  • Disque Denúncia: 54%
  • CRAS e CREAS: 34%
  • Juizados de Violência Doméstica e Familiar: 34%
  • SOS Mulher: 32%
  • Casa da Mulher Brasileira: 32%
  • Defensoria Pública: 29%
  • Ministério Público: 23%

Obstáculos no enfrentamento da violencia contra a mulher

Entre as mulheres entrevistadas, o maior obstáculo identificado foi:

  • Medo de denunciar por represálias ou falta de proteção: 68%
  • Impunidade dos agressores: 56%
  • Lentidão da Justiça: 39%
  • Cultura que naturaliza ou minimiza a violência: 35%
  • Falta de serviços de apoio às vítimas: 25%
  • Falta de aplicação das leis: 24%
  • Falta de preparo das forças de segurança: 23%
  • Falta de informação sobre direitos e canais de ajuda: 17%
  • Falta de envolvimento dos homens no enfrentamento da violência: 13%

Maioria associa a Lei Maria da Penha à proteção das mulheres

Entre as mulheres que conhecem ou já ouviram falar da lei:

  • Proteção às mulheres e às vítimas: 73%
  • Responsabilização criminal dos agressores: 15%
  • Prevenção e enfrentamento da violência: 4%
  • Proteção institucional e acesso à Justiça: 3%
  • Direitos e cidadania: 3%
  • Críticas ou negação da lei: 1%
  • Outros: 1%

Violência patrimonial ainda é a modalidade menos conhecida

Entre as mulheres entrevistadas:

  • Violência física: 88%
  • Violência psicológica: 78%
  • Violência sexual: 76%
  • Violência moral: 61%
  • Violência patrimonial: 46%
  • Além disso, apenas 39% sabem que a Lei Maria da Penha abrange esses cinco tipos de violência.

Medidas protetivas de urgência são amplamente conhecidas

Conhecimento dos direitos e medidas previstos na lei:

  • Medidas protetivas para impedir aproximação do agressor: 83%
  • Afastamento do agressor do lar: 74%
  • Abrigos para mulheres em situação de risco: 68%
  • Atendimento psicológico e jurídico gratuito: 64%
  • Proteção patrimonial das vítimas: 38%

Como eram tratadas as situações de violência doméstica e familiar antes da Lei

Entre as mulheres entrevistadas:

  • Predominava a ideia de que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”: 81%
  • Mulheres não tinham onde buscar ajuda: 81%
  • As punições aos agressores eram brandas: 64%

Além disso:

  • 7 em cada 10 mulheres afirmam que a Lei Maria da Penha tem impacto real na vida das mulheres.
  • 54% dizem se sentir mais protegidas pela existência da lei.
  • 3 em cada 4 brasileiras afirmam que a legislação as tornou mais conscientes sobre os riscos de sofrer violência.
  • 77% das mulheres creem que os homens não entendem determinadas atitudes como violência, e 82% consideram que muitos homens se omitem diante de outros homens

Homens dizem que a Lei Maria da Penha mudou seu comportamento

  • 57% homens concordam com a frase: “A existência da Lei Maria da Penha faz com que eu trate as mulheres de forma melhor”.
  • 60% homens concordam com a frase: “A Lei Maria da Penha faz com que eu me sinta mais em alerta sobre os riscos de cometer violência no meu dia a dia”.

Maioria considera que a lei protege as mulheres apenas parcialmente

Perguntadas se a Lei Maria da Penha protege as mulheres contra a violência doméstica e familiar:

  • Sim: 25%
  • Em parte: 67%
  • Não: 8%

Além disso:

  • 80% concordam que a Lei Maria da Penha ainda não funciona na prática como deveria.
  • 82% entendem que a legislação, sozinha, não é suficiente para enfrentar a violência contra a mulher.
  • Apenas 41% consideram que as forças de segurança pública estão preparadas para atender adequadamente mulheres em situação de violência.

Apoio às vítimas e punição mais rígida aos agressores lideram lista de medidas consideradas eficazes

As ações apontadas como mais importantes para enfrentar a violência contra a mulher foram:

  • Ampliar o apoio e a proteção às vítimas (assistência, atendimento psicológico, jurídico e abrigos): 91%
  • Endurecer as leis e aumentar a punição aos agressores: 91%
  • Melhorar a aplicação das leis e o funcionamento da Justiça: 90%
  • Promover educação e prevenção da violência (escolas, campanhas e conscientização): 89%
  • Facilitar o acesso aos canais de denúncia: 89%
  • Promover a autonomia financeira das mulheres: 88%
  • Fortalecer a atuação das forças de segurança: 88%
  • Criar grupos de reflexão para homens que cometeram violência: 73%.

*Pesquisa inédita foi realizada pelo Instituto Patrícia Galvão e pelo Instituto Locomotiva, com apoio da Uber.

Onde denunciar

A denúncia é fundamental para romper o ciclo da violência contra a mulher, permitir a responsabilização dos agressores e garantir que as vítimas tenham acesso à rede de proteção e aos serviços de apoio.

🚨Casos de violência podem ser denunciados pelo telefone 180, a Central de Atendimento à Mulher, que funciona gratuitamente em todo o país e oferece orientação sobre os direitos das vítimas e os canais de atendimento.

Em situações de emergência ou flagrante, a recomendação é acionar a Polícia Militar pelo telefone 190.

Também é possível registrar ocorrência em delegacias, especialmente nas Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deams), ou buscar atendimento no Ministério Público e na Defensoria Pública.

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